quinta-feira, 14 de setembro de 2023
domingo, 10 de setembro de 2023
É, parece até mentira, mas um dia chegou uma fada, não se
sabe de onde, e encantou o lobo. Ele não sentiu nada quando a fada bateu a
varinha nas suas costas, nem a ouviu dizer que ele seria bom e generoso para
com os outros animais. Apenas viu algumas estrelinhas coloridas à sua volta e
estranhou a sua reação diante da fada ali ao seu lado. Em outras circunstâncias
ele teria avançado e talvez resolvido, ali mesmo, o seu problema de alimentação
do dia.
Saiu andando calmamente e, ao ver um coelho, não sentiu
vontade de caçá-lo. Foi em sua direção, e o coelho, de tanto medo, ficou
paralisado, sem forças para correr. Então o lobo disse:
- Aonde vais meu bom coelhinho?
Os outros animais assistiam a tudo e não acreditavam no que
viam.
O coelho abaixou a cabeça e disse com voz baixa:
-Vou ao Sítio do Lago Claro, comer cenouras.
-Você não deve fazer isto, meu filho - disse o lobo - O Sr.
Freitas trabalhou muito para plantar as cenouras. Você não pode chegar lá,
assim sem mais nem menos, e comer as suas cenouras. Coma essas que estão à sua
frente, e comporte-se, meu querido.
Neste momento, apareceu na frente do
coelho uma tigela com lindas cenouras, e o coelho foi logo experimentando uma
para ver se realmente era verdadeira.
Uma ovelha disse agressiva:
-Lobo, este pasto está uma porcaria. Olha o tamanho do capim!
- e logo o capim cresceu sem que o lobo precisasse dizer uma palavra. A galinha
queria milho e minhoca, e logo foi atendida. Até o Sr. Freitas, aproveitando da
generosidade do lobo, pediu uma casa nova para o sítio, com antena parabólica e
piscina.
O tempo foi passando e os animais foram perdendo
completamente o medo que sentiam do lobo, e passaram a agredi-lo. Se em algum
lugar do pasto a grama amarelasse, um pouquinho que fosse, uma ovelha ia lá,
pegava o lobo pela orelha e o trazia para mostrar, arrastando o seu focinho na
grama para que ele, imediatamente, a fizesse ficar verde novamente. Quando a TV
saía do ar, mesmo que o problema fosse da rede de transmissão, lá ia o Sr.
Freitas com o seu chicote - coisa que o lobo mesmo fizera aparecer na sua mão -
procurar o lobo para consertar. Ninguém demonstrava gratidão pelos serviços
prestados pelo lobo, e se acostumaram tanto com as benesses proporcionadas pelo
lobo que ele já nem tinha tempo de dormir.
Quando alguns animais, os mais espertos, começaram a usar o
lobo para conseguir vantagens sobre os outros, provocando uma brigalhada sem
precedentes na história do Sítio do Lago Claro, a fada voltou a aparecer. Bateu
novamente a varinha nas costas do lobo e disse, sem que ele ouvisse:
-Infelizmente eu errei. Você vai voltar a ser mau para que os
outros animais voltem a serem bons.
O lobo não sentiu nada e só viu umas estrelinhas coloridas à
sua volta.
Assim que as estrelinhas sumiram, ele avançou
sobre a fada, que desapareceu como fumaça.
quinta-feira, 7 de setembro de 2023
Devaneio
Ele ficou olhando para a tela do computador por alguns
minutos, e sem o que dizer, escreveu sobre um cachorro manco que não conseguia
urinar no poste e foi inchando, inchando, até estourar de tanta urina. Depois
escreveu sobre a calça no varal, balançando de um lado para o outro, e o
gatinho branco tentando alcançá-la, até conseguir e ficar com a pata presa,
desesperado, tentando se desvencilhar, e o vento batendo, e o gato lá embaixo,
tentando, tentando. Escreveu sobre a mulher que todos os dias passava pelos
seus pensamentos, com aquela saia engomada e aquela blusa cor de vinho manchada
de azul.
Sobre o baloeiro escreveu também, sentado na praça, sem ao
menos saber que estava ali, pernas cruzadas, uma das mãos apoiada no banco de
mármore, segurando os balões, e a outra cofiando a barba grisalha. Escreveu
sobre os barulhos da praça, da pipoca estourando no carrinho, lá na esquina, e
o cheiro chegando cá perto do banco do baloeiro, Escreveu também sobre os meninos
saindo da escola, jogando as mochilas para cima, chutando uns aos outros, as
beatas enroladas nos seus véus pretos indo para a missa que só começaria ao
anoitecer.
Escreveu sobre os pombos cometendo o pecado mortal de cagar na igreja, sem contar o pecado que não tem classificação no livro das coisa ruins do céu que é o da prática do ato sexual no caibro da entrada principal da igreja, mas logo foi se desinteressando por aquilo tudo e desligou o computador sem salvar o texto.
domingo, 3 de setembro de 2023
A linha
Foi numa época, quando eu me encontrava no auge da lucidez, e
as pessoas, talvez por não me entenderem, me tratando com desdém, que eu
descobri que o raciocínio tem uma linha. Sabia o que era, mas não sabia
explicar.
O raciocínio tem uma linha. Você vai seguindo aquela linha,
de repente, sai dali e pega outro caminho, deixando para voltar depois, e desse
caminho você vai para outro, para outro, para vários outros, e depois volta
para a linha principal. Foi nessa época também que eu comecei a não admitir que
as pessoas saíssem da linha principal e conversassem comigo fazendo de uma
linha secundária qualquer a principal. Eu as entendia perfeitamente na linha
principal, por que, então, a secundária?
Para tentar me organizar passei a escrever sobre a linha principal
e as secundárias. Escrevia até caminhando pela rua, e ia deixando as folhas
para trás. Queria entender o raciocínio e queria também que o raciocínio e as pessoas entendessem a minha lógica.
É claro que ninguém entendeu nada, e como sempre acontece, as pessoas resolveram me ajudar, como se eu, e não elas, precisasse de ajuda. Minha fragilidade não permitiu que eu reagisse, e hoje, depois de muito tempo internado, já aceito docilmente que as pessoas passeiem livremente pelas linhas do meu raciocínio.
terça-feira, 29 de agosto de 2023
O Celestial Sorriso da Ira
Mascando
sal, subi a ladeira até o fundo do poço, encontrando pedras moles que espremi
tirando gotas de madeira. Distraído, deitei-me num campo coberto de formigas e
fiquei a pintar jabutis. O sol queimava-se no belo horizonte (argh!) e eu me
aqueci com um cobertor de vidro. Quando o pássaro chegou, com o seu lindo
bastão de calha, tive de atirar, matando-me para a sorte. Sem coragem de me
penitenciar, contraí um dos meninos e corri até onde o alcance da vista
superou, obtendo informações da jovem quadrúpede. Mais tarde, quando as bolhas
se desfizeram em advertências, suportei todas as inconfiabilidades, até pisar
em uma cabeça de mármore gelatinosa. Foi assim que o tubo de sabão de pedra
escorregou entre a vasta cabeleira de um eunuco, trazendo para o meu lado o
arrependimento de não ter sabido dominar o impulso da degustação. Quando a
brasa da manhã ardia com a lua, mastiguei dois pedaços de lente embaçada e me
vi trincado entre a necessidade de expandir e o desejo de desvirtuar. O sentido
de observação se aprimorou, e eu consegui saltar o riacho, mas logo me deparei
com dois demônios brancos, que me propuseram: um, uma orla semipoluída e outro
um arquétipo de nó. Tentando entender melhor aquele trovão, cortei uma das
orelhas de um crocodilo e costurei-a no rabo de uma cotovia, que gritou até
estilhaçar a já sensível camada que protege a terra das tormentas boreais. A
partir de então, só quem não se dava com cadeira de balanço, conseguia
argumentar com o celestial sorriso da ira. Quanto mais se eletrificava o desejo
de reagir, mais correlação de sulco escorria pelos dedos calosos. A bolha,
agora, estendia-se pelo travesseiro e dominava grande parte do esôfago. Nada
que se tentasse, com relação ao prosaico mundo das traineiras, seria
compensador, uma vez que o manicômio estava restrito a benditos eclesiásticos.
sábado, 26 de agosto de 2023
Eu matei uma formiga
Eu matei uma formiga. Não me senti forte, nem poderoso;
aliás, nesse momento, nem pensei no ato de estar matando uma insignificante
formiguinha, mas logo essa atitude irracional me levou a pensar no ser humano,
na sua necessidade de adquirir poder, na sua capacidade de destruir o belo.
As coisas são tão perfeitas, por que nós resolvemos acabar
com tudo? Quando o homem descobriu o verbo, o fogo, a roda, não imaginava que
isso, um dia, faria dele um monstro poderoso, capaz de destruir tudo, inclusive
a si próprio. A partir destas descobertas o desenvolvimento humano, a evolução,
o seu progresso tecnológico foi todo adquirido através de guerras e
destruições. O tacape, a flecha, o canhão, o avião, os foguetes, tudo foi inventado
pelo homem com a intenção de dominar outros homens.
Eu, como resultado de tudo isso, fiquei olhando aquela
formiga caminhando sobre a escrivaninha de tampo de vidro. Ela rodeou o
teclado, passou sobre a agenda preta e veio em minha direção. Eu estiquei o
dedo indicador da mão direita, posicionei-o um pouco acima e desci com força
esmagando-a no vidro.
Só depois de praticar esse ato covarde foi que eu percebi que
viver é uma aventura para todos nós, e eu, irracionalmente, acabei com a
aventura daquela indefesa formiguinha.
quarta-feira, 23 de agosto de 2023
Insignificância
Você já parou para pensar no quanto insignificante você é?
Não estou dizendo no seu quarto, na sua casa, na sua rua, no seu bairro, na sua
cidade, no seu estado, no seu país, no mundo.
Estou dizendo no universo. Você não é nada, não sabe de nada. Sabe aquela verdade absoluta que você sempre defendeu com intransigência, como fato consumado? Não é nada diante da imensidão do desconhecido, portanto, coloque o rabo entre as pernas, saia da soberba e tente entender, pelo menos, o que você está fazendo da sua vida no mundo, no seu país, na sua cidade, no seu bairro, na sua rua, na sua casa, no seu quarto.
sábado, 19 de agosto de 2023
A minha cama
A minha cama sempre foi um dos lugares mais aconchegantes, um
refúgio onde eu conseguia me confortar. Ali eu me sentia protegido; não por
ninguém, mas pela cama, pelas cobertas, pelo quarto, pela intimidade de estar
deitado num lugar seguro. E era cair ali e dormir, sem problemas.
Hoje eu não sinto mais essa segurança. Não sinto a proteção
de outrora. Estou sempre assustado, esperando que o pior aconteça. No mundo de
hoje o pior está para acontecer a qualquer momento e isso mudou tudo.
Talvez seja eu que tenha mudado, pois o mundo está para
acabar desde a Era Mesozoica, e isso nunca acontece.
Então coloco sobre o ouvido uma almofada e espero, por muito tempo, que os pensamentos se esvaiam, até que eu encontre um pouco de paz antes de voltar a esperar que o pior aconteça.
terça-feira, 15 de agosto de 2023
O amolador
Ser mascote parecia ser a sina do amolador. Ele mascotava
sempre que amolava e tudo o que era feito com boa intenção era reconhecido por
um único homem: o empreendedor, que vivia dizendo ao mascote para estudar,
estudar, estudar, até perder um pedaço da capacidade de raciocínio e
concentração. Depois ele deveria aprender a sorrir com o canto da boca para que
todas as pessoas aceitassem os seus argumentos, sua arrogância, suas mentiras e
hipocrisias, e que, só assim, ele deixaria de ser um mascote e viraria um
verdadeiro amolador que amola.
Seria uma dura empreitada, mas o mascote amolador estava
decidido a abrir mão de várias situações de prazer para que, um dia,
conseguisse alcançar o seu objetivo, que era o de virar um amolador verdadeiro.
Aí, sim! Tudo partiria dele.
quinta-feira, 10 de agosto de 2023
Consolidação
Hoje o arbusto curvou-se diante da necessidade de se costurar
medidas de suficiência. Hoje, ademais, se consolidou também a
caracterização do desejo. Diante de todos os fatos oníricos captados pela
manhã, premeditou-se o sofrimento, todavia, andaremos fingindo estabilidade.
Hoje, para justificar a bondade que se acumulou nos processos
de rejuvenescimento aleatório, pede-se que se ouça aquele grito de indignação
obtusa. Hoje,
para melhor dizer, é de se imaginar que nada faltará, além do nada já
existente.
O absurdo do desejo incontrolado, incontido, contestado, não retribuído, me leva a concluir que o dia de hoje só existirá para os outros.
sábado, 5 de agosto de 2023
Conquistas
Você é induzido a mentir como todos mentem, e se não o fizer, estará fora de um mercado próspero, que cresce a cada dia dando grande conforto aos mentirosos. Você é impingido a fingir, como todos fingem, e este é outro mercado promissor. Você sorri com o canto da boca, meneia a cabeça quando ironiza, disfarça um olhar de desaprovação, cospe - em pensamento - no rosto de um desafeto, bajula os poderosos, ignora os necessitados, necessita de cada centavo alheio, e justifica tudo isso em nome de uma causa nobre: acumular o máximo de objetos possíveis, para, no fim, morrer como todo mundo.
quarta-feira, 2 de agosto de 2023
A cirurgia
Desapressado, coloquei o jaleco, a touca verde-clara e sentei-me na poltrona do quarto do hospital para esperar a maca. Subitamente corri para o banheiro e todos me olharam apreensivos, preocupados com o meu estado emocional. Naquele momento eu só queria me olhar no espelho, e rir. Aquele jaleco, aquela touca, a barba por fazer, me fizeram rir até me urinar todo, dando um grande trabalho às pessoas que me acompanhavam. Elas, solidárias, riam também, sem entender que eu, naquele momento, descia da soberba e me enxergava como realmente sou: um monte de carne podre.
quarta-feira, 26 de julho de 2023
Solidão da Solidão
Eu
não aguentava mais o meu chulé; não por não lavar os pés, e sim, por não ter
ninguém para lavar as minhas meias, as minhas cuecas, as calças e camisas. Eu não
aguentava mais tomar sopa, comer sanduíche, andar amarrotado. Não aguentava a
poeira ultrapassando os limites dos cantos dos móveis, as panelas engorduradas,
acumulando moscas, a cama eternamente por fazer.
Eu não aguentava viver a solidão da solidão, e num momento inesperado, Dona Ruth voltou para pegar alguns pertences que deixara para trás, e depois de inspecionar a casa, e de sensibilizar-se com a minha postura carente, resolveu retornar ao trabalho, exigindo, obviamente, um salário mais elevado.
domingo, 23 de julho de 2023
Da Lágrima à extraventura
Sonhei com a frase: “Da lágrima à extraventura”. No sonho eu não
me envolvia numa história. Levantei-me e anotei a frase. Perdi o sono.
Já acordado, na penumbra, apoiando a cabeça no almofadão, imaginei
uma linda mulher chorando pelos cantos da sua casa. Ela descobrira há pouco que
seu marido a traía, e isso a tornara muito infeliz.
Enquanto eu imaginava o sofrimento daquela mulher, tocou a
campainha da sua casa. Era o entregador da farmácia. Ele era jovem, limpo, até
bonito. Ela, depois de conversar um pouco sobre coisas triviais o levou para o
quarto. O fato de ela ter transado na cama que vivera bons momentos com o
marido a excitou bastante. Depois foi o
entregador de pizza, o da lavanderia, o técnico em informática, até o jovem
louro do Pet Shop, que aparentava ser menor de idade foi beneficiado. O tempo
foi passando e ela mal se lembrava das infidelidades do marido.
Eu, satisfeito com o desfecho da história, joguei o almofadão para o canto e voltei a dormir, até acordar atrasado para trabalhar.
sexta-feira, 21 de julho de 2023
domingo, 16 de julho de 2023
A Vagina
Uma vagina, ali entre as pernas de uma mulher, num dia
qualquer de semana, “andando” sob um sol forte no centro da cidade, não tem a
menor importância, o menor valor, a não ser o de facilitar, a qualquer momento,
os incômodos das necessidades fisiológicas. Além disso, uma vagina, numa
situação como esta, pode até estar suja, às vezes de urina ou mesmo de fezes,
quando o papel higiênico não foi usado de forma adequada.
Uma vagina, “andando” pelo centro da cidade, pode estar sendo ferida por uma minúscula calcinha lilás, que aperta-lhe um dos pequenos lábios, mas dependendo da situação em que se encontra, a mesma vagina, num lugar adequado, com a música adequada, com a luz adequada, com os corações pulsando adequadamente, tem uma personalidade tão forte, é tão importante, é tão vigorosa, que dá até vontade da gente se acabar nela.
quinta-feira, 13 de julho de 2023
Inspiração
Estou atrás da inspiração. Ela anda apressada, esconde-se entre pilastras e becos escuros. Às vezes alguns flashes de luz imergem do seu corpo, me proporcionando uma grande alegria, porém, logo se transforma em vazio. Enquanto ela não vem, eu uso a intuição, a consciência, a imaginação. Nada é tão sublime quanto a inspiração. Ela nos remete a um lugar desconhecido, e sem que nos esforcemos, passamos a transitar por lá como se estivéssemos em um ambiente de grande intimidade.
domingo, 9 de julho de 2023
A
mercadoria
Eu transava com uma puta. Acertamos que ela me visitaria
todas as quintas-feiras. Ela era mais velha e usava um perfume insuportável. Às
vezes o talco que ela passava no pescoço e debaixo do braço misturava-se ao
suor, e após endurecer, formava vários registros indecifráveis no seu corpo.
Nós brigávamos por motivos fúteis, mas eu sempre relevava, pois, um homem
solitário, sem as duas pernas e a mão esquerda, não tem o direito de exigir
nada, nem de uma mercadoria que é paga para servi-lo.
quinta-feira, 6 de julho de 2023
Axiomas
Desculpe a pretensão,
mas lendo alguns axiomas e postulados de Euclides, cheguei à conclusão de que
com o óbvio você também consegue ficar famoso. Pelo menos ele ficou. Preste
atenção:
• Coisas iguais a uma terceira coisa também são iguais entre
si.
• Todos os ângulos retos são iguais entre si.
• Se quantidades iguais são subtraídas de coisas iguais entre
si, os restos são iguais.
• O todo é maior do que a parte.
• Pode-se traçar um círculo com qualquer ponto como centro e
com qualquer raio.
• Acrescentando-se quantidades iguais a coisas iguais entre
si, obtêm-se somas iguais.
• Pode-se traçar uma reta de qualquer ponto até qualquer
ponto.
• Qualquer linha reta pode ser prolongada até o infinito.
• Coisas que coincidem umas com as outras são iguais entre
si.
• Dados uma reta e qualquer ponto fora dela, pode-se traçar por este ponto uma reta, e apenas uma, paralela à primeira.
domingo, 2 de julho de 2023
Azul
Um homem sentado em um banco da praça, à direita do banco em
que eu me encontro, olha para o céu. Ele está ali já há algum tempo e eu
procuro algum motivo que o leva a olhar para lá. Não há nuvens nesse momento,
nem pássaros, nem aviões. Só existe o azul que nós dois olhamos.
Será que nós vemos o mesmo azul? Quem me garante que o azul,
o meu azul, o azul que eu conheço não é o meu vermelho para esse homem? Só nós
dois é que sabemos. Ninguém jamais viu o meu azul, nem o azul dele. O meu azul
não pode ser o meu vermelho para ele? Pode ser, e como ele só tem a referência
de azul como o meu vermelho, se maravilha ao olhar para o céu que eu estou
vendo azul, azulzinho, enxergando vermelho, vermelhinho.
Nós nunca vamos saber se estamos enxergando as coisas da mesma maneira, se as formas e as cores são as mesmas, mas o certo que vamos sentindo, vivendo, enxergando como se tudo fosse absolutamente igual para todos. Eu estou satisfeito com as core que vejo, e ele? Talvez o seu azul seja marrom escuro e ele esteja achando tudo maravilhoso. ARGH!