sábado, 29 de agosto de 2026

 

                                                     Pensando na cozinha


            Os brócolis, coitados, vivem espremidos dentro daqueles plásticos, sem contar com as alfaces americanas que ficam tanto tempo plastificadas que até pegam a forma da embalagem.
            As cenouras vivem soltas, as beterrabas e os rabanetes também. No mundo das verduras e legumes existem as encarceradas e as libertadas.
            O que será que os brócolis, as alfaces americanas, os legumes picados fizeram para viver assim, encarcerados dessa maneira? Eles duram mais tempo na geladeira, mas pagam um preço muito alto por isso.

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

 

Orvalho afagou encantos

            Vírgula desnecessária desencanta o texto. Texto desnecessário encanta a poesia. Quem vai me dizer que “Orvalho afagou encantos” é uma frase necessária? É desnecessária, no entanto, “Afagou encantos”

sábado, 22 de agosto de 2026

 

Fatalmente

            As crianças, em grande parte do mundo de hoje, já não brincam. Elas estão sempre fugindo de bombardeios, procurando algo que alimente a sua família, fazendo papel de pai, ou mãe, para o seu irmãozinho menor.
            Os adultos que proporcionam essas aberrações, fatalmente tiveram uma infância maravilhosa. Brincaram, nadaram, alimentaram-se do bom e do melhor, e usaram de todo o conforto que seus pais lhes proporcionaram para acabarem assim: perdendo as crianças que existiam neles.

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

 

A finalidade do revolver

            A única finalidade do revolver é a de fazer buracos no ser humano. Existe uma cultura recente no nosso país incentivando essa barbárie. A intenção dessa nova cultura é a de fazer buracos nas pessoas que leem, que pensam, que estudaram história, e deixar os que não fizeram nada disso babando quietinhos nos seus cantos, contanto que não incomodem os incentivadores da barbárie.

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

 

                Eu estava descendo uma ladeira escura. Não se ouvia nada além do tilintar de uma proteção da lâmpada da rua desativada. Eu andava tranquilo quando ouvi uma respiração arfante num beco à esquerda. Num ímpeto de curiosidade, fui até lá. A mulher estava babando uma gosma branca, e quando eu cheguei, me olhou aliviada e disse: “finalmente!”
             Logo ela pendeu a cabeça para o lado e morreu. Eu fiquei sem ação por alguns segundos e passei a procurar, na sua bolsa, algo que a identificasse. Não encontrei nada, além de uma carta lacrada. Abri a carta com muito cuidado para não danificar a leitura e me deparei com uma mecha de cabelos brancos.
            Grande merda!

sábado, 8 de agosto de 2026

 

Pinguim de geladeira

            Já não existem pinguim nas geladeiras como antigamente. Hoje existe pinguins em casas de pobres. Quando eles começaram a usar, os ricos pararam. O pinguim virou kitsch, cafona, objetos de pobres. Então o rico parou de usar para não se comparar à uma casta inferior.
            O telefone celular começou assim: só os ricos compravam porque só eles podiam adquirir um. Era muito caro. Depois o custo abaixou e os pobres começaram a usar. O vendedor, o ambulante, a doméstica, o morador de rua, todos têm. O telefone é necessário, não é um adereço, então o rico, apesar de não gostar que os pobres usem o que lhes é de direito, aceitam isso sem comentar, mas não aceitam que eles viagem de avião.




quinta-feira, 6 de agosto de 2026

 

O impostor

            Eu gosto de escreve, principalmente quando tem um pernilongo me rodeando e pedindo para entrar na história. Ele veio, me olhou, sumiu. Voltou a aparecer e virou o protagonista da história, até quando eu dei um tapa na outra mão, tentando mata-lo, mas foi em vão. A mão estava sem sangue e eu imaginei o pernilongo pousado no porta retrato da escrivaninha, me olhando e esfregando as perninhas, me olhando e esfregando as perninhas.
            Mas, convenhamos: pelo menos ele teve um grande valor literário.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

 

Amor

            Não pense que criar um cachorrinho é igual criar um filho. O amor do cachorrinho é incondicional.