sábado, 27 de junho de 2026

 

Quem?

         Sentei para escrever uma peça de teatro. Estava inspirado. A trama estava clara na minha cabeça, mas vieram as dúvidas quanto ao elenco e à produção:
quem participaria,
quem interpretaria,
quem personificaria,
quem acompanharia,
quem difundiria,
quem trataria,
quem tocaria,
quem ousaria,
quem vacilaria,
quem informaria,
quem experimentaria,
quem negligenciaria,
quem fracassaria,
quem honraria,
quem lastimaria,
quem listaria,
quem esconderia,
quem mataria,
quem morderia,
quem foderia,
quem vomitaria,
quem violentaria,
quem dominaria,
quem desinformaria,
quem se viciaria,
quem observaria,
quem responderia,
quem se masturbaria
quem dispersaria,
quem sustentaria,
quem permaneceria,
quem rosnaria,
quem resmungaria,
quem procuraria,
quem ouviria,
quem excederia,
quem exorcizaria,
quem desconsertaria,
quem racionalizaria,
quem solucionaria,
quem zombaria?
         Com tantas dúvidas, saí do computador, liguei a televisão e passei a assistir a um documentário sobre a temporada de furacões nos Estados Unidos.

domingo, 21 de junho de 2026

 

A sina de todos nós

            Um solitário tijolo, abandonado na calçada, me causa comoção. Ele se   perdeu dos seus. Não será prédio, muro, nem piso de banheiro. Não sustentará janelas, nem casinha de criança no sítio do vovô.
            Um solitário tijolo, abandonado na calçada, logo virará pó, como todos nós.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

 

Colunista social

           Hoje já não existe colunista social. Já não há espaço  para um Ibraim Sued ou um Clodovil:
              “Madame fulana, chiquérrima na festa beneficente de Lulu Monteiro”
                Se as festas beneficentes continuam até hoje eu não sei, mas se existisse a coluna social as notícias seriam mais ou menos dessa maneira:
             “Fulaninha da alta está com tornozeleira eletrônica e passará um bom tempo enclausurada na casa de praia em Búzios”
            “O Senador D , em entrevista a nossa coluna disse estar indignado com as calúnias que vociferam contra ele. Para amainar a situação, resolveu dar uma grande festa para a nata da alta sociedade. Além de dizer que é calúnia o que dizem dele, disse que talvez essa seja a última festa ante de passar uma boa temporada no Presídio da Papuda”
            Pelo menos, em certas coisas estamos evoluindo. O Dom Ruan já não existe. O que existe é o tarado mesmo. O crime passional, muito citado nas colunas de antigamente, agora virou crime de ódio.
            As coisas estão evoluindo. Talvez daqui a alguns milênios a gente consiga viver em paz.

sexta-feira, 12 de junho de 2026

 

                                         Antes que o mundo acabe


            Antes que o mundo acabe, mergulho dentro de mim e te abraço pela última vez. Beijo todo o seu corpo com pressa, volúpia, prazer, tudo isso, antes que o mundo acabe.
            Não preciso de mais nada, só preciso de você aqui dentro, dando-me segurança e uma grande alegria, antes que o mundo acabe.

 


sábado, 6 de junho de 2026

Quero ficar quieto

            No saguão do Hotel eu sentei-me em uma poltrona de couro e fui me afundando, afundando... Aquilo parecia não parar nunca. Quando finalmente eu estava lá embaixo, um hóspede, sentado ao meu lado, puxou assunto. Ele queria saber se eu estava a negócio ou a passeio. Disse-lhe que estava a passeio. Teria vindo para matar a minha companheira, o que acabara fazer.
            Ele me olhava assustado e eu continuei dizendo que, como estava mal-intencionado, tomei toda as providências para que aquilo fosse interpretado como suicídio. Disse também que não demorava muito para eu voltar ao quarto e sair apavorado, aos berros, dizendo que a minha companheira acabara de se suicidar. As pessoas tinham que me ver ali enquanto ela se suicidava.
            O homem ficou desconcertado e logo saiu. Pouco depois o vi confidenciando algo ao atendente. Mal sabe ele que eu não tenho companheira e que estou desesperado à procura de uma.

 

quinta-feira, 4 de junho de 2026

        👹     Eu acho um absurdo ateu participar de feriado religioso!

terça-feira, 2 de junho de 2026

 

O script


        Vivemos em uma literatura ou em uma peça de teatro. Uns vivem em uma peça mambembe, outros numa subliteratura. Claro que isso não é o nosso caso. Nossos medos, nossos conflitos, nossas alegrias e satisfações são elaboradas na nossa mente, antes de serem representadas, ou publicadas. Às vezes falhamos, entramos em situações difíceis de serem solucionadas, mas continuamos a elaborar o script, até sairmos dessa enrascada      
        Como diz um grande escritor brasileiro: “Essa vida é muito difícil”