terça-feira, 29 de agosto de 2023

 

                                           O Celestial Sorriso da Ira

            Mascando sal, subi a ladeira até o fundo do poço, encontrando pedras moles que espremi tirando gotas de madeira. Distraído, deitei-me num campo coberto de formigas e fiquei a pintar jabutis. O sol queimava-se no belo horizonte (argh!) e eu me aqueci com um cobertor de vidro. Quando o pássaro chegou, com o seu lindo bastão de calha, tive de atirar, matando-me para a sorte. Sem coragem de me penitenciar, contraí um dos meninos e corri até onde o alcance da vista superou, obtendo informações da jovem quadrúpede. Mais tarde, quando as bolhas se desfizeram em advertências, suportei todas as inconfiabilidades, até pisar em uma cabeça de mármore gelatinosa. Foi assim que o tubo de sabão de pedra escorregou entre a vasta cabeleira de um eunuco, trazendo para o meu lado o arrependimento de não ter sabido dominar o impulso da degustação. Quando a brasa da manhã ardia com a lua, mastiguei dois pedaços de lente embaçada e me vi trincado entre a necessidade de expandir e o desejo de desvirtuar. O sentido de observação se aprimorou, e eu consegui saltar o riacho, mas logo me deparei com dois demônios brancos, que me propuseram: um, uma orla semipoluída e outro um arquétipo de nó. Tentando entender melhor aquele trovão, cortei uma das orelhas de um crocodilo e costurei-a no rabo de uma cotovia, que gritou até estilhaçar a já sensível camada que protege a terra das tormentas boreais. A partir de então, só quem não se dava com cadeira de balanço, conseguia argumentar com o celestial sorriso da ira. Quanto mais se eletrificava o desejo de reagir, mais correlação de sulco escorria pelos dedos calosos. A bolha, agora, estendia-se pelo travesseiro e dominava grande parte do esôfago. Nada que se tentasse, com relação ao prosaico mundo das traineiras, seria compensador, uma vez que o manicômio estava restrito a benditos eclesiásticos.

sábado, 26 de agosto de 2023


Eu matei uma formiga

Eu matei uma formiga. Não me senti forte, nem poderoso; aliás, nesse momento, nem pensei no ato de estar matando uma insignificante formiguinha, mas logo essa atitude irracional me levou a pensar no ser humano, na sua necessidade de adquirir poder, na sua capacidade de destruir o belo.

As coisas são tão perfeitas, por que nós resolvemos acabar com tudo? Quando o homem descobriu o verbo, o fogo, a roda, não imaginava que isso, um dia, faria dele um monstro poderoso, capaz de destruir tudo, inclusive a si próprio. A partir destas descobertas o desenvolvimento humano, a evolução, o seu progresso tecnológico foi todo adquirido através de guerras e destruições. O tacape, a flecha, o canhão, o avião, os foguetes, tudo foi inventado pelo homem com a intenção de dominar outros homens.

Eu, como resultado de tudo isso, fiquei olhando aquela formiga caminhando sobre a escrivaninha de tampo de vidro. Ela rodeou o teclado, passou sobre a agenda preta e veio em minha direção. Eu estiquei o dedo indicador da mão direita, posicionei-o um pouco acima e desci com força esmagando-a no vidro.

Só depois de praticar esse ato covarde foi que eu percebi que viver é uma aventura para todos nós, e eu, irracionalmente, acabei com a aventura daquela indefesa formiguinha.

É claro que ninguém vai querer aceitar isso com naturalidade, mas viver é uma aventura também para uma barata.

quarta-feira, 23 de agosto de 2023

 

Insignificância

Você já parou para pensar no quanto insignificante você é? Não estou dizendo no seu quarto, na sua casa, na sua rua, no seu bairro, na sua cidade, no seu estado, no seu país, no mundo.

            Estou dizendo no universo. Você não é nada, não sabe de nada. Sabe aquela verdade absoluta que você sempre defendeu com intransigência, como fato consumado? Não é nada diante da imensidão do desconhecido, portanto, coloque o rabo entre as pernas, saia da soberba e tente entender, pelo menos, o que você está fazendo da sua vida no mundo, no seu país, na sua cidade, no seu bairro, na sua rua, na sua casa, no seu quarto.

sábado, 19 de agosto de 2023

 

A minha cama

A minha cama sempre foi um dos lugares mais aconchegantes, um refúgio onde eu conseguia me confortar. Ali eu me sentia protegido; não por ninguém, mas pela cama, pelas cobertas, pelo quarto, pela intimidade de estar deitado num lugar seguro. E era cair ali e dormir, sem problemas.

Hoje eu não sinto mais essa segurança. Não sinto a proteção de outrora. Estou sempre assustado, esperando que o pior aconteça. No mundo de hoje o pior está para acontecer a qualquer momento e isso mudou tudo.

Talvez seja eu que tenha mudado, pois o mundo está para acabar desde a Era Mesozoica, e isso nunca acontece.        

            Então coloco sobre o ouvido uma almofada e espero, por muito tempo, que os pensamentos se esvaiam, até que eu encontre um pouco de paz antes de voltar a esperar que o pior aconteça.

terça-feira, 15 de agosto de 2023

 

O amolador

Ser mascote parecia ser a sina do amolador. Ele mascotava sempre que amolava e tudo o que era feito com boa intenção era reconhecido por um único homem: o empreendedor, que vivia dizendo ao mascote para estudar, estudar, estudar, até perder um pedaço da capacidade de raciocínio e concentração. Depois ele deveria aprender a sorrir com o canto da boca para que todas as pessoas aceitassem os seus argumentos, sua arrogância, suas mentiras e hipocrisias, e que, só assim, ele deixaria de ser um mascote e viraria um verdadeiro amolador que amola.

Seria uma dura empreitada, mas o mascote amolador estava decidido a abrir mão de várias situações de prazer para que, um dia, conseguisse alcançar o seu objetivo, que era o de virar um amolador verdadeiro.

Aí, sim! Tudo partiria dele.

quinta-feira, 10 de agosto de 2023

 

Consolidação

Hoje o arbusto curvou-se diante da necessidade de se costurar medidas de suficiência. Hoje, ademais, se consolidou também a caracterização do desejo. Diante de todos os fatos oníricos captados pela manhã, premeditou-se o sofrimento, todavia, andaremos fingindo estabilidade.

Hoje, para justificar a bondade que se acumulou nos processos de rejuvenescimento aleatório, pede-se que se ouça aquele grito de indignação obtusa. Hoje, para melhor dizer, é de se imaginar que nada faltará, além do nada já existente.

            O absurdo do desejo incontrolado, incontido, contestado, não retribuído, me leva a concluir que o dia de hoje só existirá para os outros.

sábado, 5 de agosto de 2023

 

Conquistas

            Você é induzido a mentir como todos mentem, e se não o fizer, estará fora de um mercado próspero, que cresce a cada dia dando grande conforto aos mentirosos. Você é impingido a fingir, como todos fingem, e este é outro mercado promissor. Você sorri com o canto da boca, meneia a cabeça quando ironiza, disfarça um olhar de desaprovação, cospe - em pensamento - no rosto de um desafeto, bajula os poderosos, ignora os necessitados, necessita de cada centavo alheio, e justifica tudo isso em nome de uma causa nobre: acumular o máximo de objetos possíveis, para, no fim, morrer como todo mundo.

quarta-feira, 2 de agosto de 2023

 

                                                     A cirurgia
            

            Desapressado, coloquei o jaleco, a touca verde-clara e sentei-me na poltrona do quarto do hospital para esperar a maca. Subitamente corri para o banheiro e todos me olharam apreensivos, preocupados com o meu estado emocional. Naquele momento eu só queria me olhar no espelho, e rir. Aquele jaleco, aquela touca, a barba por fazer, me fizeram rir até me urinar todo, dando um grande trabalho às pessoas que me acompanhavam. Elas, solidárias, riam também, sem entender que eu, naquele momento, descia da soberba e me enxergava como realmente sou: um monte de carne podre.

quarta-feira, 26 de julho de 2023

 

                                             Solidão da Solidão

    
            Eu não aguentava mais o meu chulé; não por não lavar os pés, e sim, por não ter ninguém para lavar as minhas meias, as minhas cuecas, as calças e camisas. Eu não aguentava mais tomar sopa, comer sanduíche, andar amarrotado. Não aguentava a poeira ultrapassando os limites dos cantos dos móveis, as panelas engorduradas, acumulando moscas, a cama eternamente por fazer.

Eu não aguentava viver a solidão da solidão, e num momento inesperado, Dona Ruth voltou para pegar alguns pertences que deixara para trás, e depois de inspecionar a casa, e de sensibilizar-se com a minha postura carente, resolveu retornar ao trabalho, exigindo, obviamente, um salário mais elevado.                                                


domingo, 23 de julho de 2023

 

Da Lágrima à extraventura

Sonhei com a frase: “Da lágrima à extraventura”. No sonho eu não me envolvia numa história. Levantei-me e anotei a frase. Perdi o sono.

Já acordado, na penumbra, apoiando a cabeça no almofadão, imaginei uma linda mulher chorando pelos cantos da sua casa. Ela descobrira há pouco que seu marido a traía, e isso a tornara muito infeliz. 

Enquanto eu imaginava o sofrimento daquela mulher, tocou a campainha da sua casa. Era o entregador da farmácia. Ele era jovem, limpo, até bonito. Ela, depois de conversar um pouco sobre coisas triviais o levou para o quarto. O fato de ela ter transado na cama que vivera bons momentos com o marido a excitou bastante.    Depois foi o entregador de pizza, o da lavanderia, o técnico em informática, até o jovem louro do Pet Shop, que aparentava ser menor de idade foi beneficiado. O tempo foi passando e ela mal se lembrava das infidelidades do marido.

Eu, satisfeito com o desfecho da história, joguei o almofadão para o canto e voltei a dormir, até acordar atrasado para trabalhar.

sexta-feira, 21 de julho de 2023


                                        Construção

com                            com                           com                        com
ponho                        primo                          tudo                       pleto
tiro                             salto                           fico                         com
rasgo                         alto                             cego                      dizente
risco                           solto                           fico                        com
rio                               sinto                           surdo                    cludente      
mio                             dez                             fico                        com
pio                              afio                             mudo                     tagio

domingo, 16 de julho de 2023

 

A Vagina

Uma vagina, ali entre as pernas de uma mulher, num dia qualquer de semana, “andando” sob um sol forte no centro da cidade, não tem a menor importância, o menor valor, a não ser o de facilitar, a qualquer momento, os incômodos das necessidades fisiológicas. Além disso, uma vagina, numa situação como esta, pode até estar suja, às vezes de urina ou mesmo de fezes, quando o papel higiênico não foi usado de forma adequada.

            Uma vagina, “andando” pelo centro da cidade, pode estar sendo ferida por uma minúscula calcinha lilás, que aperta-lhe um dos pequenos lábios, mas dependendo da situação em que se encontra, a mesma vagina, num lugar adequado, com a música adequada, com a luz adequada, com os corações pulsando adequadamente, tem uma personalidade tão forte, é tão importante, é tão vigorosa, que dá até vontade da gente se acabar nela.

quinta-feira, 13 de julho de 2023

 

Inspiração

            Estou atrás da inspiração. Ela anda apressada, esconde-se entre pilastras e becos escuros. Às vezes alguns flashes de luz imergem do seu corpo, me proporcionando uma grande alegria, porém, logo se transforma em vazio. Enquanto ela não vem, eu uso a intuição, a consciência, a imaginação. Nada é tão sublime quanto a inspiração. Ela nos remete a um lugar desconhecido, e sem que nos esforcemos, passamos a transitar por lá como se estivéssemos em um ambiente de grande intimidade.

domingo, 9 de julho de 2023

A mercadoria

Eu transava com uma puta. Acertamos que ela me visitaria todas as quintas-feiras. Ela era mais velha e usava um perfume insuportável. Às vezes o talco que ela passava no pescoço e debaixo do braço misturava-se ao suor, e após endurecer, formava vários registros indecifráveis no seu corpo. Nós brigávamos por motivos fúteis, mas eu sempre relevava, pois, um homem solitário, sem as duas pernas e a mão esquerda, não tem o direito de exigir nada, nem de uma mercadoria que é paga para servi-lo.

quinta-feira, 6 de julho de 2023

 

Axiomas

Desculpe a pretensão, mas lendo alguns axiomas e postulados de Euclides, cheguei à conclusão de que com o óbvio você também consegue ficar famoso. Pelo menos ele ficou. Preste atenção:

• Coisas iguais a uma terceira coisa também são iguais entre si.

• Todos os ângulos retos são iguais entre si.

• Se quantidades iguais são subtraídas de coisas iguais entre si, os restos são iguais.

• O todo é maior do que a parte.

• Pode-se traçar um círculo com qualquer ponto como centro e com qualquer raio.

• Acrescentando-se quantidades iguais a coisas iguais entre si, obtêm-se somas           iguais.

• Pode-se traçar uma reta de qualquer ponto até qualquer ponto.

• Qualquer linha reta pode ser prolongada até o infinito.

• Coisas que coincidem umas com as outras são iguais entre si.

           • Dados uma reta e qualquer ponto fora dela, pode-se traçar por este ponto uma reta,               e apenas uma, paralela à primeira.

domingo, 2 de julho de 2023

 

Azul

Um homem sentado em um banco da praça, à direita do banco em que eu me encontro, olha para o céu. Ele está ali já há algum tempo e eu procuro algum motivo que o leva a olhar para lá. Não há nuvens nesse momento, nem pássaros, nem aviões. Só existe o azul que nós dois olhamos.

Será que nós vemos o mesmo azul? Quem me garante que o azul, o meu azul, o azul que eu conheço não é o meu vermelho para esse homem? Só nós dois é que sabemos. Ninguém jamais viu o meu azul, nem o azul dele. O meu azul não pode ser o meu vermelho para ele? Pode ser, e como ele só tem a referência de azul como o meu vermelho, se maravilha ao olhar para o céu que eu estou vendo azul, azulzinho, enxergando vermelho, vermelhinho.

            Nós nunca vamos saber se estamos enxergando as coisas da mesma maneira, se as formas e as cores são as mesmas, mas o certo que vamos sentindo, vivendo, enxergando como se tudo fosse absolutamente igual para todos. Eu estou satisfeito com as core que vejo, e ele? Talvez o seu azul seja marrom escuro e ele esteja achando tudo maravilhoso. ARGH!

quinta-feira, 29 de junho de 2023

 

Sim

- Sim - eu disse, diante e da insistência de Elenice por uma resposta, mesmo que negativa.

Eu não queria ter dito sim, eu não deveria. Estava me odiando naquele momento por ter pronunciado aquela palavra. Até aquele momento eu não sabia que ainda restava algo entre nós, que me levara a dizer aquilo.

- Então eu vou desfazer as malas - ela disse, arrastando duas enormes malas para o quarto.

Eu aceitei a minha derrota e fiquei um bom tempo fumando na sala, remoendo mágoas, e quando ela me pediu, ainda do quarto, para que eu guardasse as malas vazias, enquanto tomava um banho, senti um princípio de ereção, e poucos minutos depois, me despi e passei a esperá-la deitado na cama.

sábado, 24 de junho de 2023

 

Lembrança

Lembro-me da solidão. Lembro-me de uma formiga ocupando o vazio da minha existência. Naquele momento eu era uma criança desamparada. Naquele momento eu não sabia de solidão, nem de desamparo. Hoje eu sei que as lembranças são reelaboradas pela experiência. Ela é conveniente com o presente, não com o passado, e floreia tudo isso, não me deixando sentir a verdadeira dimensão de desamparo que eu sentia naquela hora.

O tempo interferiu nos acontecimentos.


quinta-feira, 22 de junho de 2023

 

Jazz

O jazz é poesia. Muita gente não entende poesia, detesta jazz. Indiferente a tudo isso o jazz vai seguindo o seu caminho. O saxofone tocando lento, o baixo entrando sem ser chamado, e a bateria, de mãos dadas com o piano, que sussurra uma melodia. E como se não bastasse, existe ainda a voz de um cantor desafiando o imprevisto.

Quando você acha que o tom vai subir, desce. Quando acha que o tom vai descer, diminui. Quando você acha que acabou, começa...

E lá vai o sax: FÔÔÔ... e a bateria: TU, TU, TUTAK, e: PLIM, PLIM, PRUOOOOOOOMMMMMM, o piano. O baixo também tem sua personalidade: TGUM, TGUM, TGUM...

domingo, 18 de junho de 2023

 

O jardineiro

O jardineiro tem a sua importância, mas convenhamos: ele priva a natureza de exercer toda a sua exuberância. Ele transforma um ninho de cobra em uma casa de Barbie. Nós achamos a casa de Barbie maravilhosa, principalmente se for construída nos jardins de um castelo ou na entrada de um Shopping. Sem desmerecer a profissão do jardineiro, que faz uma maquiagem na natureza para que nós vivamos iludidos e satisfeitos, acho que ele deveria deixar os jardins mais perigosos e selvagens para que as pessoas não se sintam tão poderosas.

quinta-feira, 15 de junho de 2023

 

O tempo e o sonho

            José Abascal – peguei esse nome numa agenda espanhola - acorda assustado com o bater de uma porta, justamente quando no sonho ele leva um tiro. Maria Bassas, também da agenda espanhola, temerosa, pede para que ele faça uma vistoria na casa. Pode ser um ladrão, ela diz. Ele, impaciente, levanta-se e vai olhar. É o vento, ele diz, depois completa: eu estava sonhando e.... conta o sonho. Isso já aconteceu comigo. Isso o quê? ele pergunta, e ela descreve um sonho onde cai, e quando bate com a cabeça no chão, acorda com o barulho de um abacate se desprendendo do pé e caindo sobre o telhado. Quem sabe os acontecimentos do sonho caminham de acordo com o barulho que se fará ouvir, diz Abascal. Maria Bassas não entende. Se fosse um daqueles sustos, ele diz, que a gente leva de vez em quando, tudo bem, mas o barulho da porta batendo tem que coincidir com o tempo do sonho. Coincidir exatamente! Será que vamos sonhando vagarosamente para que o barulho do tiro coincida com o da porta batendo, como foi no meu sonho? Maria fica pensando, e logo se distrai com a possibilidade de o ladrão já estar dentro da casa.

sexta-feira, 9 de junho de 2023

 

O prego

               Achei um prego no chão. Prego novo, de aço. Aquele prego não me interessava. Se fosse um prego com personalidade, torto, desprezado, enferrujado, eu teria me apossado dele. Aquele prego não tinha história. Joguei-o novamente na calçada e voltei ao esplendor das coisas inúteis.

segunda-feira, 29 de maio de 2023

A terra passeia esplêndida

A terra passeia esplêndida pelo espaço eterno, e eu, lá dentro, vagueio pela noite sombria, carregando meus fracassos e minhas tristezas, sem consciência do esplendor da terra no seu passeio sem fim.

 

quarta-feira, 24 de maio de 2023

 

O Banquete

Acordei com o sol queimando-me o rosto. Abri vagarosamente os olhos, e após ser agredido por uma intensa claridade, deparei-me com o azul deslumbrante de um céu sem nuvens. A cidade borbulhava. Queria estar longe de casa, porém, quando criei coragem para olhar ao redor, descobri estar na Praça Antero de Quental, no Leblon, bem em frente ao prédio onde moro. Aos poucos fui me lembrando da festa, da minha briga com a Marta após a saída dos convidados, da sua maneira agressiva me mandando tomar cachaça com os mendigos da praça.  Lembrei-me da minha determinação, comprando várias garrafas e oferecendo um banquete aos meus novos amigos. Aos poucos as imagens foram ressurgindo, e com dificuldade, apoiei-me numa árvore para me levantar. Algumas babás, assustadas com a minha aparência, chamavam as crianças para junto delas.

Quando eu vi que estava todo mijado e cagado, coloquei a camisa sobre o rosto e caminhei cambaleando para o meu prédio.

sábado, 20 de maio de 2023

 

A macieira

A árvore do conhecimento era a macieira. Era proibido comer a fruta que ela nos proporcionava, apesar de ela produzir uma fruta muito palatável. Nós preferimos o conhecimento à possibilidade da vida eterna. Preferimos o conhecimento a ficarmos babando bestamente num lugar maravilhoso, sem saber o que se passava ao nosso redor.

Foi daí que vieram os desejos inalcançáveis, as futricas, a necessidade de ser mais, a inveja, mas tudo com muita intensidade. E no meio de tudo isso eu já não sei o que seria melhor: viver eternamente o gozo da alienação ou conviver com a burrice das pessoas à nossa volta.

segunda-feira, 15 de maio de 2023

 

O tempo

O tempo tem lá a sua maneira de enganar as pessoas. Ele nos distrai com os acontecimentos, os mais maravilhosos ou os mais escabrosos. Nós estamos sempre distraídos com coisas boas e ruins.

Enquanto isso o tempo vai passando e quando a gente se assusta, lá se foram os fios de cabelo, os desejos íntimos, e a gente passa a correr com o tempo, agora, conscientes dele, agora, tentando superá-lo, mas sabendo que nada conseguirá amenizar a sua passagem.

domingo, 7 de maio de 2023

 

Em busca da paz eterna

            Primeiro, a sensação agradável de um casal na cama, depois um espermatozoide sendo jogado, entre milhares, dentro de um canal. Um deles, como os outros, caminha apressado sem saber por quê. Continua correndo, disputando com todos os outros, não se sabe o quê. Finalmente ele, só ele, entra em um lugar gelatinoso, aconchegante, que se fecha à sua volta. O lugar é confortável e logo acontecem várias transformações, até que um de nós saia de uma fenda secretante que nos expele, e depois de algum tempo já estamos disputando, agora, dinheiro, poder, correndo para chegar ao topo, não se sabe de onde, com a esperança de, no fim, entrarmos num lugar claro, aconchegante, e finalmente encontrarmos a tão sonhada paz eterna

quinta-feira, 4 de maio de 2023

 

Fogo de palha

Eu parei de fumar. Isso há muitos anos. Não tive problemas ao parar. Não fiquei parando mensalmente, passando para todos um atestado de fraqueza. Resolvi e pronto!

Eu estou dizendo isso porque ontem, depois desse tempo todo, senti uma grande necessidade de fumar novamente. A tarde estava linda e eu sentei-me em um banco da praça para admira-la. Faltava-me companhia e o cigarro, certamente, cumpriria esse papel.

Foi apenas fogo de palha, e eu, mais só do que antes, pois agora, também sem o cigarro, fiquei lá, até que a escuridão viesse abraçar a minha solidão

sábado, 29 de abril de 2023

 

Tour em l’air

Depois de receber o telefonema de um amigo, marcando um encontro para aquela noite, o rapaz correu até o canto da enorme sala da sua casa, abriu os braços, ficou na ponta dos pés, e, com o corpo apoiado em uma das pernas, estendeu a outra para trás. Estendeu também os braços: um para frente e o outro para trás, como se querendo que a ponta da mão esquerda, que estava para frente, ficasse o mais longe possível do pé direito, que estava para trás. Avançou pela sala na ponta dos pés numa sucessão de passos curtos e uniformes. Já quase perto da parede deu um tour em l’air, virando-se novamente para a porta. Depois deu um salto, acompanhado de cruzamentos rápidos e sucessivos das pernas, e correu novamente na ponta dos pés com um braço para a frente e o outro para trás.

Seus movimentos eram delicados, e depois de vários baattus, brisées, fonettés, pás de bourrées e releves, olhou para a porta da sala e se deparou com o pai, um oficial da reserva, segurando algumas sacolas de supermercado e olhando-o assustado. Ele também se assustou, e, imediatamente, caminhou com passos firme até a porta para ajudá-lo a levar as compras para a cozinha.

 

quarta-feira, 26 de abril de 2023

 

                                                    

Poder

               Segui o rebanho. Quando assustei estava preso a pequenos delitos e logo me incorporei a eles, como todos fazem. A partir daí, minha carreira deslanchou. Como se chutando folhas secas para abrir o caminho, fui eliminando obstáculos, até que ninguém mais, de sã consciência, ousou interferir no destino traçado por mim, porém, uma prostitutazinha de quinze anos, fruto de uma aventura inconsequente, apoiada por participantes de uma organização internacional, resolveu me enfrentar no parlamento, trazendo-me para esta cela especial da Polícia Federal.

domingo, 23 de abril de 2023

 

A felicidade

            A felicidade, quando cai sobre o seu corpo como uma pedra, passa a iludi-lo, causando uma sensação de grande euforia e prazer. Não se iluda: pegue essa pedra, por mais pesada que ela seja e devolva-a para o lugar de onde ela veio. Ela não durará muito tempo mesmo! As duradouras chegam calmamente, como um leve sopro que se transforma em ventania. Essas sim, nos causam prazer, e apesar de não serem eternas, são nossas companheiras, até a chegada da tristeza, que cai sobre o nosso corpo como uma pedra, para durar uma eternidade.

quinta-feira, 20 de abril de 2023

 

Limites

Sem muita convicção parei o carro diante do motel e fitei os olhos de Leila, buscando cumplicidade, no entanto, só consegui um contorcionismo facial que me fez seguir em frente.

            Aquela situação estava se tornando insustentável e eu, não querendo ultrapassar os limites estabelecidos, há anos, pelo nosso pai, esperava, pacientemente, por uma volta à infância, onde, apesar da culpa que carregávamos, vivíamos momentos de intensa felicidade.

sábado, 15 de abril de 2023

 

Liberdade provisória

            Tomado por uma grande necessidade de liberdade, saí, atravessei a cidade e situei-me num campo florido, até que um enxame de abelhas levou-me para a praia, deixando-me a contemplar pernas roliças, seios firmes e bem delineados de lindas moças, e no momento em que essas moças começaram a tirar os seus biquínis, tentando, delicadamente, esconder o sexo, apesar de seus olhares insinuantes, e eu já sentindo um princípio de ereção, ouvi o barulho da portinha se abrindo e vi a panela com um caldo marrom sendo jogada cárcere adentro, trazendo-me, imediatamente, para a minha terrível realidade.

quarta-feira, 12 de abril de 2023

 

O Duque de Valparaíso

Ele chegava ao fim da tarde e sentava-se, invariavelmente, nos mesmos cacos que o proprietário do botequim insistia em chamar de banco. À partir daquele momento, era um alvoroço lá dentro, com o dono do estabelecimento cortando o salame em fatias finas - exigência do Duque - e a mulher do proprietário servindo uma generosa dose de cachaça num copo grande. Os clientes, que eventualmente estivessem ali naquela hora, permaneciam-se calados, até quando ele tomava a terceira pinga, jogava os restos de salame para o gato, e saía.

O Duque, por sua fama de impiedoso matador, era muito respeitado no Bairro Valparaíso, e seu apelido, que todos conheciam, apesar de ninguém ter coragem de pronunciar na sua presença, viera após ele ter sido mordido por um cachorro de nome Duque, e ter revidado, mordendo-o até a morte.

domingo, 9 de abril de 2023

 

Mesa de bar

Palavras, pétalas, prósperos, pedras, pulgas, primos, cócegas, canção, cão. Você entra no papel. Ali está o mundo. Ali está o que pode acontecer, ali está o que vai acontecer. Nada em volta tem valor. As pessoas falando, alguém festejando, todos cantando, e você lá, introspectivo, mas feliz com o mundo às suas mãos. O mundo da escrita, com todas as suas particularidades e individualidades, satisfaz plenamente a quem está escrevendo, principalmente se este alguém estiver sozinho numa mesa de bar.

quarta-feira, 29 de março de 2023

 

Uma grande emoção

A sua chegada não chamou-me a atenção, tampouco a estridente campainha da porta da lavanderia tirou-me do devaneio proporcionado pelo barulho da máquina a rodar a roupa, tentando limpar o que a cidade nos proporcionara.

 Depois de colocar as suas roupas na máquina, ela sentou-se ao meu lado, apesar de várias cadeiras vazias, e ficamos lá, a compartilhar monotonia.

De repente, tocou-me de leve a mão, fazendo com que eu, numa atitude inesperada, e até então inédita, cobrisse-lhe a mão com a minha, passando, desde então, a ouvir os sons do seu corpo, até a chegada do meu marido para ajudar-me a levar as roupas e a possibilidade do amor para bem longe dali.

sábado, 25 de março de 2023

 

Foguete extra temporal

Se você estiver sentindo um infinito desejo de liberdade, apesar de estar livre dentro de uma grande cidade, insatisfeito com o excesso de pormenores inúteis, ou mesmo preso no trânsito, não querendo estar lá, ou realmente preso em uma cela, condenado a muitos anos de cadeia, nunca se esqueça de que o pensamento, no mundo em que vivemos, é a nossa única forma de liberdade, e consciente disto, em poucos segundos você pode estar andando, e de repente, voar, e ao se deparar com um avião à frente, mergulhar em uma de suas turbinas, saindo do outro lado dividido em milhões de pedacinhos reluzentes, e ao unir-se novamente, pode transformar-se em um ser supremo, pretensioso, e nesse momento, voltar à terra como uma minhoca, sentindo claustrofobia com toda a intensidade, e depois da experiência do medo intenso, rasgar a terra partindo atrás de um grande amor, se entrelaçando em braços e pernas da mulher amada, sentindo um amor tão profundo, tão intenso e verdadeiro, a ponto de lançar-se para bem alto, transformando-se em um foguete extra temporal, que atravessa todas as galáxias existentes e todos os mundos imaginários, viajando por bilhões e bilhões de anos luz, até chegar em um lugar onde nada importa além da felicidade e do amor.

quinta-feira, 23 de março de 2023

 

Juventude

            Eu já fui jovem e a lembrança disso é nostálgica e grandiosa. Quando me lembro é como se só eu tivesse sido jovem, e através disso levasse uma grande vantagem sobre todas as outras pessoas, apesar de todas elas terem sido jovens também.

            A juventude é uma dádiva, uma benção, e quando a gente está vivendo essa época, não dá o menor valor, a menor importância. Não existe mérito em ser jovem ou velho, e sim, a sensação agradável de sentir toda a falta de responsabilidade que a juventude nos traz.

domingo, 19 de março de 2023

 

Camisa de força

         Quando eu chegar lá, vão espremer o meu cérebro até produzirem máscaras invisíveis que me auxiliarão na diminuição de todo o meu prazer, e esta ausência de qualquer coisa me libertará do outro, que exige tanto de mim. Logo estarei curado e então vocês verão como sou dócil, obediente e prestativo. Ficarei assim até que a intransigência alheia me leve novamente para a Camisa de Força.

quarta-feira, 15 de março de 2023

 

Tudo se resolverá da pior forma

        Pássaros despencam sobre o asfalto caudaloso. Crianças brincam com vísceras de animais de estimação. Beatas queimam crucifixos para aquecer a sopa. Políticos, desesperados, penitenciam-se de seus pecados com correntes de ferros enferrujados. Cão feroz se rende ao carinho de um gato. Crianças surpreendem-se diante de suas súbitas bondades. Ninfetas, insatisfeitas, organizam-se para lutar contra a apatia dos idosos babões. Bebezinhos chorões calam-se, causando insegurança a mães aflitas. Gemidos angustiantes determinam que, apesar de as coisas não estarem funcionando de acordo com os padrões normais de comportamento, tudo se resolverá da pior forma.

domingo, 12 de março de 2023

 

Mulher

       Cheguei até a janela. As nuvens borbulhavam e eu previ o caos lá fora também. Voltei para o quarto e iniciei a limpeza do sangue na cama. Quanto mais eu tentava limpar, mais espalhava sangue pelo lençol, colcha e travesseiros.

        De repente ela saiu do banheiro. Parara de sentir dor, eu perguntei, e logo me olhou sorrindo. Depois embolou tudo que estava sobre a cama, colocou em um canto do quarto, cobriu a cama com um lençol novo que pegara no armário, deitou-se e ficou a me esperar, agora já com um sorriso de mulher.

quarta-feira, 8 de março de 2023

 

Éramos meu pai e eu

       Éramos meu pai e eu, a acompanhar o caixão ladeira abaixo, carregado por dois empregados da fazenda; dois miseráveis que o meu avô sugara toda a energia durante a sua existência. Centena de outros miseráveis acompanhavam o cortejo fúnebre de suas casas, atrás das gretas das janelas, temerosos de que o meu avô rompesse a tampa do caixão e voltasse a hostilizá-los como sempre fizera.

Ao voltarmos para casa o meu pai olhou, por muito tempo, o lugar deixado por meu avô, até assumi-lo, adquirindo a personalidade perversa que pairava no ar a procura de fragilidade, passando, desde então, a nos hostilizar como era o costume.

Hoje o meu pai está sendo sepultado e os miseráveis esperam que eu tome a atitude costumeira, apesar de eu já estar com as malas prontas para, finalmente, seguir o meu destino.

domingo, 5 de março de 2023

 

A lama que somos hoje

     Se só sobrasse um homem, uma mulher, uma criança, uma barata, uma cabra, um cachorro, um peixe, uma pequena tartaruga, um anão, um outro homem de outra cor, um terceiro plano, uma iguana rosa gigante, uma cotia e alguns mosquitos, na certa, depois de alguns milhares de anos, tudo seria novamente esta lama que somos hoje.