Solidão
fagueira
Estou
deitado na minha cama. Acabo de desligar o aparelho de som. Ouvia a Sonata
448 K de Mozart. Desliguei, mas deixei a luz do rádio acesa, pois ela dá vida
ao quarto, com uma iluminação fraca e suave. Da janela entra uma brisa que vem
da Praia do Arpoador. A noite, para muitos, está apenas começando, e para mim,
que já estou sem paciência para continuar, já não serve mais para nada.
Estou
deitado de barriga para cima. Sobre o meu corpo há um lençol branco com listas
bege, bem clarinhas. Meus braços estão fora do lençol.
Vem
passando sobre o taco do quarto uma aranha caranguejeira. Ela deve medir uns 20
cm. Eu não usei uma régua para medi-la, mas se o meu palmo tem 22 cm, é fácil
concluir que ela mede 20 cm. Ela é marrom escura, muito peluda e bonita.
Agora
ela sobe pelo pé da cama. Vem vagarosamente sobre o lençol. Está subindo pelo
meu braço. Passou pelo ombro, pescoço e se acomodou sobre minha boca. Ela gosta
de passar a noite ali, pouco abaixo do meu nariz. O ar morno que eu exalo, logo
após uma expiração, a conforta durante o seu sono.
Uma
lesma passou pela sala enquanto eu me distraia com a aranha. Eu sei que ela
passou porque a luz do rádio na sua gosma proporciona um espetáculo, como se
estivéssemos olhando para um arco-íris. Ela sobe vagarosamente pelo pé da cama.
Entrou por debaixo do lençol e se dirigiu para a minha barriga. Ela gosta de
passar a noite ali: subindo e descendo no embalo da minha respiração.
Uma
centopeia ocupa seu lugar sobre o lençol. Centopeias são carnívoras e eu não as
deixo se aproximarem. Já está de bom tamanho se aconchegam na minha cama.
Agora
vêm as quatro baratas. Há muito tempo que vêm essas quatro. Depois que todos
estão acomodados elas chegam apressadas e se alojam numa cavidade entre a minha
cabeça e o travesseiro. As quatro se embolam ali. Parece uma suruba, mas eu não
sei se é uma família: pai, filho, filha; então eu não vou nem julgar.
Há algum tempo eu estou aqui quietinho para
não incomodar os meus companheiros. Parece que eles dormiram bem à noite. O dia
está amanhecendo e entra pela janela uma luz cinza amarelada.
A
aranha é sempre a primeira a partir. Quando ela se levanta, suas patas roçam o
meu nariz causando uma insuportável coceira.
A centopeia passa apressada pela sala enquanto a lesma desce
vagarosamente sobre o pé da cama.
As
baratas saíram da caverna. Elas esperam a aranha ir embora. São inimigas
mortais e sempre que se encontram, brigam ferozmente. Apesar de serem em maior
número, as baratas não superam a força da aranha. Elas sabem que eu não gosto
que briguem, portando esperam a aranha partir para poderem ir embora.
Agora
eu ajeitei o lençol, deitei virado para o lado esquerdo e posso relaxar, sem
perigo de causar algum transtorno aos meus amigos. O dia se inicia e com ele,
toda lépida e fagueira, vem também a minha solidão.