Ilustração: Nerino de Campos
Texto: Nerino de Campos
Subsecretário: Nerino de Campos

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Pássaros despencam sobre o asfalto caudaloso. Crianças brincam com vísceras de animais de estimação. Beatas queimam crucifixos para aquecer a sopa. Políticos, desesperados, se penitenciam com correntes de ferro enferrujado. Cão feroz se rende ao carinho de um gato. Crianças se surpreendem com suas súbitas bondades. Ninfetas, insatisfeitas, se organizam para lutar contra a apatia dos idosos. Bebezinhos chorões se calam, causando insegurança a mães aflitas. Gemidos angustiantes determinam que, apesar de as coisas não estarem funcionando de acordo com os padrões normais de comportamento, tudo se resolverá da pior forma.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Sequestrei a mim mesmo e passamos o fim de semana na casinha de praia do meu tio pobre. Alguns caranguejos entraram pelas frestas das tábuas da varanda, me colocando na situação ridícula de subir em uma cadeira e esperar, pacientemente, que eles atravessassem a sala, a procura de alimento. Mais tarde o vento ocupou toda a casinha, e umas latas que ajudavam na proteção do telhado despencaram, fazendo com que todos os outros animais residentes ali participassem dos movimentos da casa. Cumpri pacientemente minha determinação de estar naquela casa, e descobri que, ao contrário do que pensava, não são os monstros da cidade, e sim, os minúsculos animais de pequenos lugarejos que me apavoram.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Uma pessoa nasce pobre. Por nascer pobre não se alimenta direito. Não se alimentando direito, não consegue estudar como uma pessoa que se alimenta direito. Não estudando não terá uma profissão decente que lhe garanta a sobrevivência. Consequentemente continuará pobre. Provavelmente terá filhos que nascerão pobres, não se alimentarão direito; talvez nem concluam o Ensino Fundamental, e fatalmente terão outros filhos. Enquanto isto os artistas se auto-promovem, os empresários disputam, os políticos mentem, os líderes religiosos induzem, as revistas manipulam, os dirigentes se dirigem, a sociedade se cala, os padres tomam chá e os pobres limpam a cidade dos restos jogados nas latas de lixo.

domingo, 6 de abril de 2014

Desconforto

Na parede, amarelado sob uma moldura rota, o meu retrato, quando jovem, inspira mais respeito do que esse caco na cadeira de balanço, a forçar a perna num movimento ritmado, como se amenizando a eterna estagnação existente na casa. Até a mosca, que entrou fazendo três ou quatro visitas de inspeção em pontos distintos da sala, preferiu o caco ao retrato emoldurado, causando-me um profundo desconforto.

O mundo é uma maravilha

O mundo é uma maravilha. Tirando as coisas que atrapalham, é uma maravilha. As árvores, os pássaros, todos os animais, enfim, tudo é maravilhoso. Uma cidade bem planejada, uma boa qualidade do ar para toda a humanidade, educação e qualidade de vida para que os ânimos não se exaltem sucessivamente, boas condições de saúde, muita confraternização e amizade entre todos é que fazem desse mundo uma maravilha. Às vezes alguém desanima, acha que o mundo não é tão maravilhoso como todos acham. Esses são os pessimistas que só porque algumas árvores são cortadas, alguns pássaros morrem intoxicados, algumas fábricas emitem gazes tóxicos na atmosfera, algumas escolas não cumprem o seu papel de ensinar e educar, e alguns hospitais não dão o mínimo de condições necessárias para que um cidadão tenha uma boa saúde, não vêm que o mundo é maravilhoso. Quem não vê isso são os alienados que, se gastassem um pouco do seu tempo se informando, se atualizando, assistindo a um bom programa de televisão, entenderiam que realmente o mundo é maravilhoso.

O jardineiro

O jardineiro tem a sua importância, mas convenhamos: Ele priva a natureza de exercer toda a sua exuberância. Ele transforma um ninho de cobra em uma casa de Barbie. Nós achamos a casa de Barbie maravilhosa, principalmente se ela for construída nos jardins de um castelo ou na entrada de um Shopping. Sem desmerecer a profissão do jardineiro, que faz uma maquiagem na natureza para que nós vivamos iludidos e satisfeitos, acho que ele deveria deixar os jardins mais perigosos e selvagens para que as pessoas não se sintam tão poderosas.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Exposição

Eu sou um artista e sei que a arte é um espelho que revela a nossa face. Eu detesto me revelar, detesto me expor, mas o artista tem que fazer exposições para mostrar o seu trabalho, e com isso conseguir viver. Então eu, que quero sempre estar escondidinho no meu canto, tenho que me mostrar, sorrir e fingir que não foi sofrido pintar todas aquelas telas, e fingir também que a vida é bela como é para todas as outras pessoas.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Lendo alguns axiomas e postulados de Euclides, cheguei à conclusão de que com o óbvio você também consegue ficar famoso. Pelo menos ele ficou: • Coisas iguais a uma terceira coisa também são iguais entre si. • Todos os ângulos retos são iguais entre si. • Se quantidades iguais são subtraídas de coisas iguais entre si, os restos são iguais. • O todo é maior do que a parte. • Pode-se traçar um círculo com qualquer ponto como centro e com qualquer raio. • Acrescentando-se quantidades iguais a coisas iguais entre si, obtêm-se somas iguais. • Pode-se traçar uma reta de qualquer ponto até qualquer ponto. • Qualquer linha reta pode ser prolongada até o infinito. • Coisas que coincidem umas com as outras são iguais entre si. • Dados uma reta e qualquer ponto fora dela, pode-se traçar por este ponto uma reta, e apenas uma, paralela à primeira.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Râs e princesas

Eu me encontrava sozinho em um bar, quando apareceu uma mulher. Ela estava acompanhada. Minha atenção se voltou para ela. No momento em que a vi, achei que sua boca era pequena para o tamanho da testa. Como a sua pele era muito clara e lisa, eu logo ajeitei, na minha cabeça, a sua fisionomia, transformando-a em uma linda mulher. Às vezes a bebida e a solidão nos leva a viver momentos de grande encantamento e o nosso cérebro contribui para isto, transformando rãs em majestosas princesas.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

A mercadoria

Eu transava com uma puta. Acertamos que ela me visitaria todas as quintas-feiras. Ela era mais velha e usava um perfume insuportável. Às vezes o talco que ela passava no pescoço e debaixo do braço misturava-se ao suor, e após endurecer, formava registros indecifráveis no seu corpo. Nós brigávamos por motivos fúteis, mas eu sempre relevava, pois, um homem solitário, sem as duas pernas e a mão esquerda, não tem o direito de exigir nada, nem de uma mercadoria que é comprada para servi-lo.

domingo, 7 de julho de 2013

A linha

Foi numa época, quando eu me encontrava no auge da lucidez, e as pessoas, talvez por não me entenderem, me tratavam com desdém, que eu descobri que o raciocínio tem uma linha. Sabia o que era, mas não sabia explicar. O raciocínio tem uma linha. Você vai seguindo aquela linha, de repente, sai dali e pega outro caminho, deixando para voltar depois, e desse caminho você vai para outro, para outro, para vários outros, e depois volta para a linha principal. Foi nessa época também que eu comecei a não admitir que as pessoas saíssem da linha principal e conversassem comigo fazendo de uma linha secundária qualquer a principal. Eu as entendia perfeitamente na linha principal, por que então a secundária? Para tentar me organizar, passei a escrever sobre a linha principal e as secundárias. Escrevia até andando pela rua, e ia deixando as folhas para trás. Queria entender o raciocínio e queria também que o raciocínio entendesse a minha lógica. É claro que ninguém entendeu nada, e como sempre acontece, as pessoas resolveram me ajudar, como se eu, e não elas, precisasse de ajuda. Minha fragilidade não permitiu que eu reagisse, e hoje, depois de muito tempo internado, já aceito docilmente que as pessoas passeiem livremente pelo meu raciocínio.

sábado, 27 de abril de 2013

A Responsabilidade

A responsabilidade é uma bosta. É claro que todos nós devemos estar atentos para não abusar da falta dela, mas a responsabilidade é castradora. Quanto mais eficiente, quanto mais centrados em coisas inúteis, mais responsabilidade você adquire, e isto não deixa você se movimentar. A responsabilidade é o céu e a falta dela é o inferno. Já virou lugar-comum dizer que o inferno é melhor do que o céu, mas, “Deus que me perdoe”: viva a falta de responsabilidade!

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Dicionário Etmológico Comentado

ALMA - Vem do hebraico ALMI, corruptela de ANIM, sopro, hálito. Tem gente que quando fala, nos mostra o tipo de alma que tem. BUZINA - De BU, corruptela de BO, boi.Antigamente a bucina (buzina) era feita de chifre de boi. Com a evolução da tecnologia, ela não é mais feita de chifre de boi, porém, tocada por muito chifrudo. CANDIDATO - De CanD, branco. Em Roma, os aspirantes a cargos públicos vestiam-se com a TOGA BRANCA. A toga branca, símbolo de limpeza de caráter, foi abolida. IMBECIL - Vem de BEC, corruptela de BAC, cajado. Imbecil significava originariamente “sem bastão”, isto é, fraco, enfermo. Hoje o significado já não é bem este. O fraco e enfermo só é imbecil na hora de pagar a conta do hospital.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Gostosão!

Eu estava sentado num lugar público, observando as pessoas, tentando com isto adquirir inspiração para escrever, quando um homem se aproximou e sentou-se ao meu lado. Vários lugares estavam vazios, no entanto ele sentou-se ao meu lado e passou a me olhar, meio sério, meio rindo, como a expressão da Mona Lisa. Ele se aproximou mais e mais e seu olhar, agora, era de louco, tarado, pederasta, não sei. Depois perguntou-me se eu tinha fogo. Eu disse não, e ele concluiu: bonito o dia, não?, e eu disse não. Ele me olhou enfurecido. Levantou-se e saiu. Eu o acompanhei com os olhos. Ele parou um pouco adiante. Continuou a me olhar. Eu comecei a tremer. Não sei brigar. O homem cuspiu no chão, depois veio se aproximando, chegando o rosto bem perto do meu ouvido. Ele me morderá a orelha, tenho certeza, eu pensei. Tapei bruscamente as orelhas com as mãos, e ainda consegui ouvi-lo dizer: Gostosão!!! Depois disso ele se foi rebolando, e eu, suando, voltei a escrever.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Uma Grande Emoção

A sua chegada não me chamou a atenção, tampouco a estridente campainha da porta da lavanderia me tirou do devaneio proporcionado pelo barulho da máquina, a rodar a roupa, tentando limpar o que a cidade nos proporcionara. Depois de colocar as suas roupas na máquina, ela sentou-se ao meu lado, apesar de várias cadeiras vazias, e ficamos lá, a compartilhar monotonia. De repente, tocou-me de leve a mão, fazendo com que eu, numa atitude inesperada, e até então inédita, cobrisse-lhe a mão com a minha, passando, desde então, a ouvir os sons do seu corpo, até a chegada do meu marido para ajudar-me a levar as roupas e a possibilidade do amor para bem longe dali.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Elas

Ela cabe na palma da minha mão. Tão meiga, tão frágil, no entanto, essa capacidade de despertar desejo, amor. O seu discreto sorriso, a blusa de seda, o perfume impregnado, tudo isso me cativa. Após um longo período em Amsterdam ela voltou, e logo iniciou um processo de reconstrução da vida. Eu fazia parte dos seus planos, pois, me procurou, porém, inexplicavelmente, depois de anos de sofrimento e solidão, ela não me reconquistou, e eu não senti o que senti e sinto até hoje pela fotografia que me fora deixada.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

O Palhaço

O circo está armado. A trapezista, com as mãos banhadas em talco, espera ansiosa pelo início do espetáculo. O palhaço retoca a maquiagem. Já colocou sua gravata. A mulher da corda prepara as crianças para a escola. O palhaço, em breve entrará na jaula dos leões. Ele ajuda o domador e, certamente, tomará algumas chicotadas. Mais um dia se inicia. Este é um retrato do nosso povo...

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Um homem com poderes

Um homem com poderes chegou à cidade. As pessoas que o viram, se renderam à sua força espiritual, e logo a notícia se espalhou, fazendo com que todos fossem para a praça. Eu, segurando na barra da saia de minha mãe, observava, como todos, o homem, a armar uma mesa perto do chafariz. Seus gestos eram ritmados e precisos e o seu rosto expressivo, amedrontava a população. Depois de colocar vários frascos de um remédio milagroso sobre a mesa, não foi necessário discorrer sobre suas qualidade por muito tempo, pois, logo todos se espremiam para conseguir um. Mais tarde, depois de lanchar na casa do prefeito, o homem seguiu enganando, deixando para trás várias pessoas curadas; não por realmente ser milagroso o seu remédio, e sim, pela sua força de expressão e sua capacidade de representar.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Inspiração

Estou atrás da inspiração. Ela anda apressada, se esconde entre pilastras e becos escuros. Às vezes alguns flashes de luz imergem do seu corpo, me proporcionando uma grande alegria, porém, logo se transforma novamente em vazio. Enquanto ela não vem, eu uso a intuição, a consciência, a imaginação. Nada é tão sublime quanto a inspiração. Ela nos remete a um lugar desconhecido, e sem que nos esforcemos, passamos a transitar por lá como se estivéssemos em um ambiente de grande intimidade.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Confissão

Não foi bem assim que a coisa aconteceu, mas para amenizar a minha situação diante da justiça, fui obrigado a inventar tudo aquilo. Agora, arfando aqui no leito de morte, necessito dizer que naquele dia, apesar do ódio que sentia por Luiza, não tinha intenção de matá-la, a não ser que ela estivesse com o amante naquele momento, no entanto, ao passar frente ao banheiro, notei que ela tomava um banho de espuma. Ao seu lado, numa pequena mesa de armar, um abajur aceso, uma garrafa de vinho Rubesco Torgiano, com uma taça pela metade e algumas planilhas que ela pretendia analisar. Eu entrei e caminhei em sua direção. Ela sorriu e me chamou, estendendo os braços. Eu também sorri, e ao virar-me, esbarrei propositadamente com o cotovelo no abajur, empurrando-o para dentro da banheira. Depois esperei que Luiza acabasse com aqueles horríveis solavancos, para sair desconsolado a procura dos vizinhos.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

A Árvore do Conhecimento

A árvore do conhecimento é a macieira. Era proibido comer a fruta que ela nos proporcionava, apesar de ela produzir uma fruta muito palatável. Nós preferimos o conhecimento à possibilidade da vida eterna. Preferimos o conhecimento a ficarmos babando bestamente num lugar maravilhoso, sem saber o que se passava ao nosso redor. Foi dai que vieram os desejos inalcançáveis, as futricas, a necessidade de ser mais, a inveja, mas tudo com muita intensidade. E no meio de tudo isso eu já não sei o que seria melhor: viver eternamente o gozo da alienação ou conviver com a burrice do mundo à nossa volta.

domingo, 11 de novembro de 2012

O Centro Gavitacional

Durante muito tempo da minha infância o centro gravitacional da casa era o queijo. Ele podia estar na sala, na copa, na cozinha, não importava o lugar. Onde ele estivesse tudo girava ao seu redor, e se um dia ele faltasse, era como se a galáxia estivesse em desalinho, até chegar o queijo e colocar todo o universo em ordem novamente.

domingo, 28 de outubro de 2012

Objetos Cotidianos

Eu fiquei com o abajur pequeno, ela com as taças de cristal. Eu com o jogo de toalhas amarelas, ela com o aparelho de chá. Peguei alguns livros que não havia lido e uns CD’s. Ela ficou com o aparelho de som. Na casa nova o abajur sem lâmpada ficou jogado num canto, As toalhas me foram úteis, e os CD’s, sem o aparelho de som, ocupavam espaço na estante empoeirada. Um dia, uma outra chegou. Arrumou a casa toda, trouxe um aparelho de som e alguns pertences que nos foram úteis Estamos vivendo um amor eterno, até quando dividiremos novamente nossos objetos cotidianos.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Camisa de força

Quando eu chegar lá, vão espremer o meu cérebro até produzir máscaras invisíveis, que me auxiliarão na diminuição do próprio prazer, e esta ausência de qualquer coisa me libertará do outro, que exige tanto de mim. Logo estarei curado e então vocês verão como sou dócil, obediente e prestativo. Ficarei assim até que a intransigência alheia me leve novamente para a Camisa de Força.

sábado, 13 de outubro de 2012

Cabeça pensante

Eu me sento, pego uma folha de papel em branco e tento escrever. Não tenho nada na cabeça. Após alguns instantes me vem a palavra “Bolha”. Não é tão difícil escrever sobre uma bolha: Eu lá dentro? Uma bolha se estourando? Uma bolha crescendo sobre o meu calcanhar? As perguntas são muitas e as respostas, quanto mais simples, melhores. Não é difícil escrever sobre nada. Um pé retorcido dá margem a um acidente espetacular. Por trás de uma mosca remexendo as patinhas dianteiras esconde um lindo prato de comida ou uma carcaça de boi apodrecida. Um nariz empinado pode demonstrar orgulho, ou certo defeito físico. Uma cobra rastejando pode estar fugindo de um predador ou deslizando sorrateiramente, prestes a dar o bote em uma indefesa criancinha. Eu não tenho desculpas! A cabeça está sempre cheia de coisas para serem escritas. Se fosse fácil não ter nada na cabeça nós sempre atingiríamos a excelência em meditação.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

O Tempo e o Sonho (fragmento)

José Abascal – peguei esse nome numa agenda espanhola - acorda assustado com o bater de uma porta, justamente quando no sonho ele leva um tiro. Maria Bassas – também da agenda espanhola -, temerosa, pede para que ele faça uma vistoria na casa. Pode ser um ladrão, ela diz. Ele, impaciente, levanta-se e vai olhar. É o vento, ele diz, depois completa: eu estava sonhando e...conta o sonho. Isso já aconteceu comigo. Isso o quê? ele pergunta, e ela descreve um sonho onde cai, e quando bate com a cabeça no chão, acorda com o barulho de um abacate se desprendendo do pé e caindo no telhado. Quem sabe os acontecimentos do sonho caminham de acordo com o barulho que se fará ouvir?, pergunta Abascal. Maria não entende. Se fosse um daqueles sustos, ele diz, que a gente leva de vez em quando, tudo bem, mas o barulho da porta batendo tem que coincidir com o tempo do sonho. Coincidir exatamente! Será que vamos sonhando vagarosamente para que o barulho do tiro coincida com o da porta batendo, como foi no meu sonho? Maria fica pensando... e logo se distrai com a possibilidade de o ladrão já estar dentro da casa.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Meu Avô, Meu Pai e Eu.

Éramos meu pai e eu, a acompanhar o caixão ladeira abaixo, carregado por dois empregados da fazenda; dois miseráveis que o meu avô sugara toda a energia durante a sua existência. Centena de outros miseráveis acompanhavam o cortejo fúnebre de suas casas, atrás das gretas das janelas, temerosos de que o meu avô rompesse a tampa do caixão e voltasse a hostilizá-los como sempre fizera. Ao voltarmos para casa o meu pai olhou, por muito tempo, o lugar deixado por meu avô, até assumi-lo, adquirindo a personalidade perversa que pairava no ar a procura de fragilidade, passando, desde então, a nos hostilizar como era o costume. Hoje o meu pai está sendo sepultado e os miseráveis esperam que eu tome a atitude costumeira, apesar de eu já estar com as malas prontas para, finalmente, seguir o meu destino.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Nudez

Quando eu chegava em casa, ia tirando as peças de roupa e deixando-as espalhadas pelos cômodos, só voltando a me vestir nas raras vezes em que saía novamente. Vivia a maior parte do tempo nua, até o dia em que um homem ligou, descrevendo pormenores da minha intimidade. Temerosa, passei a suspeitar de todos os homens da cidade, no entanto, o homem, arrependido, mandou-me uma carta se desculpando pelas suas fraquezas, prometendo não mais me importunar. Afirmou ter agido daquela forma por não ter encontrado a maneira adequada para dizer que me amava. Eu senti que suas palavras eram sinceras, e aos poucos, voltei a abrir a janela e a procurar nas janelas dos prédios vizinhos algum vulto que o identificasse. Logo voltei a me despir, sem que ele se manifestasse, e hoje, vivo na mais completa solidão.

segunda-feira, 30 de julho de 2012


Dura Realidade
Tomado por uma grande necessidade de liberdade, saí, atravessei a cidade, e me situei num campo florido, até que um enxame de abelhas me levou para a praia, deixando-me a contemplar pernas roliças, seios firmes e bem delineados de lindas moças, e no momento em que essas moças começaram a tirar os seus biquínis, tentando delicadamente esconder o sexo, apesar de seus olhares insinuantes, e eu já sentindo um princípio de ereção, ouvi o barulho da portinha se abrindo e vi a panela com um caldo marrom sendo jogada cárcere adentro, trazendo-me, imediatamente, para a realidade.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Um tiro certeiro acertou um certo sujeito chamado João. João caiu de bunda no chão, mas o tiro que levou não acertou sua bunda, e sim, sua mão. O tombo foi de susto e João, quando se levantou, pegou a mão com a outra e fez uma careta. Como não havia ninguém olhando, parou de fazer careta e levou sua mão para o hospital. Só faltava mancar de tanta carência afetiva. Sua mãe não estava lá para dar-lhe um beijinho e afagar-lhe os cabelos. Seu pai não estava lá para enfiar-lhe a mão a cara, dizendo que homens não choram. Sua mulher não estava lá para fazer um escândalo e desmaiar ao se deparar com aquela mão ensangüentada. E lá ia João, pensando, e agora já mancando, mancando e chorando, chorando e s’amando, s’amando e sarando, sarando e se lembrando que sarado a vida e outra, mais dura, mais difícil de se levar, mais difícil de aguentarrrrrrrrrrrrrg.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

O jazz é poesia. Muita gente não entende poesia, detesta jazz. Indiferente a tudo isto o jazz vai seguindo o seu caminho. O saxofone tocando lento, o baixo entrando sem ser chamado, a bateria, de mãos dadas com o piano que sussurra um ritmo, e como se não bastasse, a voz de um cantor desafiando o imprevisto. Quando você acha que o tom vai subir, desce. Quando acha que vai descer, diminui. Quando você acha que acabou, começa... E lá vai o sax: FÔÔÔ... e a bateria: TU, TU, TUTAK, e: PLIM, PLIM, PRUOOOOOOOMMMMMM, o piano. O baixo também tem sua personalidade: TGUM, TGUM, TGUM...

quarta-feira, 23 de maio de 2012

A Mosca e Eu A vontade aumentava e eu ia blasfemando a fragilidade humana, essa necessidade de ingerir, digerir e excluir. Ingerir às vezes sem necessidade, como se aproveitando o máximo da derradeira refeição, e logo em seguida, excluir; se bem que poucas vezes em situações inusitadas como a que eu me encontrava: caminhando, suando, blasfemando, mas impossibilitado de tomar uma atitude. Entrei numa lanchonete. Não havia banheiro. Pelo menos não havia uma porta fora do balcão que se pudesse julgar ser um banheiro. Lembrei-me dos lotes vagos que existiam na cidade. Talvez uma moita e algumas folhas me fossem de grande utilidade naquele momento. Apertei o passo em direção ao meu apartamento. Parei de blasfemar e passei a pensar em Neurocirurgia Estereotáxica. Não adiantou! No elevador, que felizmente estava vazio, uma mosca rodeou a minha calça branca, talvez procurando uma maneira de ingerir o que eu acabara de excluir.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

N de Nada - De todo o trabalho da vida não sobrou farelo de pão. Nunca construí nada, somente ajudei os construtores a comprar o pão e a guardar os farelos. Agora eles descansam e eu ajudo os famintos a mendigar. Eu: uma gota de suor!

domingo, 1 de abril de 2012


Se só sobrasse um homem, uma mulher, uma criança, uma barata, uma cabra, um cachorro, um peixe, uma pequena tartaruga, um anão, um outro homem de outra cor, um terceiro plano, uma iguana rosa gigante, uma cotia e alguns mosquitos, na certa, depois de alguns milhares de anos, tudo seria novamente esta lama que somos hoje.

sábado, 3 de março de 2012


Recriminação

O meu avô trouxe uma cadeira e após colocá-la à minha frente, olhou-me de tal forma que eu me senti como se levitando, até sentar-me, apesar da minha vontade ser a de estar longe daquela varanda. Ele entrou e pouco depois voltou com uma xícara de café, colocando-a na mesinha ao lado da sua cadeira. Sem dizer uma palavra, entrou novamente, e eu, com uma enorme necessidade de abstrair-me, passei a observar uma mosca que pousara na xícara. Ela caminhava vagarosamente para um lado e para o outro, até quando eu abafei com a mão a borda da xícara, afogando-a no café.
Logo depois o meu avô chegou com a bola e alguns cacos de vidro da janela da sala, e após sorver o café, passou às acusações, sem imaginar o que eu colocara dentro do seu corpo para me ajudar a suportar tudo aquilo.

domingo, 26 de fevereiro de 2012


A ONDA GIGANTESCA

Quando Thais acordou, sentiu uma fisgada no joelho, porém, notou que os seus braços estavam engessados, impossibilitando-a de chegar até a perna para se coçar. Olhou para o quarto do hospital, e de barulho, apenas o gotejar de uma torneira vindo de uma porta entreaberta. Havia muitos aparelhos à sua volta, muitos fios e tubos ligados ao seu corpo, todos funcionando em silêncio, tentando mantê-la viva.
Ela não conseguia se lembrar do que acontecera. Não se lembrava e torcia para que ninguém chegasse ali para lembrá-la. No entanto, uma forte dor no pé esquerdo passou a incomodá-la, até fazer com que as lembranças despencassem-lhe sobre a cabeça como uma onda gigantesca, remontando a horrível cena dos bombeiros serrando-lhe as pernas para livrá-la das ferragens do metrô.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012


Uma vagina, ali entre as pernas de uma mulher, num dia qualquer de semana, andando sob um sol forte no centro da cidade, não tem a menor importância, o menor valor, a não ser o de facilitar, a qualquer momento, os incômodos das necessidades fisiológicas. Além disso, uma vagina, numa situação dessas pode até estar suja, às vezes de urina ou mesmo de fezes, quando o papel higiênico não foi usado de forma adequada. Uma vagina, “andando” pelo centro da cidade pode estar sendo ferida por uma minúscula calcinha lilás, que aperta-lhe um dos pequenos lábios, mas dependendo da situação em que se encontra a mesma vagina, num lugar adequado, com a música adequada, com a luz adequada, com os corações pulsando adequadamente, tem uma personalidade tão forte, é tão importante, é tão vigorosa, que dá até vontade da gente se acabar nela.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012


Re.)
Sim. Sim, sim...
Não adianta dizer sim.
Não, não, não...
Não adianta dizer não.
E por aí vai.

sábado, 3 de dezembro de 2011


(Re.)
Uma tela em branco no computador, em determinados momentos, é de matar qualquer um de ódio ou pavor. É como uma multidão atenta, interrogativa, esperando você falar, e você olhando apavorado sem saber o que dizer. Uma tela em branco no computador só pode ser comparada a uma tela em branco, esperando ser pintada. As duas causam o mesmo sofrimento. Uma tela em branco no computador não passa de uma tela em branco, e o computador não passa de uma máquina, que, sem os seus comandos jamais conseguirá se movimentar.
A tela está lá, vazia, é só você colocar o que quiser. Que seja um PUTAQUEOPARIU ou uma flor. Você pode falar mal de alguém, falar de coisas boas ou ruins, pode não falar nada, tentar escrevendo em toda a página, como estou tentando fazendo agora, ou pode falar tudo com apenas três palavras. Quando você pensa em falar tudo com apenas três palavras, isto vira um desafio, uma obsessão, e você começa a tentar imaginar quais palavras seriam essas três, até descobrir que poderia ser: TÔ COM FOME, e sair correndo para comer um sanduíche.
Voltei!
Uma tela de computador em branco é apenas uma tela de computador em branco, e você é o resto. Só isto: O RESTO.
Se joga!

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

A NÁUSEA

A NÁUSEA

(Re.)
O texto era sobre um cachorro preto, pequeno, manco, sem um pedaço do rabo, tentando atravessar a Praça General Isidoro carregando um enorme pedaço de osso, que talvez pesasse mais do que o seu próprio peso. Logo mudei de assunto e passei a escrever sobre uma velha bêbada. Ela tomava cachaça e me deu vontade acompanhá-la. Não tinha cachaça em casa. Fui até a geladeira, peguei uma cerveja e ficamos lá, eu e a velha, bebendo. Quanto mais eu bebia, mais a velha ficava bêbada. Logo os textos começaram a se interagir e a velha resolveu ajudar o cachorro com o osso. O cachorro rosnou e deu-lhe uma dentada no dedo indicador da mão direita. Ela limpou a mão na saia e voltou a beber comigo, sem imaginar que aquele frágil cachorrinho era portador de hidrofobia.
No fim ela morre!

terça-feira, 27 de setembro de 2011


(Re.)
Ela já se foi, só eu permaneço nesta sala imensa, irritado com o eco de pequenos barulhos que faço ao movimentar a perna para evitar dormência. Estou sentado no chão, a contemplar algumas contas do colar que partira na hora da agressão. São falsas contas, como já é falso, há muito tempo, o nosso relacionamento. Eu já não me importo com as suas indiscretas e infrutíferas tentativas de se envolver com a juventude, porém, a juventude tenta discretamente se envolver comigo. Isso faz com que ela adquira, nas suas expressões e atitudes, um desejo de esmagar o mundo, uma necessidade de destruir o belo, uma fúria incontida, que hoje culminou numa cena patética, fazendo com que os convidados, inclusive o pivô da discussão, que eu espero rever em breve, saíssem discretamente, me deixando aqui sentado, tentando gastar, até a última gota, a resistência inata do ser humano de tomar uma atitude quando o assunto é a separação.

terça-feira, 13 de setembro de 2011


(Re.)
Acordo e vou correndo mato adentro de mim mora um anjo feito a cara escarrada do pai nosso que vai dar no fim da linha do trem bom de cama, bom de briga, bom de papo furado, fudido, feito um para o outro lado da cara de pau duro de roer a corda bamba que dorme novamente.

sábado, 3 de setembro de 2011


(Re.)
Todo cagão é responsável. A responsabilidade é mais ou menos como uma rolha. O cagão responsável não caga. Puta que pariu a responsabilidade! Por isso que eu digo que tudo gira em função da nota, da moto, do mato, do pato, contato direto, secreto, sisudo, canudo cabeludo. Os Beatles já foram cabeludos no tempo em que o cabelo deles era pequeno. Eu já tive um saco cabeludo quando tinha apenas três fiapos (dois mais grossos e um fininho).Nessa época eu cuidava deles como se cuida de uma vasta cabeleira. Tudo é uma questão de ponto de vista. Eu não quero dormir nunca mais. Tudo é uma questão de ponto de vista. Preciso de tempo para questionar o ponto de vista. O guarda chuva quebrado na enxurrada não chama a atenção de quem está na chuva pra se molhar. Eu estou na chuva pra me molhar. Há, há, há... grande mentira! Eu nunca fiquei na chuva. Eu nunca me molhei. Eu sou um cagão arrolhado com a responsabilidade. Todo mundo que eu conheço também. Todos cagões, até os irresponsáveis.

sábado, 20 de agosto de 2011


POLÍPONO,
POLÓNOPO,
PATÍLOCO.

PECÍPITO,
PODÚBORO,
PALÉFICO.

PRECÍPITO,
PRONTÍSQUO,
PRESÉPITO.

PRISMÁLOCO,
PRONTÍVORO,
PRONTO!

domingo, 14 de agosto de 2011


A maioria de nós quer chorar e não consegue. Se isso acontecesse, as lágrimas inundariam o mundo, e talvez um grande momento de sensibilidade superaria os momentos de aflição em que vivemos. Eu não consigo chorar, portanto estou predestinado à aflição, mas não fico aflito aqui, quieto no meu canto. Tento compartilhar a minha aflição com as pessoas que me cercam.
Vocês que me perdoem!

quarta-feira, 3 de agosto de 2011


Sentei para escrever uma peça de teatro. Estava inspirado. A trama estava clara na minha cabeça, mas vieram as dúvidas:
Quem participaria,
Quem interpretaria,
Quem personificaria,
Quem acompanharia,
Quem difundiria,
Quem trataria,
Quem tocaria,
Quem utilizaria,
Quem ousaria,
Quem ultrapassaria,
Quem vacilaria,
Quem ultrajaria,
Quem informaria,
Quem experimentaria,
Quem negligenciaria,
Quem faria,
Quem fracassaria,
Quem honraria,
Quem lastimaria,
Quem listaria,
Quem esconderia,
Quem mataria,
Quem morderia,
Quem foderia,
Quem usaria,
Quem viveria,
Quem vomitaria,
Quem violentaria,
Quem dominaria,
Quem desinformaria,
Quem diminuiria,
Quem se viciaria,
Quem observaria,
Quem responderia,
Quem atropelaria,
Quem se masturbaria
Quem dispersaria,
Quem encontraria,
Quem sustentaria,
Quem permaneceria,
Quem riria,
Quem rosnaria,
Quem resmungaria,
Quem escovaria,
Quem procuraria,
Quem ouviria,
Quem olharia,
Quem pintaria,
Quem excederia,
Quem exorcizaria,
Quem desconsertaria,
Quem rabiscaria,
Quem rasgaria,
Quem racionalizaria,
Quem solucionaria,
Quem zombaria?
Com tantas dúvidas, saí do computador, liguei a televisão e passei a assistir a um documentário sobre a temporada de furacões nos Estados Unidos.

quarta-feira, 27 de julho de 2011


Re.
Palavras, pétalas, próspero, pedras, pulgas, primos, cócegas, coisas, canção.
Você entra no papel. Ali está o mundo. Ali está o que pode acontecer, ali está o que vai acontecer. Nada em volta tem valor. As pessoas falando, alguém festejando, todos cantando e você lá, introspectivo, mas feliz por ter o mundo às suas mãos. Cada um com sua felicidade ou seus problemas. Você se sente feliz, mas ao mesmo tempo, completamente infeliz, porque o mundo não é coisa para fazer ninguém feliz, porém, esse mundinho da escrita, com todas as suas particularidades e individualidades, satisfaz plenamente a quem está escrevendo, principalmente se este alguém está sozinho numa mesa de bar.

terça-feira, 12 de julho de 2011


A minha cama sempre foi um dos lugares mais aconchegantes, um refúgio onde eu conseguia me confortar. Ali eu me sentia protegido; não por ninguém, mas pela cama, pelas cobertas, pelo quarto, pela intimidade de estar deitado num lugar seguro. E era cair ali e dormir, sem problemas. Hoje eu não sinto mais essa segurança. Não me sinto protegido. Estou sempre assustado, esperando que o pior aconteça. Então coloco sobre o ouvido uma almofada e espero que os pensamentos se esvaiam e que eu encontre um pouco de paz para continuar naquele lugar.

sábado, 25 de junho de 2011


O Duque de Valparaíso (Re.)
Ele chegava ao fim da tarde e sentava-se, invariavelmente, nos mesmos cacos que o proprietário do botequim insistia em chamar de banco. À partir daquele momento, era um alvoroço lá dentro, com o dono do estabelecimento cortando o salame em fatias finas - exigência do Duque - e sua mulher servindo uma generosa dose de cachaça num copo grande. Os clientes, que eventualmente estivessem ali naquela hora, permaneciam-se calados, até quando ele tomava a terceira pinga, jogava os restos de salame para o gato, e saía.
O Duque, por sua fama de impiedoso matador, era muito respeitado no Bairro Valparaíso, e seu apelido, que todos conheciam, apesar de ninguém ter coragem de pronunciar na sua presença, viera após ter sido mordido por um cachorro de nome Duque, e ter revidado, mordendo-o até a morte.

quarta-feira, 8 de junho de 2011


O Banquete (Re.)
Acordei com o sol queimando o meu rosto. Abri vagarosamente os olhos e após ser agredido por uma intensa claridade, me deparei com o azul deslumbrante de um céu sem nuvens. A cidade borbulhava. Queria estar longe de casa, porém, quando criei coragem para olhar ao redor, descobri estar na Praça Antero de Quental, bem em frente ao prédio onde morava. Aos poucos fui me lembrando da festa, da minha briga com a Marta após a saída dos convidados, da sua maneira agressiva me mandando tomar cachaça com os mendigos da praça, da minha determinação, comprando várias garrafas e oferecendo um banquete aos meus novos amigos.
Levantei-me com dificuldade, apoiando-me em uma árvore. Algumas babás me olhavam ao longe, chamando as crianças para junto delas. Quando eu vi que estava todo mijado e cagado, coloquei a camisa sobre o rosto e caminhei cambaleando para casa.