Viver
A
vida é um emaranhado
de
sentimentos e ilusões.
Alegria,
tristeza,
carências,
necessidades.
Angústias,
agonia,
ódio,
ingenuidade.
Viver
é bonito.
É
sentir a beleza,
o
perigo, a pobreza.
É
ter consciência de que,
geralmente,
nas
piores circunstâncias,
você
está fodido,
É
odiar, xingar,
sorrir
ou matar.
Matar
pensamentos,
viver
bem além.
Viver
o momento,
tentar
não passar.
Viver
é bonito.
Ter
medo e bravura,
ter
ódio e ternura.
É
ter consciência
da
sua estatura.
Viver
é difícil,
vencer,
mais ainda.
Vencer
a vida
e
não ser vencido.
Viver
é bonito,
difícil,
restrito.
Viver
é bonito,
tem
que ser bonito.
Se
se está vivendo,
sofrendo
calado,
sem
ter outra parte,
sendo
mutilado,
tem
que ser bonito.
Viver
enganando...
fingindo
alegria,
pensando
calado,
sentindo
agonia.
Quem
se cala,
consente.
Os
rejeitados,
não
se resignam,
reagem.
O
inconstante
não
se transforma,
aflige-se.
O
consciente
não
se desespera,
espera.
O
vulgar
não
se mostra,
aparece.
O
vagabundo,
nem
sempre é medíocre.
O
orgulhoso
não
se deixa humilhar,
humilha.
O
sol não envia seus raios.
Não
tem consciência do enviar.
O
tempo se deixa ser visto e não existe.
O
tempo é sólido na aparência,
enigmático no pensamento,
repugnante no outro,
invejável no novo
e inexistente na alma.
A
morte esquecida
é
sempre esperada.
Fuga.
Um
dia, uma vida.
Uma
vida, um dia.
O
pássaro, quando canta,
não
percebe a podridão à sua volta.
A
criança não deve nascer.
Se
sem nascer pudesse,
agradeceria.
A
canção se impõe,
mas
não é entendida.
O
orvalho não me incomoda.
Faz-me
perceber
que
a hora chegou.
A idade não me assusta,
muda.
O
covarde sente medo
e
foge.
O
herói não comemora o seu ato,
morre.
O
papel está quase acabando.
Dane-se,
eu também estou.
O
mais fácil seria
Olhar
tudo ao seu redor
como
se amanhã fosses ficar cego.
O
papel é branco.
Veja
o branco.
Está
fazendo frio.
Sinta
o frio.
Hoje
não choverá.
Não
pegaras pingos por acaso.
O
dente está doendo.
Ande
desesperado por toda a casa,
mas
sinta a dor de dente.
Tome
um comprimido,
um
componente,
um
composto.
Dê
um salto e não se preocupe em retornar.
Buraco
vazio,
Armadilhas
do destino.
Sinta
o medo
com
toda a intensidade.
Ao
caminhar pelo parque,
sinta
o cheiro das flores.
Veja
o verde da grama,
o
reflexo das luzes na água.
Puxe
uma cadeira.
Sente-se
nela.
Você
está aqui agora.
Não
está se esforçando para estar.
Cruze
as pernas.
Olhe
para as dobras da calça.
Não
é impressionante?
É
tão impressionante
quanto
insignificante.
Você
as fez, mas isso não tem a menor importância.
Você
pode desfazê-las.
Apesar
de tudo você faz e desfaz.
O
barulho da chuva vai aumentando
e
a água da calha cai com força.
Escorra
com a água.
Vire
enxurrada.
A
chuva existe.
O
reflexo dos faróis dos carros
no
asfalto molhado também existe.
Existe
uma mulher dentro e fora de mim.
A
de fora mora em outra cidade.
A
de dentro é a mesma que mora na outra cidade.
É
minha companheira aqui e agora.
O
cigarro está aceso.
Dele
restará fumaça e cinzas.
A
fumaça será desfeita no ar.
As
cinzas se espalharão como poeira
pelos
cantos da casa.
A
chuva passou.
Da
janela vejo a praça.
Vejo
o meu amor que não passa por lá.
Vejo
as crianças brincando,
os
pássaros cantando
e
me sinto só.
Sento
na cama e acendo um cigarro.
Volto
para a janela e vejo as cores da praça.
Sinto-me
só.
Arrependo-me
de me ter feito ficar só.
Tento
reagir.
Fecho
a janela, as cortinas.
Fecho
a porta e ando pelo quarto.
Quero
ficar só.
Não
quero ouvir nada.
Não
quero sentir nada.
Não
quero pensar em nada.
Não
consigo!
Os
barulhos entram pelas
gretas
da janela e da porta,
fazendo-me
pensar,
sentir,
ouvir...
Ela
mora no meu pensamento.
Eu
sorrio quando ela sorri
e
me entristeço ao vê-la triste.
Abro
a janela e olho para a praça.
As
crianças pararam de brincar,
e
os pássaros pararam de cantar.
A
noite chega apressada,
Levando
consigo
todos
os prazeres do dia,
no
entanto,
dá-nos
a possibilidade do imprevisto.
Se
ao menos um vulto passasse por lá...
O
tempo apressa o passo.
Quanto
mais apressa, mais eu passo.
O
dia surge exuberante.
Os
pássaros começam a cantar.
As
crianças voltaram a brincar.
O
sol mostra a que veio.
Durante
a noite o vulto não passou.
Durante
o dia, vejo o meu amor
que
não passa por lá.
Isso
está ficando tão “démodé”,
por
que eu ainda insisto?
O
sol impinge calor.
José
foi fazer compras
e
morreu atropelado.
Da
noite para o dia.
De
uma hora para outra.
Num
instante,
morreu
atropelado.
José,
agora, não é mais José.
É
somente o número do jazigo.
Armando
sorriu mostrando uma linda dentadura.
Dentadura
bem natural,
bem
dele mesmo.
Armando
é muito feio,
mas
por trás daqueles lábios grossos e rachados,
esconde
a invejável dentadura natural.
Everardo
entrou em cena,
com
sua capa enigmática,
de
mágico,
e
como ninguém percebeu a sua presença,
colocou
o arreio em um cavalo e saiu a galopar.
Ele
nunca colocou o areio em cavalo,
tampouco
eu, que não sei por que escrevi isso.
Escrever
é fascinante.
Escrever
é o que nos conscientiza
de
que viver bonito.
Você
pode escrever sobre tudo.
Claro
que deves estar sempre atento
para
escrever
com
desenvoltura e originalidade,
e
na maioria das vezes achas,
equivocadamente,
que
seus escritos são inteligentes,
brilhantes
e únicos.
No
fundo você quer é
brincar
de ser Deus.
Pergunta,
exclama,
chora,
reclama.
É
verdade?
Foi?
Como
assim?
Eu
não queria que acontecesse!
Não,
eu sinto uma coisa horrível dentro de mim.
Eu
não quero sentir isso.
Meu
Deus, tire-me de dentro de mim.
Tire-me,
tire-me, tire-me.
Não
quero conviver com essa insegurança toda.
Você
também é inseguro.
Você
também tem suas fraquezas.
Tem
ódio e amor aí dentro.
Eu
amo uma flor.
Eu
não sei se a flor é linda
porque
a gente quer que ela seja
ou
porque ela é linda
porque
é linda e pronto.
A
flor, uma rosa é, até certo ponto,
feia
e sem razão de ser.
Pétalas
vermelhas,
brancas,
amarelas, rosas,
umas
por cima das outras,
e
aqueles espinhos,
sempre
prontos a espantar herbívoros
e
a furar os nossos dedos.
A
flor é feia.
É
duro constatar.
Agora
eu fiquei triste.
Gente
é feio,
gente
é horrível,
gente
é necessário,
mas
é horrível.
Um
braço é a coisa mais feia que existe.
Um
rosto.
O
nariz com dois buraquinhos
que
ás vezes escorre.
A
orelha é horrorosa,
e
ainda por cima cresce com o tempo.
Só
não é feia
a
orelha da mulher amada,
os
braços, o nariz.
Os
órgãos sensoriais,
separadamente,
ou
a falta de um deles
no
conjunto da obra
é
um desastre.
Sobre
a língua,
nem
é bom comentar.
Que
lindos olhos azuis.
Sei
lá...
Depende
de quem os conduz.
Um
pedaço de chocolate amolecido,
espalhado
com o dedo sobre um vaso sanitário
é
repugnante.
Até
o cheiro de merda exala no ar.
Uma
manhã de sol
encanta
mais do que tudo isso,
porque
a manhã de sol
é
só a manhã de sol,
e
o sol, sábio como é,
nem
permite que a gente fixe o olhar nele
para
acha-lo também feio.
Manhã
de sol é apenas uma ilusão.
Baseado
nisso,
há
de se considerar que
a
rosa também é uma ilusão,
como
a manhã de sol,
que
nos ofusca com a sua claridade.
Agora
eu estou confuso.
Será
que tudo existe mesmo
ou
é tudo uma grande ilusão?
Eu
estou dentro de uma
caixa
de fósforos
Alguém
abriu a caixa e tenta,
descuidadamente,
pegar
um palito lá dentro.
Eu
saio de baixo de alguns palitos
e
ainda consigo ver a claridade
sumindo
lentamente,
à
medida que a caixa vai sendo fechada.
Acabou-se
a brincadeira
de
caixa de fósforo.
Eu
estou levitando.
Alguém
passa pelo meu corpo
uma
argola
para
mostrar a todos
que
eu não estou amarrado
em
parte alguma.
É
truque!
É
truque.
É
mentira.
Eu
estou amarrado no céu.
Não
acreditem.
A
argola tem uma abertura.
É
truque.
Tirem-me
de dentro de mim,
tirem-me!
Pronto,
já não estou mais dentro de mim.
E
agora?
Fora
também é difícil.
Fora
os medos são outros.
Dentro
tem o medo da estupidez alheia,
medo
de não ser aceito,
medo
de tudo dar errado,
não
só para você, mas para o mundo.
Aqui
fora existe o medo dos poderosos.
Os
poderosos,
sem
escrúpulos,
nos
apavoram.
Nós
sabemos do que eles são capazes.
Aqui
fora é horrível.
Os
loucos e desajustados
não
me espantam.
Os
notívagos,
os
pederastas,
as
prostitutas,
também
não.
Eles
enfrentam,
calam-se,
consentem.
Os
altruístas resignados,
as
beatas,
servindo,
servindo,
os
monges,
nada
disso provoca
o
medo aqui fora.
Os
Deuses dos fundamentalista,
sim.
Os
pastores cumprindo cotas,
sim.
Os
banqueiros...
Esses
sim!
São
os mais poderosos.
Ficam
lá quietinhos,
enchendo
as burras.
E
acham que fazem
um
grande favor à humanidade.
Ninguém
é capaz de questionar
a
forma desonesta
que
os levam a lucrar tanto
com
o dinheiro alheio.
Aqui
fora é difícil.
Você
tem que conviver
com
todo o tipo de desigualdade.
E
assim você vai descobrindo
que
várias pessoas do seu convívio,
de
suas relações
são
egoístas,
mesquinhas,
manipuladoras,
sem
escrúpulos.
Isso
vem da formação moral do brasileiro,
que
é bem tacanha.
A
“palavra”, antigamente,
valia
mais do que uma assinatura.
Hoje
a assinatura já não vele nada.
Se
você tiver dinheiro
e
bons advogados para defende-lo,
essa
assinatura não tem o menor valor.
Na
escola não se forma moralmente a criança.
Ela tem como referência
a moral familiar,
que geralmente carece de fundamentos.
A moral é a última instância
entre
o erro e o fazer errado.
Não
sei quem falou isto.
Como
nem todas as famílias
têm
moral suficiente
para
administrar
suas
necessidades prementes,
passam
para as crianças essa falta de moral.
Adultas
essas crianças continuam agindo imoralmente.
Temos
como exemplo os políticos.
A
maioria deles optam pelo fazer errado.
E
por saberem que,
dificilmente
responderão pelos seus atos,
continuam
agindo assim,
mesmo
aguardando o término de um julgamento
que
nunca acaba.
A
sociedade,
cansada
de tanto desmazelo,
finge
indignação.
Fingem
indignação
para
com os seus desafetos,
e
fecham os olhos
para
os de sua preferência.
Então
a coisa vai indo,
e
com a internet,
ficou
mais fácil fingir,
dissimular,
enganar, odiar.
Viver
é difícil.
Um
casulo não basta.
As
brigadas já se preparam para a luta.
Você
se esconde dentro de si.
Eles
vão lá,
destroem
a sua zona de conforto.
Destroem
tudo o que você tem.
Seus
brios, desejos, compaixão.
Você insiste em não endurecer, mas endurece.
Viver é difícil.
Você revida.
Você reage.
Você festeja.
E se fosse fácil viver
você não precisaria lutar tanto.
Os mosquitos costumam viver 50 dias,
Aproximadamente.
Bom para eles.
Alguns insetos não vivem 24 horas.
Melhor ainda!
A galinha que come o próprio ovo
priva o filhote do sofrimento.
Viver é bonito,
difícil,
restrito.
Mas ao contrário de alguns insetos,
eu, com entusiasmo,
sempre
espero viver bastante,
até
ficar gagá.
Aí,
sim.
Aí
viver seria realmente bonito.
Seria
maravilhoso
xingar
pessoas,
cuspir
no chão,
parar
o trânsito com a bengala.
Isso
não tem acontecido.
Ainda
sou cordial.
Primo
pelo respeito
às
normas estabelecidas.
Ainda
estou consciente.
Às
vezes deslizo na falta de compostura,
mas
não deixo que ninguém note.
Minha
expectativa de gagazisse
tem
aumentado
de
acordo com a gagazisse
de
toda a humanidade.
Não
é um mérito
adiar
a gagazisse,
e
sim, contingencias da época em que vivemos.
Contingências
num mundo
com
suas cápsulas e tratamentos geriátricos.
Claro
que isso só é alcançado
por
uma parte ínfima da população,
e
eu,
pretensiosamente,
me
incluo nessa parte.
Já
passou da hora.
Não
consigo mais ser respeitoso e cordial.
Às
vezes eu fico aqui dentro.
Dentro
de mim.
O
mim é uma massas uniforme.
Eu
vejo-me assim.
Disforme
para um alienígena,
ou
para outros seres humanos
que
me vêm com má vontade.
Para
um camelo, então,
eu
sou horroroso.
O
mim é a casa do eu.
O
eu fica sempre divagando,
inventando
situações que às vezes
causam
grandes aborrecimentos ao mim.
Apesar
disso eles são companheiros.
Um
cuida do outro,
e
vão de mãos dadas pela vida.
A
vida é curta e a contagem regressiva
inicia-se
no dia do nascimento do mim.
Nessa
ocasião o eu ainda não se manifesta.
Quando
ele toma consciência da vida
e
segue
pensando
na curta extensão da vida,
demora
aproximadamente quatro décadas
para
que a contagem regressiva
chegue
no seu auge.
Depois
desse tempo
não
incomoda mais,
nem
causa expectativa.
A
familiaridade com a contagem regressiva
a
relega ao segundo plano.
O
primeiro plano agora é viver.
Viver
só o bonito, se possível.
Apesar
de tudo, viver é bonito.
Cansei.
Não
quero pensar em nada.
Não
quero pensar em tempestade,
nem
em água fresca.
Eu
não quero pensar em morte,
nem
em vida.
Não
quero pensar em mulher,
não
quero pensar em sexo,
nem
pensar em união.
Não
quero pensar em multidão,
não
quero pensar em solidão.
Não
quero pensar em comunhão,
não
quero pensar em satisfação,
nem
em desilusão.
Não
quero pensar em ciclovia,
tampouco
pensar em condução.
Não
quero pensar em cotovia,
nem
pensar em acomodação.
Não
quero pensar
que
não quero pensar.
Não
consigo.
Vou
tomar outro conhaque.
Pronto.
Nessas
horas o conhaque
é
um grande aliado.
Tudo
tem o seu valor.
Um
cisco insignificante
tem
o seu valor,
principalmente
se ele estiver alojado
no
olho de uma pessoa.
Ele
pode leva-la ao hospital,
ou
acabar com a alegria de muita gente.
Pode
impossibilitar um presidente
de
pronunciar o seu discurso,
ou
fazer com que um motorista
encoste
o seu carro no acostamento,
isso
se não tiver causado um grande acidente.
O
cisco tem seu valor
Um
cisco tem importância.
Eu
sou um cisco.
Talvez
o cisco do cisco,
se
comparado à grandeza do universo.
A
terra é um cisco
e
eu na terra
sou
insignificante.
É
tão difícil aceitar a nossa insignificância,
e
com o passar do tempo
você
vai virando um cisco verdadeiro.
Quer
ser um cisco com significado,
daqueles
que exigem e incomodam:
o
verdadeiro cisco no olho.
Depois
da terceira dose
não
quero mais falar
de
ciscos e insignificâncias
Vamos
lá:
O alicate estava em cima da mesa
e eu olhei para ele,
falei sobre ele,
falei da mesa e da cor cinza do alicate.
A cor não foi escolhida,
apareceu em cima da mesa
como o alicate
ou como a mesa apareceu em minha mente.
Eu fico dentro de mim
e às vezes dou uma fugida
e passeio por aí.
É estranho, muito estranho.
Aquele rosto roxo
pintado de purpurina.
Os olhos também pintados.
Os olhos ausentes
e ela
muito presente
ali dentro dela mesma.
Eu fiquei no meu lugar
sem dizer nada,
com a mão apoiada na cadeira
e a cabeça encostada na parede,
olhando para o teto.
Um mosquito pousou no teto,
ficou um pouco parado,
mexendo com as perninhas,
e depois andou para a esquerda.
Logo veio o menino correndo,
correndo,
bem devagar,
como se andando
dentro de um trem em movimento,
visto de fora.
O menino olha pela janela,
e vê a menina no bosque florido.
Ela está entre pequenas flores brancas que,
de longe,
parecem ser uma só,
naquele azul da manhã clara de sol.
A menina ficou parada
olhando o trem passar
e soltar uma fumaça escura.
A Menina não viu o menino
que olhava para ela.
O trem passou.
O menino passou.
A menina foi para casa
e já não existe mais.
O lugar florido permanece lá
e uma borboleta amarela
voa sobre as flores
tentando pousar em algumas delas,
sem conseguir.
O coelho olhou por traz de alguns ramos
e foi-se embora.
Já não se vê mais o coelho,
e sim, o capim e as flores balançando ao longe.
Não existem pássaros,
neste campo
e as flores já estão murchas e sem brilho.
Às vezes o vento sopra forte
trazendo montes de folhas secas,
restos de capins secos
que vão se acumulando
ao pé de uma e outra árvores.
Anoiteceu e eu fiquei ali,
sentado no chão,
olhando o céu estrelado.
Depois eu olhei para as minhas mãos
e lembrei-me de quando dizia
que mão é um órgão feio
e ninguém entendeu.
Mão,
cinco dedos,
coisa feia, enrugada,
mão sem dedos, mutilada.
Mãos inúteis, falta delas.
Mãos macias, de donzelas.
Mãos heroicas,
mãos cansadas,
mãos trêmulas,
covardes.
Mãos que fazem carinho,
mãos nos bolsos,
mãos no rosto.
Mãos que apertam mãos.
Mãos fortes, mãos frágeis.
E o calor das mãos...
Mãos de ferro,
mãos mecânicas,
mãos que matam,
mãos que curam.
Gestos de mãos que acalmam.
Mãos fechadas,
mãos doentes,
mãos que procuram,
mãos regentes,
mão pra cima, que apavoram,
e a palma das mãos...
Mãos que prendem outras mãos,
mãos que dão sentido a algo.
Mãos, mãos...
Tantas mãos,
tantos braços balançando
e ninguém os vendo.
Braço que abraça,
pé que chuta,
mãos que pegam,
olhos que vêm.
Boca que fuma,
boca que beija,
boca que sente.
Dor!
Dor que vem não se sabe de onde.
Dor de dente,
dor de ouvido.
- Mãe, corre! Está doendo muito! Mãe!!!
Dor na vista,
dor no pé,
dor de barriga.
E a pior das dores:
dor sem dor.
Dor que não se acaba
com um analgésico.
Dor no dedo,
dedo grande,
fino,
grosso.
Dedos agressivos que tocam piano.
Dedos apertados dentro de sapatos.
Dedos suando dentro de luvas.
Dedo sujo,
unha grande.
Dedos amassados,
machucados.
Cabeça sobrando pelos
Cabelo branco na cabeça vermelha.
Cabeça pensando,
comandando
as mãos e os dedos.
Ouvido
sujo, mas que ouve.
Tudo isso somos nós:
frágeis,
perfeitos,
complexos,
agressivos.
E dando apoio a esses sentidos,
estão as mãos,
que tapam os olhos,
tapam os ouvidos,
tapam a boca,
tapam o nariz.
Mãos omissas.
Nós omissos.
E apesar de tudo isso,
viver é bonito.
A pomba da paz
traz dois ramos de trigo no bico.
O espírito santo
desce em forma de língua de fogo,
não sei se para nos salvar.
A loba alimentou as duas crianças
e David, com aquele corpinho frágil
derrotou o gigante Golias.
Isso exerce grande influência
sobre a humanidade.
Eu não sei em que isto me ajuda
ou qual a influência
que exerce sobre mim,
principalmente depois do quinto conhaque.
São Jorge,
no seu cavalo branco
matou o dragão
e dizem que hoje ele está morando na lua.
Picasso pintou Guernica
e quem contribuiu para isso foi o Hitler.
Guernica existe na tela
e ainda existirá por muito tempo.
Talvez me influencie mais
do que o Espirito Santo, a loba,
David e Golias.
Pelo menos Hitler serviu para alguma coisa.
Viver é bonito.
Um copo de vinho.
Um naco de queijo.
Um par, um carinho.
Se possível um beijo.
Na hora é perfeito,
na hora é divino.
Depois, ninguém sabe,
Depois, só destino.
Viver é bonito,
tem que ser bonito
Se o dia está cinza,
o corpo esse trapo,
você um ranzinza,
você um farrapo,
tem que ser bonito.
Aí você bebe,
aí você fuma.
Aí você deita,
sem pestanejar.
Acorda um zumbi.
Ainda babando,
e olha lá fora.
Sol.
nem lá,
nem si,
nem dó.
É sol mesmo.
Calor.
Um novo dia,
de um novo mundo,
de muitas novidade.
A terra está esquentando...
Não, não, está esfriando...
Está esfriado...
Agora esquentando...
Esfriando...
Quando a brincadeira chegar ao fim,
PLUFT, acabou.
Mas eu não tenho o que reclamar.
Tive nessa minha jornada
uma vida intensa.
Fui filho, fui irmão.
Fui neto, solidão.
Fui amigo,
fui sobrinho,
fui rude, vizinho.
Fui requerente,
fui requerido.
Fui companheiro,
fui querido.
Fui amante, fui cliente,
fui farsante, conveniente.
Fui primo de vários graus.
Fui preposto,
Fui deposto.
Fui amado,
apaixonado,
e tive também
muito desgosto.
Foi um espermatozoide
que gerou tudo isso,
que me deu consciência
e uma percepção abstrata,
que fez de mim
o centro do universo.
Tudo é criado por mim
e qualquer apagão
na minha consciência,
nada acontece com o resto.
O meu universo acaba
e o universo dos outros
continua impondo sua presença.
E por esses maravilhosos
arroubos de criatividade é que
viver é bonito.
Pode não ser para
um homem sem dinheiro,
um carrapato sem vaca,
uma pulga sem cachorro,
um porco sem lama,
um rato sem lixo,
um cadáver sem verme,
uma planta aquática sem água,
uma minhoca sem terra,
uma lesma sem gosma,
uma abelha sem flor,
uma criança sem leite,
Uma baleia sem mar,
uma ninfomaníaca sem sexo,
um corrupto sem propina,
mas tudo isso pode voltar ao normal.
Tenha paciência.
É só esperar.
Aí você verá que
viver é bonito,
difícil,
restrito.
Sempre há um jeito
de escapar da solidão.
A imaginação é livre.
É claro que uma boa companhia
é melhor do que mil ideias.
Na pior das hipóteses
há de se criar companhia
na nossa imaginação.
A imaginação preenche
os espaços vazios.
Polípono,
polónopo,
patílogo
Precípito,
prontísquo,
presépito,
prismálogo,
prontívoro,
pronto!
O diferente.
Tudo o que é diferente
assusta.
Pensar diferente assusta,
agir diferente do assustado
assusta.
Ser de uma cor diferente,
sentir prazer diferente,
optar por crenças diferentes,
falar ou se calar
de uma maneira diferente,
assusta.
Mas diferente de quê?
Diferente de quem está julgando.
Como a grande maioria
está julgando
da mesma maneira,
A manada segue
com seus cabrestos
e balangandãs coloridos,
sempre excluindo
dos seus grupos
os que não usam
os mesmos cabrestos.
Essas pessoas
só não se assustam,
com o fato de serem
completamente diferentes
de todos os outros seres
do universo.
Cada um é único.
Cada um com suas mazelas
e todos se importando
com as mazelas dos outros.
Você passa a vida
como um cachorrinho,
olhando assustado,
pedindo carinho.
Se mostra aos incautos
como um homem forte,
briga, fala alto
sem medo da morte.
Mas não admite,
que esse homem bobo,
com aparência de lobo,
é mesmo um cordeiro
que briga por nada,
só pensa em dinheiro.
Viver é bonito.
Um dia você acorda
E sente aquela emoção.
E quando menos se espera,
eis que aparece outra fera,
fingindo segurança,
trazendo grande vigor,
trazendo grande esperança
daquilo ser o amor.
Então tu ficas contente,
alegre, triste, demente,
sem saber que o amor
que encanta tanta gente,
chega sempre como um raio
que às vezes destrói,
e outras vezes ilumina.
Que às vezes é deslumbrante,
perfeito,
outras vezes, repugnante,
suspeito.
Mas não vamos
nos entristecer.
Viver é bonito,
tem que ser bonito.
Se não fosse tão bonito
eu não teria escrito
tudo isso
para celebrar
a beleza da vida