quarta-feira, 30 de setembro de 2026

 

O conspícuo

            Vou contar uma história. Primeiro eu vou arrumar um personagem. Pode ser um inseto, ave, felino ou primata. Pode ser também um animal racional.
            É isso! Um animal racional: o homem. O nosso personagem nasceu... Não, assim, não. Eu tenho que achar um lugar bem bonito e prepara-lo para receber o nosso conspícuo.
            Então vamos lá: pode seu um parque, um prado gramado, florido, encantado. Pode ser um jardim cheio de rosas vermelhas, um descampado verde, um chão florido, amarelo, como se tudo fosse uma só flor.
            Era tudo muito lindo, tudo muito bem cuidado pela natureza. Borboletas coloridas brincavam entre as flores, pássaros voavam cantando alegremente. O barulho da cachoeira, o zunir das abelhas, as águas claras, o peixe nadando, a sombra das árvores, a paz.
            À noite, as estrelas, a lua e os vagalumes clareando a mata. Este é o lugar para se colocar o nosso personagem.
            Ele chega observando, curioso. Empurra para o lado as folhas que atrapalham os seus cabelos. Cabelos lisos, partidos ao meio. Cabelos empastados, bigode fino, olhar de pantera, observando as oportunidades.
            Sem demora ele arranca agressivamente as folhas das árvores, pisa nas flores, come os peixes e ascende fogo à noite impedindo-o de enxergar as estrelas. Depois constrói um grande empreendimento sobre as flores e o riacho, tudo com a intenção de acumular o máximo nessa vida como se depois da morte fosse ainda usufruir de tudo.
            Este é só um dos personagens. Existem outros fazendo igual ou pior. Isso já vem de longa data, mas felizmente estão chegando ao fim, juntamente com as paisagens bucólicas e toda a terra.

sábado, 26 de setembro de 2026

 

Cupido

            Ando sempre peladinho, com o meu arco e a flecha à mão, despertando o amor, despertando a paixão.
            Eu, como o deus do desejo, da atração e do afeto, faço a minha parte, e cabe ao casal estipular o tempo que ficarão juntos.
            Mas, na verdade, eu estou aqui, não para falar das flechadas que proporciono aos casais apaixonados, e sim para falar de mim.
            Eu, que já estou pelado, fofinho, cheio de vontade, fico aqui ajudando os outros a encontrar a verdadeira felicidade, no entanto me pergunto: e eu? Será que existe um Cupido do Cupido?
            Irmão, se você existe, dê-me uma flechada, pelo amor de Deus. Não aguento mais proporcionar felicidade. Eu quero é ser feliz.

terça-feira, 22 de setembro de 2026

 

O tempo estancou

O meio-fio, um menino, um graveto, a estrada entre as pedras do calçamento indicam que o tempo estancou.

domingo, 20 de setembro de 2026

 

O graveto

            A borboleta despencou da árvore. Não era somente uma (depois eu vi), eram duas. Elas se amavam. Ninguém jamais poderia interferir naquilo. Eu peguei um graveto, ia interferir quando uma delas moveu uma das asas bem devagar para um lado e para o outro. Eu fiquei com o graveto na mão esperando a completude.
            Depois elas se recompuseram e se foram. Eu fiquei com o graveto na mão.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

 

Afogado submerso

         Converto-me em desmedidas. Só considero necessidades perenes. Somo-me às coisas que me foram dadas. Suporto a escuridão na claridade. Estou sozinho nesse universo. Sinto-me como eu queria: afogado submerso.

sábado, 5 de setembro de 2026

 

Tonel de iguarias

         Quantas vidas havia num tonel de iguarias? O mau imperou
entre as hienas. As vidas do tonel pagaram pelo apurado paladar
das hienas das classes dominantes. Isso nas grandes cidades dos países “civilizados”, é claro.
         Hoje as iguarias não são comestíveis, são as commodities. Levam os dedos e os anéis.

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

 

Empreendedores do ar

            O ar que respiramos ainda não tem dono, ainda não foi taxado. Hoje em dia o que rege o mundo é o dinheiro, e com muita ganância, essa cilada pode ser armada para todos nós.
            Para as pessoas que praticam a meditação seria bem mais dispendioso. A meditação é constituída de respirações suaves e cadenciadas.
            Um atleta, além de pagar a academia, teria que pagar também uma taxa de respiração, que o deixaria muito apreensivo com relação às suas finanças. Até um cisco no olho seria bem-vindo para os empreendedores do ar.
            Não sei onde vamos parar com tudo isso, mas quando chegar a taxa do céu, ou você vai gastar muito dinheiro para olhar para cima, ou parar de olhar para a lua, pássaros voando, arco íris, nuvens de carneirinhos.