sexta-feira, 24 de julho de 2026

 

 Viver

A vida é um emaranhado
de sentimentos e ilusões.
Alegria, tristeza,
carências, necessidades.
Angústias, agonia,
ódio, ingenuidade.
Viver é bonito.
É sentir a beleza,
o perigo, a pobreza.
É ter consciência de que,
geralmente,
nas piores  circunstâncias,
você está fodido,
É odiar, xingar,
sorrir ou matar.
Matar pensamentos,
viver bem além.
Viver o momento,
tentar não passar.
Viver é bonito.
Ter medo e bravura,
ter ódio e ternura.
É ter consciência
da sua estatura.
Viver é difícil,
vencer, mais ainda.
Vencer a vida
e não ser vencido.
Viver é bonito,
difícil, restrito.
Viver é bonito,
tem que ser bonito.
Se se está vivendo,
sofrendo calado,
sem ter outra parte,
sendo mutilado,
tem que ser bonito.
Viver enganando...
fingindo alegria,
pensando calado,
sentindo agonia.
Quem se cala,
consente.
Os rejeitados,
não se resignam,
reagem.
O inconstante
não se transforma,
aflige-se.
O consciente
não se desespera,
espera. 
O vulgar
não se mostra,
aparece.
O vagabundo,
nem sempre é medíocre.
O orgulhoso
não se deixa humilhar,
humilha.
O sol não envia seus raios.
Não tem consciência do enviar.
O tempo se deixa ser visto e não existe.
O tempo é sólido na aparência,
enigmático no pensamento,
repugnante no outro,
invejável no novo
e inexistente na alma.
A morte esquecida
é sempre esperada.
Fuga.
Um dia, uma vida.
Uma vida, um dia.
O pássaro, quando canta,
não percebe a podridão à sua volta.
A criança não deve nascer.
Se sem nascer pudesse,
agradeceria.
A canção se impõe,
mas não é entendida.
O orvalho não me incomoda.
Faz-me perceber
que a hora chegou.
A idade não me assusta,
muda.
O covarde sente medo
e foge.
O herói não comemora o seu ato,
morre.
O papel está quase acabando.
Dane-se, eu também estou.
O mais fácil seria
Olhar tudo ao seu redor
como se amanhã fosses ficar cego.
O papel é branco.
Veja o branco.
Está fazendo frio.
Sinta o frio.
 
Hoje não choverá.
Não pegaras pingos por acaso.
O dente está doendo.
Ande desesperado por toda a casa,
mas sinta a dor de dente.
Tome um comprimido,
um componente,
um composto.
Dê um salto e não se preocupe em retornar.
Buraco vazio,
Armadilhas do destino.
Sinta o medo
com toda a intensidade.
Ao caminhar pelo parque,
sinta o cheiro das flores.
Veja o verde da grama,
o reflexo das luzes na água.
Puxe uma cadeira.
Sente-se nela.
Você está aqui agora.
Não está se esforçando para estar. 
Cruze as pernas.
Olhe para as dobras da calça.
Não é impressionante?
É tão impressionante
quanto insignificante.
Você as fez, mas isso não tem a menor importância.
Você pode desfazê-las.
Apesar de tudo você faz e desfaz.
O barulho da chuva vai aumentando
e a água da calha cai com força.
Escorra com a água.
Vire enxurrada.
A chuva existe.
O reflexo dos faróis dos carros
no asfalto molhado também existe.
Existe uma mulher dentro e fora de mim.
A de fora mora em outra cidade.
A de dentro é a mesma que mora na outra cidade.
É minha companheira aqui e agora.
O cigarro está aceso.
Dele restará fumaça e cinzas.
A fumaça será desfeita no ar.
As cinzas se espalharão como poeira
pelos cantos da casa.
A chuva passou.
Da janela vejo a praça.
Vejo o meu amor que não passa por lá.
Vejo as crianças brincando,
os pássaros cantando
e me sinto só.
Sento na cama e acendo um cigarro.
Volto para a janela e vejo as cores da praça.
Sinto-me só.
Arrependo-me de me ter feito ficar só.
Tento reagir.
Fecho a janela, as cortinas.
Fecho a porta e ando pelo quarto.
Quero ficar só.
Não quero ouvir nada.
Não quero sentir nada.
Não quero pensar em nada.
Não consigo!
Os barulhos entram pelas
gretas da janela e da porta,
fazendo-me pensar,
sentir, ouvir...
Ela mora no meu pensamento.
Eu sorrio quando ela sorri
e me entristeço ao vê-la triste.
Abro a janela e olho para a praça.
As crianças pararam de brincar,
e os pássaros pararam de cantar.
A noite chega apressada,
Levando consigo
todos os prazeres do dia,
no entanto,
dá-nos a possibilidade do imprevisto.
Se ao menos um vulto passasse por lá...
O tempo apressa o passo.
Quanto mais apressa, mais eu passo.
O dia surge exuberante.
Os pássaros começam a cantar.
As crianças voltaram a brincar.
O sol mostra a que veio.
Durante a noite o vulto não passou.
Durante o dia, vejo o meu amor
que não passa por lá.
Isso está ficando tão “démodé”,
por que eu ainda insisto?
O sol impinge calor.
José foi fazer compras
e morreu atropelado.
Da noite para o dia.
De uma hora para outra.
Num instante,
morreu atropelado.
José, agora, não é mais José.
É somente o número do jazigo.
Armando sorriu mostrando uma linda dentadura.
Dentadura bem natural,
bem dele mesmo.
Armando é muito feio,
mas por trás daqueles lábios grossos e rachados,
esconde a invejável dentadura natural.
Everardo entrou em cena,
com sua capa enigmática,
de mágico,
e como ninguém percebeu a sua presença,
colocou o arreio em um cavalo e saiu a galopar.
Ele nunca colocou o areio em cavalo,
tampouco eu, que não sei por que escrevi isso.
Escrever é fascinante.
Escrever é o que nos conscientiza
de que viver bonito.
Você pode escrever sobre tudo.
Claro que deves estar sempre atento
para escrever
com desenvoltura e originalidade,
e na maioria das vezes achas,
equivocadamente,
que seus escritos são inteligentes,
brilhantes e únicos.
No fundo você quer é
brincar de ser Deus.
Pergunta,
exclama,
chora,
reclama.
É verdade?
Foi?
Como assim?
Eu não queria que acontecesse!
Não, eu sinto uma coisa horrível dentro de mim.
Eu não quero sentir isso.
Meu Deus, tire-me de dentro de mim.
Tire-me, tire-me, tire-me.
Não quero conviver com essa insegurança toda.
Você também é inseguro.
Você também tem suas fraquezas.
Tem ódio e amor aí dentro.
Eu amo uma flor.
Eu não sei se a flor é linda
porque a gente quer que ela seja
ou porque ela é linda
porque é linda e pronto.
A flor, uma rosa é, até certo ponto,
feia e sem razão de ser.
Pétalas vermelhas,
brancas, amarelas, rosas,
umas por cima das outras,
e aqueles espinhos,
sempre prontos a espantar herbívoros
e a furar os nossos dedos.  
A flor é feia.
É duro constatar.
Agora eu fiquei triste.
Gente é feio,
gente é horrível,
gente é necessário,
mas é horrível.
Um braço é a coisa mais feia que existe.
Um rosto.
O nariz com dois buraquinhos
que ás vezes escorre.
A orelha é horrorosa,
e ainda por cima cresce com o tempo.
Só não é feia
a orelha da mulher amada,
os braços, o nariz.
Os órgãos sensoriais,
separadamente,
ou a falta de um deles
no conjunto da obra
é um desastre.
Sobre a língua,
nem é bom comentar.
Que lindos olhos azuis.
Sei lá...
Depende de quem os conduz.
Um pedaço de chocolate amolecido,
espalhado com o dedo sobre um vaso sanitário
é repugnante.
Até o cheiro de merda exala no ar.
Uma manhã de sol
encanta mais do que tudo isso,
porque a manhã de sol
é só a manhã de sol,
e o sol, sábio como é,
nem permite que a gente fixe o olhar nele
para acha-lo também feio.
Manhã de sol é apenas uma ilusão.
Baseado nisso,
há de se considerar que
a rosa também é uma ilusão,
como a manhã de sol,
que nos ofusca com a sua claridade.
Agora eu estou confuso.
Será que tudo existe mesmo
ou é tudo uma grande ilusão?
Eu estou dentro de uma
caixa de fósforos
Alguém abriu a caixa e tenta,
descuidadamente,
pegar um palito lá dentro.
Eu saio de baixo de alguns palitos
e ainda consigo ver a claridade
sumindo lentamente,
à medida que a caixa vai sendo fechada.
Acabou-se a brincadeira
de caixa de fósforo.
Eu estou levitando.
Alguém passa pelo meu corpo
uma argola
para mostrar a todos
que eu não estou amarrado
em parte alguma.
É truque!
É truque.
É mentira.
Eu estou amarrado no céu.
Não acreditem.
A argola tem uma abertura.
É truque.
Tirem-me de dentro de mim,
tirem-me!
Pronto, já não estou mais dentro de mim.
E agora?
Fora também é difícil.
Fora os medos são outros.
Dentro tem o medo da estupidez alheia,
medo de não ser aceito,
medo de tudo dar errado,
não só para você, mas para o mundo.
Aqui fora existe o medo dos poderosos.
Os poderosos,
sem escrúpulos,
nos apavoram.
Nós sabemos do que eles são capazes.
Aqui fora é horrível.
Os loucos e desajustados
não me espantam.
Os notívagos,
os pederastas,
as prostitutas,
também não.
Eles enfrentam,
calam-se,
consentem.
Os altruístas resignados,
as beatas,
servindo, servindo,
os monges,
nada disso provoca
o medo aqui fora.
Os Deuses dos fundamentalista,
sim.
Os pastores cumprindo cotas,
sim.
Os banqueiros...
Esses sim!
São os mais poderosos.
Ficam lá quietinhos,
enchendo as burras.
E acham que fazem
um grande favor à humanidade.
Ninguém é capaz de questionar
a forma desonesta
que os levam a lucrar tanto
com o dinheiro alheio.
Aqui fora é difícil.
Você tem que conviver
com todo o tipo de desigualdade.
E assim você vai descobrindo
que várias pessoas do seu convívio,
de suas relações
são egoístas,
mesquinhas,
manipuladoras,
sem escrúpulos.
Isso vem da formação moral do brasileiro,
que é bem tacanha.
A “palavra”, antigamente,
valia mais do que uma assinatura.
Hoje a assinatura já não vele nada.
Se você tiver dinheiro
e bons advogados para defende-lo,
essa assinatura não tem o menor valor.
Na escola não se forma moralmente a criança.
Ela tem como referência
a moral familiar,
que geralmente carece de fundamentos.
A moral é a última instância
entre o erro e o fazer errado.
Não sei quem falou isto.
Como nem todas as famílias
têm moral suficiente
para administrar
suas necessidades prementes,
passam para as crianças essa falta de moral. 
Adultas essas crianças continuam agindo imoralmente.
Temos como exemplo os políticos.
A maioria deles optam pelo fazer errado.
E por saberem que,
dificilmente responderão pelos seus atos,
continuam agindo assim,
mesmo aguardando o término de um julgamento
que nunca acaba.
A sociedade,
cansada de tanto desmazelo,
finge indignação.
Fingem indignação
para com os seus desafetos,
e fecham os olhos
para os de sua preferência.
Então a coisa vai indo,
e com a internet,
ficou mais fácil fingir,
dissimular, enganar, odiar.
Viver é difícil.
Um casulo não basta.
As brigadas já se preparam para a luta.
Você se esconde dentro de si.
Eles vão lá,
destroem a sua zona de conforto.
Destroem tudo o que você tem.
Seus brios, desejos, compaixão.
Você insiste em não endurecer, mas endurece.
Viver é difícil.
Você revida.
Você reage.
Você festeja.
E se fosse fácil viver
você não precisaria luar tanto.
Os mosquitos costumam viver 50 dias,
Aproximadamente.
Bom para eles.
Alguns insetos não vivem 24 horas.
Melhor ainda!
A galinha que come o próprio ovo
priva o filhote do sofrimento.
Viver é bonito,
difícil,
restrito.
Mas ao contrário de alguns insetos,
eu, com entusiasmo,
sempre espero viver bastante,
até ficar gagá.
Aí, sim.
Aí viver seria realmente bonito.
Seria maravilhoso
xingar pessoas,
cuspir no chão,
parar o trânsito com a bengala.
Isso não tem acontecido.
Ainda sou cordial.
Primo pelo respeito
às normas estabelecidas.
Ainda estou consciente.
Às vezes deslizo na falta de compostura,
mas não deixo que ninguém note.
Minha expectativa de gagazisse
tem aumentado
de acordo com a gagazisse
de toda a humanidade.
Não é um mérito
adiar a gagazisse,
e sim, contingencias da época em que vivemos.
Contingências num mundo
com suas cápsulas e tratamentos geriátricos.
Claro que isso só é alcançado
por uma parte ínfima da população,
e eu,
pretensiosamente,
me incluo nessa parte.
Já passou da hora.
Não consigo mais ser respeitoso e cordial.
Às vezes eu fico aqui dentro.
Dentro de mim.
O mim é uma massas uniforme.
Eu vejo-me assim.
Disforme para um alienígena,
ou para outros seres humanos
que me vêm com má vontade.
Para um camelo, então,
eu sou horroroso.
O mim é a casa do eu.
O eu fica sempre divagando,
inventando situações que às vezes
causam grandes aborrecimentos ao mim.
Apesar disso eles são companheiros.
Um cuida do outro,
e vão de mãos dadas pela vida.
A vida é curta e a contagem regressiva
inicia-se no dia do nascimento do mim.
Nessa ocasião o eu ainda não se manifesta.
Quando ele toma consciência da vida
e segue
pensando na curta extensão da vida,
demora aproximadamente quatro décadas
para que a contagem regressiva
chegue no seu auge.
Depois desse tempo
não incomoda mais,
nem causa expectativa.
A familiaridade com a contagem regressiva
a relega ao segundo plano.
O primeiro plano agora é viver.
Viver só o bonito, se possível.
Apesar de tudo, viver é bonito.
Cansei.
Não quero pensar em nada.
Não quero pensar em tempestade,
nem em água fresca.
Eu não quero pensar em morte,
nem em vida.
Não quero pensar em mulher,
não quero pensar em sexo,
nem pensar em união.
Não quero pensar em multidão,
não quero pensar em solidão.
Não quero pensar em comunhão,
não quero pensar em satisfação,
nem em desilusão.
Não quero pensar em ciclovia,
tampouco pensar em condução.
Não quero pensar em cotovia,
nem pensar em acomodação.
Não quero pensar
que não quero pensar.
Não consigo.
Vou tomar outro conhaque.
Pronto.
Nessas horas o conhaque
é um grande aliado.
Tudo tem o seu valor.
Um cisco insignificante
tem o seu valor,
principalmente se ele estiver alojado
no olho de uma pessoa.
Ele pode leva-la ao hospital,
ou acabar com a alegria de muita gente.
Pode impossibilitar um presidente
de pronunciar o seu discurso,
ou fazer com que um motorista
encoste o seu carro no acostamento,
isso se não tiver causado um grande acidente.
O cisco tem seu valor
Um cisco tem importância.
Eu sou um cisco.
Talvez o cisco do cisco,
se comparado à grandeza do universo.
A terra é um cisco
e eu na terra
sou insignificante.
É tão difícil aceitar a nossa insignificância,
e com o passar do tempo
você vai virando um cisco verdadeiro.
Quer ser um cisco com significado,
daqueles que exigem e incomodam:
o verdadeiro cisco no olho.
Depois da terceira dose
não quero mais falar
de ciscos e insignificâncias
Vamos lá:
O alicate estava em cima da mesa
e eu olhei para ele,
falei sobre ele,
falei da mesa e da cor cinza do alicate.
A cor não foi escolhida,
apareceu em cima da mesa
como o alicate
ou como a mesa apareceu em minha mente.
Eu fico dentro de mim
e às vezes dou uma fugida
e passeio por aí.
É estranho, muito estranho.
Aquele rosto roxo
pintado de purpurina.
Os olhos também pintados.
Os olhos ausentes
e ela
muito presente
ali dentro dela mesma.
Eu fiquei no meu lugar
sem dizer nada,
com a mão apoiada na cadeira
e a cabeça encostada na parede,
olhando para o teto.
Um mosquito pousou no teto,
ficou um pouco parado,
 mexendo com as perninhas,
e depois andou para a esquerda.
Logo veio o menino correndo,
correndo,
bem devagar,
como se andando
dentro de um trem em movimento,
visto de fora.
O menino olha pela janela,
e vê a menina no bosque florido.
Ela está entre pequenas flores brancas que,
de longe,
parecem ser uma só,
naquele azul da manhã clara de sol.
A menina ficou parada
olhando o trem passar
e soltar uma fumaça escura.
A Menina não viu o menino
que olhava para ela.
O trem passou.
O menino passou.
A menina foi para casa
e já não existe mais.
O lugar florido permanece lá
e uma borboleta amarela
voa sobre as flores
tentando pousar em algumas delas,
sem conseguir.
O coelho olhou por traz de alguns ramos
e foi-se embora.
Já não se vê mais o coelho,
e sim, o capim e as flores balançando ao longe.
Não existem pássaros,
neste campo
e as flores já estão murchas e sem brilho.
Às vezes o vento sopra forte
trazendo montes de folhas secas,
restos de capins secos
que vão se acumulando
ao pé de uma e outra árvores.
Anoiteceu e eu fiquei ali,
sentado no chão,
olhando o céu estrelado.
Depois eu olhei para as minhas mãos
e lembrei-me de quando dizia
que mão é um órgão feio
e ninguém entendeu.
Mão,
cinco dedos,
coisa feia, enrugada,
mão sem dedos, mutilada.
Mãos inúteis, falta delas.
Mãos macias, de donzelas.
Mãos heroicas,
mãos cansadas,
mãos trêmulas,
covardes.
Mãos que fazem carinho,
mãos nos bolsos,
mãos no rosto.
Mãos que apertam mãos.
Mãos fortes, mãos frágeis.
E o calor das mãos...
Mãos de ferro,
mãos mecânicas,
mãos que matam,
mãos que curam.
Gestos de mãos que acalmam.
Mãos fechadas,
mãos doentes,
mãos que procuram,
mãos regentes,
mão pra cima, que apavoram,
e a palma das mãos...
Mãos que prendem outras mãos,
mãos que dão sentido a algo.
Mãos, mãos...
Tantas mãos,
tantos braços balançando
e ninguém os vendo.
Braço que abraça,
pé que chuta,
mãos que pegam,
olhos que vêm.
Boca que fuma,
boca que beija,
boca que sente.
Dor!
Dor que vem não se sabe de onde.
Dor de dente,
dor de ouvido.
- Mãe, corre! Está doendo muito! Mãe!!!
Dor na vista,
dor no pé,
dor de barriga.
E a pior das dores:
dor sem dor.
Dor que não se acaba
com um analgésico.
Dor no dedo,
dedo grande,
fino,
grosso.
Dedos agressivos que tocam piano.
Dedos apertados dentro de sapatos.
Dedos suando dentro de luvas.
Dedo sujo,
unha grande.
Dedos amassados,
machucados.
Cabeça sobrando pelos
Cabelo branco na cabeça vermelha.
Cabeça pensando,
comandando
as mãos e os dedos.
Ouvido sujo, mas que ouve.
Tudo isso somos nós:
frágeis,
perfeitos,
complexos,
agressivos.
E dando apoio a esses sentidos,
estão as mãos,
que tapam os olhos,
tapam os ouvidos,
tapam a boca,
tapam o nariz.
Mãos omissas.
Nós omissos.
E apesar de tudo isso,
viver é bonito.
A pomba da paz
traz dois ramos de trigo no bico.
O espírito santo
desce em forma de língua de fogo,
não sei se para nos salvar.
A loba alimentou as duas crianças
e David, com aquele corpinho frágil
derrotou o gigante Golias.
Isso exerce grande influência
sobre a humanidade.
Eu não sei em que isto me ajuda
ou qual a influência
que exerce sobre mim,
principalmente depois do quinto conhaque.
São Jorge,
no seu cavalo branco
matou o dragão
e dizem que hoje ele está morando na lua.
Picasso pintou Guernica
e quem contribuiu para isso foi o Hitler.
Guernica existe na tela
e ainda existirá por muito tempo.
Talvez me influencie mais
do que o Espirito Santo, a loba,
David e Golias.
Pelo menos Hitler serviu para alguma coisa.
Viver é bonito.
Um copo de vinho.
Um naco de queijo.
Um par, um carinho.
Se possível um beijo.
Na hora é perfeito,
na hora é divino.
Depois, ninguém sabe,
Depois, só destino.
Viver é bonito,
tem que ser bonito
Se o dia está cinza,
o corpo esse trapo,
você um ranzinza,
você um farrapo,
tem que ser bonito.
Aí você bebe,
aí você fuma.
Aí você deita,
sem pestanejar.
Acorda um zumbi.
Ainda babando,
e olha lá fora.
Sol.
nem lá,
nem si,
nem dó.
É sol mesmo.
Calor.
Um novo dia,
de um novo mundo,
de muitas novidade.
A terra está esquentando...
Não, não, está esfriando...
Está esfriado...
Agora esquentando...
Esfriando...
Quando a brincadeira chegar ao fim,
PLUFT, acabou.
Mas eu não tenho o que reclamar.
Tive nessa minha jornada
uma vida intensa.
Fui filho, fui irmão.
Fui neto, solidão.
Fui amigo,
fui sobrinho,
fui rude, vizinho.
Fui requerente,
fui requerido.
Fui companheiro,
fui querido.
Fui amante, fui cliente,
fui farsante, conveniente.
Fui primo de vários graus.
Fui preposto,
Fui deposto.
Fui amado,
apaixonado,
e tive também
muito desgosto.
Foi um espermatozoide
que gerou tudo isso,
que me deu consciência
e uma percepção abstrata,
que fez de mim
o centro do universo.
Tudo é criado por mim
e qualquer apagão
na minha consciência,
nada acontece com o resto.
O meu universo acaba
e o universo dos outros
continua impondo sua presença.
E por esses maravilhosos
arroubos de criatividade é que
viver é bonito.
Pode não ser para
um homem sem dinheiro,
um carrapato sem vaca,
uma pulga sem cachorro,
um porco sem lama,
um rato sem lixo,
um cadáver sem verme,
uma planta aquática sem água,
uma minhoca sem terra,
uma lesma sem gosma,
uma abelha sem flor,
uma criança sem leite,
Uma baleia sem mar,
uma ninfomaníaca sem sexo,
um corrupto sem propina,
mas tudo isso pode voltar ao normal.
Tenha paciência.
É só esperar.
Aí você verá que
viver é bonito,
difícil,
restrito.
Sempre há um jeito
de escapar da solidão.
A imaginação é livre.
É claro que uma boa companhia
é melhor do que mil ideias.
Na pior das hipóteses
há de se criar companhia
na nossa imaginação.
A imaginação preenche
os espaços vazios.
Polípono,
polónopo,
patílogo
Precípito,
prontísquo,
presépito,
prismálogo,
prontívoro,
pronto!
O diferente.
Tudo o que é diferente
assusta.
Pensar diferente assusta,
agir diferente do assustado
assusta.
Ser de uma cor diferente,
sentir prazer diferente,
optar por crenças diferentes,
falar ou se calar
de uma maneira diferente,
assusta.
Mas diferente de quê?
Diferente de quem está julgando.
Como a grande maioria
está julgando
da mesma maneira,
A manada segue
com seus cabrestos
e balangandãs coloridos,
sempre excluindo
dos seus grupos
os que não usam
os mesmos cabrestos.
Essas pessoas
só não se assustam,
com o fato de serem
completamente diferentes
de todos os outros seres
do universo.
Cada um é único.
Cada um com suas mazelas
e todos se importando
com as mazelas dos outros.
Você passa a vida
como um cachorrinho,
olhando assustado,
pedindo carinho.
Se mostra aos incautos
como um homem forte,
briga, fala alto
sem medo da morte.
Mas não admite,
que esse homem bobo,
com aparência de lobo,
é mesmo um cordeiro
que briga por nada,
só pensa em dinheiro.
Viver é bonito.
Um dia você acorda
E sente aquela emoção.
E quando menos se espera,
eis que aparece outra fera,
fingindo segurança,
trazendo grande vigor,
trazendo grande esperança
daquilo ser o amor.
Então tu ficas contente,
alegre, triste, demente,
sem saber que o amor
que encanta tanta gente,
chega sempre como um raio
que às vezes destrói,
e outras vezes ilumina.
Que às vezes é deslumbrante,
perfeito,
outras vezes, repugnante,
suspeito.
Mas não vamos
nos entristecer.
Viver é bonito,
tem que ser bonito.
Se não fosse tão bonito
eu não teria escrito
tudo isso
para celebrar
a beleza da vida
 
 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

COMENTE