quarta-feira, 29 de abril de 2026

 

             Eu não me sinto tão repulsivo
 
     Eu estava em um bar, numa mesa da calçada. Quando as pessoas passavam eu, invariavelmente, as olhavam, não por interesse, mas por não ter para onde olhar. Passou uma mulher. Eu a olhei. Ela fez cara de nojo. Eu não me sinto tão repulsivo. Passou outra e eu não a olhei. Fiz um esforço danado para olhar para o copo, para a mesa, mas não a olhei. Depois eu não aguentei e dei uma espiadinha. Por coincidência ela olhava para mim. Eu logo desviei os olhos e ela também. Eu não queria olhar, mas não aguentei. Ela queria ser olhada e deve ter estranhado a minha recusa. Ela queria ser olhada para fazer uma cara de nojo e sair como se aquilo a tivesse desagradado.
            Depois disso eu olhei para várias outras pessoas e várias mulheres que fingiram não perceber. Algumas perceberam; algumas até sorriram e eu continuei com a brincadeira descompromissada, até me fartar daquilo tudo e pegar o meu rumo.

sábado, 25 de abril de 2026

 

Insight de sensibilidade

                Vou olhar para o vazio, para frente, e tentar não enxergar nada. Não consigo! Não consigo não ouvir. Vou ouvir bastante barulho. Estou ouvindo todos eles: barulho de carros passando, pessoas conversando, cachorros latindo. Sorrisos felizes vêm não sei de onde. Estou enxergando também tudo colorido. As luzes dos letreiros luminosos das lojas, os sinais de trânsito, os faroletes dos carros, todas as cores aparecem agora com outra intensidade. Estou me sentindo como se estivesse dentro de um filme colorido. Parece que estou em outro mundo, em outro país. Tudo isto está aqui na minha frente, na frente de todas as pessoas que passam apressadas. Tenho certeza de que ninguém está enxergando as cores com tanta intensidade quanto eu.
            Duas pessoas passaram aqui antes, e agora estão voltando. Elas também estão coloridos. Elas já estavam quando passaram  e eu não percebi. O restaurante, do outro lado da rua, visto daqui é lindo, com sua iluminação indireta. O contraste das toalhas vermelhas com as roupas das pessoas jantando parece algo planejado. Tudo parece um grande cenário. Se estivesse chovendo, estaria tudo ainda mais colorido. O reflexo das luzes no chão duplicaria a claridade.
            Daqui a pouco eu voltarei a não ouvir e ver as coisas em preto e branco como todos vêm. Este insight de sensibilidade deveria durar mais, mas infelizmente as cidades, com todos os seus barulhos e cores, só nos proporcionam esses pequenos momentos de felicidade.
            Claro que depende muito da pessoa querer.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

 

                                                        Consumismo

                                    Eu não tenho o que quero

                                    Eu não quero o que tenho

                                    Eu tenho o que não quero

                                    Eu quero o que não tenho

                                    Eu nem sei o que quero

                                    Mas de tudo o que tenho

                                    Eu só sei que não quero

domingo, 19 de abril de 2026

 

Ar diferente

            Resolvi mudar, respirar um ar diferente. Então fui até a esquina, um lugar bem movimentado, levando um grande pedaço de plástico bolha. Chegando lá eu comecei a estourar as bolinhas e respirar o ar que saía delas. Dizem que o ar do plástico bolha, geralmente vem do Japão ou da China. Me senti bem respirando profundamente esse ar diferente, e quando estava satisfeito com aquela mudança toda, voltei para casa.
            Foi uma bela experiência.

quinta-feira, 16 de abril de 2026

 

O louva-a-deus rezou por mim

            Um louva-a-deus, de mãos postas, diante dos meus olhos, rezou por mim. Rezou por muito tempo pedindo para que eu continuasse ali, encantado, admirando a sua oração. 

            Deus ouviu as suas preces. 

segunda-feira, 13 de abril de 2026

 

A utilidade das coisas

            O machado incidiu sobre a madeira, chagando o toco, que breve será necessário.

sábado, 4 de abril de 2026

 

Vampiros

            Os vampiros têm vida eterna. A cada dentada transforma o dentado num vivente eterno. Eu não entendo esse horror que as pessoas sentem dos vampiros. Ele está sempre acompanhado de lindas mulheres. É comedido, ao falar, ao andar, e sua indumentária é antiga mas sóbria. Uma mordidinha no pescoço pode mudar a sua vida, onde não mais existirá o medo da morte, e poderás passar de um cómodo para o outro entre as paredes, e ter uma força descomunal. Isso tudo apenas com uma dentadinha de nada.
            Eu acho que as pessoas têm um medo atávico de injeção, por isso acham a dentada do vampiro tão repugnante.

quarta-feira, 1 de abril de 2026

 

Se fosse fácil ventar

            Se fosse fácil ventar, eu ventanejava. Planava em montanhas, flanava em campinas, soprava de leve os cabelos da amada, e ajudava crianças com suas pipas. Se fosse fácil ventar, eu ventaniava palavras.