Encantos
Alguns podem achar que eu sou louco, ou um sonhador. Sonhador eu sei que sou, de devaneios estranhos, portanto acho que a música “Imagine” de John Lennon é um grande exercício para a imaginação, com uma grande força metafísica e cosmológica. Quanto mais pessoas imaginarem um mundo melhor, mais probabilidade haverá de uma grande mudança.
Imagine que não exista paraíso. É fácil se você tentar. Nenhum inferno sobre nós, acima de nós, apenas o céu. Imagine todas as pessoas vivendo o presente. Imagine que não há países. Não é difícil. Nenhum motivo para matar ou morrer e nenhuma religião também. Imagine todas as pessoas vivendo a vida em paz. Você pode dizer que eu sou um sonhador, mas eu não sou o único. Eu espero que algum dia você se junte a nós e o mundo será um só. Imagine que não existam posses. Eu me pergunto se você consegue, sem necessidade de ganância ou fome, uma irmandade dos homens. Imagine todas as pessoas compartilhando o mundo inteiro. Você pode dizer que sou um sonhador, mas eu não sou o único. Eu espero que algum dia você se junte a nós e o mundo viverá como um só.
Belo
Horizonte
Onde
está o belo horizonte, que já encantou a ponto de virar nome de cidade? Onde
está o sol vermelho do poente, que eu procuro da porta do meu prédio, escondido
entre vários outros prédios? Somos brindados com pequenas frestas de horizonte,
que ao final da tarde, na rua Sapucaí, todos contemplam
deslumbrados esse modesto pôr do sol, já acostumados ao pouco que lhes é
oferecido.
Conceito e lama
Atento às insignificâncias, me desprendi do conchavo com as aparências e me joguei, viajando por bilhões de anos luz, sempre observando conceitos espúrios, e quando voltei, enlameado daquilo tudo, consegui entender que, conceito e lama andam de braços dados, e que conchavo e aparência nos transformam naquilo que os outros querem que a gente seja.
Moto-contínuo
Cada macaco no seu galho, cada galho na sua árvore, cada árvore no seu chão, cada chão na sua terra, cada terra no
seu sistema solar, cada sol na
sua galáxia, cada galáxia a sua
Via Láctea, cada Via Láctea na
cabeça de cada um, cada um nas
suas casas, cada casa com seus
carros, cada carro com seu dono,
cada dono com seus problemas, cada problema com seu bobo, cada bobo como um
macaco no seu galho, cada
galho...
Velório II
Morrer como todo mundo
Música antiga
Imaginação
A Grande viagem
Frutos
Dizem
que a verdade produz frutos. Se for assim a mentira também produz. A falsidade,
a inveja, tudo produz frutos. Portanto pode-se considerar que o fruto da mentira
pode ser um jiló disfarçado de maçã. O da falsidade, uma pera palatável por
fora e podre por dentro e o fruto da inveja, uma banana nanica querendo ser
caturra, e o fruto da verdade
pode ser um lindo suco de frutas numa manhã de verão, principalmente se for
hoje, que está quente pra caramba.
O preço da liberdade
A
formiga subia apressada pela porta do teatro. Eu admirava a sua capacidade de
se locomover na vertical. Chegando no teto, ela seguiu para a esquerda. Na
quina da parede, se enroscou numa teia de aranha. A porta do teatro se abriu.
Eu segui a fila e a formiga ficou lá, embaraçada, pagando pelo excesso de
liberdade.
A máquina desarvorou
A palavra se revela
A palavra se revela, eu me arrepio no chão. Pretendo brigar com ela, destravo a foice e o facão. É quando tudo desliza, ideias cortam o clarão: palavra, mente, pesquisa, tudo brotando da mão. A claridade harmoniza, o asco, o isto, a noção, tudo parece que brilha, até concluir, solidão
O Tempo II
Se não existisse a morte
Imagino-me em um filme, eu o ator, o criador, o diretor. Fácil viver lá dentro. Lá eu não tenho medo, eu represento o medo. Eu posso estar andando nos becos mais sórdidos e, de repente, ser hostilizado por um grupo de viciados. Minha reação pode ser infinita: posso me impor, lutar até a morte, posso usar como arma a retórica, depende do texto, posso sair dali sem que ninguém me veja, posso até morrer que nada vai mudar (eu não vou morrer mesmo!) No fim eu troco de roupa e vou-me embora.
Se não existisse a morte nós viveríamos eternamente dentro de um filme, sem medo, sem angústia, mas também, o nosso tédio seria bem maior.
Morrer como todo mundo
Chuvas diferentes
O agora vazio
Mulher
bonita
A mulher bonita é sol, lua, noite
estrelada, solidão.
A mulher bonita ama, se arruma, banha-se
em jasmim, ilusão.
A mulheres bonita são bonitas por
terem nascido assim, quinhão.
Sua beleza silencia, constrange,
imbeciliza, admiração.
E as feias, que se acham bonitas,
conseguem se igualar a elas na imaginação.
0 seu passado condena
Quando você começa a desprezar os jovens, pode saber que toda a juventude que existia aí se esvaiu. Você ficou velho e não se lembra ou não quer se lembrar de todas as inconsequências da sua juventude. É nesse momento que você, um sujeito perfeito, sem mácula na sua honradez, segura esse quinhão, como se os jovens de agora fossem diferentes dos jovens de outrora. O seu passado condena.
A galinha ideal
Olha,
Deus que me perdoe por dizer isso, mas com toda a perfeição da Sua criação, eu
acho que a galinha deveria dar o ovo, a carne e o leite. Seria maravilhoso ir
ao quintal ao amanhecer e ordenhar a galinha para complementar a mesa do café
da manhã. Isso, além de ser muito mais prático, nos livraria da flatulência das
vacas, que causam grandes transtornos, como o efeito estufa e o aquecimento
global.
Palavras
Às vezes algumas palavras que me vêm
à mente, conforme o meu ponto de vista, não estão de acordo com o seu
significado. São palavras, frases, nomes
próprios, que ficam incomodando o inconsciente. Claro que algumas têm o sentido
semelhante, e muitas dela um sentido completamente diferente:
Buraco
sem volta
A tendência é de que a idiotização da humanidade venha a piorar ainda mais, como vem piorando através dos séculos. A tecnologia, os meios de comunicação, usados com sabedoria, são muito eficientes para ajudar o homem na sua jornada, como na medicina, na agricultura, mas a internet, com todo o seu poder de comunicação, veio para normalizar a vulgaridade e a estupidez, e sem sombra de dúvidas está levando a humanidade para um buraco sem volta.
A Lua
A Lua virou cachorra. Já não tem dentes, não enxerga, nem ouve. Quando aponta no corredor, parece um bichinho de corda. Seu contato com o mundo se dá através do tato e do olfato. Ao perceber carinho, abana lentamente o rabo, apoia a cabeça sobre a minha perna, fecha os olhos e volta a encantar o céu.
O
suicida
Se você for se suicidar, escolha um dia nublado, já que exercerás um ato lúgubre. Não escolha um dia de sol, onde os pássaros cantam e as crianças brincam no parquinho. Não incomode os transeuntes, caindo de um prédio como um saco de farinha. Tenha dignidade na hora da morte. Se possível seja reservado: esfaqueie o seu pescoço no banheiro e se esforce para não emitir gemidos.
Os
sapatos
Finalmente ele deitou com os sapatos. Era tão limpo, tão higiênico, nunca imaginou que um dia o colocariam ali deitado, de mãos postas, cheio de flores ao redor, e os sapatos emergindo entre rosas, crisântemos, margaridas e copos-de-leite. Nesse momento ele ainda carregava, na sola dos calçados, as manchas das sujeiras da cidade
O rol
dos que não queriam e não foram