quarta-feira, 31 de julho de 2024

 

Sono

            Estou escrevendo, há várias horas, na lanchonete do Palácio das Artes. Estou cansado e com muito sono, mas vou continuar:

            “Um dia incontido, contanto que se conte o conto. Isso não conta neste cubículo calculado pelo pelo do paletó de pelúcia que pegou um pé de poeira e poluiu piolhos.”

            O olho fecha, a voz retumba na cabeça e o couro cabeludo continua intacto. Vou abaixar a cabeça em cima de uma folha e dormir, até que a dormência do braço me acorde para mandar-me para casa, onde dormirei na minha cama, lençóis cheirando à lavanderia, assoalhos brilhantes, reluzente, cortinas fechadas, abajur à meia luz, e nem um pernilongo para atrapalhar a paz. Obrigado!!!

sábado, 27 de julho de 2024

 

O belo no ar

            Eu procuro ouro no lixo, procuro pássaros a cantar. Procuro peixes no esgoto, procuro doce no mar. Eu não estou aceitando que tudo está a desmoronar. Eu procuro o belo no ar

quarta-feira, 24 de julho de 2024

 

Eu passo

            O tempo apressa o passo. Quanto mais apressa, mais eu passo.

sábado, 20 de julho de 2024

 

O desespero dos gansos

Estou sentado no parque. Chove. As árvores choram a falta do sol. Os gansos saíram do lago. Estão perfilados no gramado do teatro. Uma criança passa com a mãe. Cada um carrega um guarda-chuva. A criança parou para ver os gansos, que também choram a presença daquela criança estúpida, que logo os espantarão dali, entre gritos e pontapés.

quarta-feira, 17 de julho de 2024

 

Palavras e significados

Caneta preta, caneta grossa, caneta azul, caneta fina. Lapiseira de ponta fina, lapiseira de ponta grossa, teclado, tudo serve, contanto que as ideias cheguem. Palavras, prismas, produtos, prosperidade, prospectos, prazer. Cada palavra com o seu sentido. Cada palavra com seu significado:

INSÍGNIA: Condecoração que se dá a mortos-vivos.

ESTABILIDADE: posição alcançada quando você já perdeu o entusiasmo para viver.

JUÍZO: Uma conquista pós-adolescência que o torna um chato.

JULGAR: Deliberar, na condição de juiz, coisas ou pessoas como se estivéssemos                                 sentenciando, na condição de juiz, a nós mesmos.

REORGANIZAR: Bagunçar tudo de novo.

           INSINUAR: Fingir que você não disse alguma coisa, quando realmente você não disse.

sábado, 13 de julho de 2024

 

Viver é bonito

Viver é bonito.
Um copo de vinho,
um naco de queijo,
um par, um carinho,
se possível um beijo.
Na hora é perfeito,
na hora é divino,
depois, ninguém sabe,
depois, só destino.
Viver é bonito.

quarta-feira, 10 de julho de 2024

 

Vento e solidão

            Uma mosca sobrevoou o meu copo. Eu soprei. Ela voou sem rumo. O vento que eu utilizei não era meu. Eu apenas emprestei o meu corpo para a execução. O vento entrou, eu forcei os meus músculos para expulsá-lo e a mosca se foi. Isso há muito tempo, e agora, nem a mosca eu tenho para amainar a minha solidão.

sábado, 6 de julho de 2024

 

Alívio

                Quando ela se foi eu me senti como se me livrando de um sapato apertado. Foi um alívio e eu passei a caminhar descalço, à procura de um novo sapato que me fosse mais confortável.


domingo, 30 de junho de 2024

 

A dançarina do arame

            A dançarina do arame se contorce toda para manter-se de pé. Sua elegância é transmitida pelo guarda chuva que lhe dá suporte. Ali ela reina absoluta. Chega o momento em que a dançarina vira arame e nem o desconforto da música desafinada a faz desprender-se de lá.

quarta-feira, 26 de junho de 2024

 

Virando na cama

            Acordo e vou correndo mato adentro de mim mora um anjo feito a cara escarrada do pai nosso que vai dar no fim da linha do trem bom de cama, bom de briga, bom de papo furado feitos um para o outro lado da cara de pau duro de roer a corda bamba que dorme novamente.

sábado, 22 de junho de 2024

 

Outras paisagens

            Quinta feira. Eu sentado sozinho à uma mesa. Bar cheio, quase todos acompanhados. À minha frente, em uma mesa com umas 15 pessoas, uma linda loura, parecida, mas muito mais bonita do que uma linda loura que eu conheço. Eu não tinha para onde olhar e acabava sempre olhando para ela. Ela conversava de uma maneira muito agressiva, e por não ter para onde olhar, acabava olhando para mim. Nós dois nos olhávamos apenas por estarmos de frente um para o outro. A sua agressividade tirava todo o seu encanto. Então eu continuei no bar, mas sentei na cadeira ao lado para apreciar outras paisagens.

quinta-feira, 20 de junho de 2024

 

Flagelo

O sol pressentiu o caos e, covardemente, escondeu-se atrás das nuvens. Elas, agitadas, despejaram suas fúrias em restos de casas, móveis enlameados e no choro desesperado dos desabrigados.

sexta-feira, 14 de junho de 2024

 

Irmãos

                São Francisco de Assis dizia que nós e os animais somos todos irmãos. O irmão Leão, a irmã Girafa, o irmão Tigre, o irmão Urso, as irmãs corujas, todos irmãos.

                Até aí aceita-se esses animais vigorosos sem preconceito, mas na lógica preconceituosa do ser humano, logo a coisa muda. Então vêm os irmãos de uma casta mais baixa. São os agregados, os irmãos de criação, como o macaco, a hiena, o bicho preguiça, o porco.

                Mas existem outros irmãos que sofrem de preconceito como os judeus sofreram na segunda guerra, os palestinos sofrem isolados no seu canto e os negros sofreram e sofrem até hoje. São as irmãs baratas, os irmãos morcegos, os irmãos gambás e os irmão germes, estes últimos, que apesar de limparem a terra dos nossos restos, são também vitimas dos preconceitos mais crueis.

quarta-feira, 12 de junho de 2024

 

Anjo e banjo

            Todo anjo é bom. Pelo menos convencionou-se que é assim. Todo banjo tem som. Isto se ele não estiver estragado. Um anjo tocando banjo é uma convenção sem defeito.

sábado, 8 de junho de 2024

 

O chato

            Há dias em que você não quer ver ninguém, e justamente nesses dias os chatos resolvem telefonar ou aparecer. Você vai, pé-ante-pé, e constata, através do olho mágico, que é o chato! Enquanto você está pensando se vai ou não abrir a porta, o telefone toca. O telefone tem que ser atendido, pois pode ser alguma coisa grave. Você fica sem saber se continua a observar no olho mágico ou se vai atender, e meio desesperado, diz em voz alta: “espera ai um momentinho”. Corre para o telefone e diz: “espera ai um momentinho”. Volta correndo, abre a porta e antes mesmo de dizer que vai atender o telefone, o chato te abraça e te cospe todo, dizendo que você está ótimo. Quando você finalmente tenta dizer que vai atender o telefone ele diz que acabou de vir do cinema, e, pegando no seu braço, começa a contar o filme aos berros, acordando a sua filhinha recém-nascida.  A filha chora e o chato continua contando o filme até você se lembrar de que o telefone está para ser atendido, e quando corre para atendê-lo, se depara com um outro chato que, quando para de falar, o chato cinematográfico, desistindo de esperar, já partira sem se despedir.

            Aí você vai para o quarto, tentar ajudar a sua mulher a cuidar da filhinha chorona.

quarta-feira, 5 de junho de 2024

 

Bola de sabão

            No emaranhado de imagens maquio a minha solidão. Às vezes o esforço para criar a imagem perfeita é desgastante, e quando ela aparece, em sua plenitude, tudo se transforma em realidade, e a solidão, mesmo sabendo que está sendo enganada, retira-se por alguns instantes, até que a imagem estoure, desaparecendo como uma bola de sabão.

domingo, 2 de junho de 2024

 



A cega

            A sua cegueira está focada em num homem só. Você só enxerga a cegueira em mim. Eu sou a sua escuridão, embora a sua luz me mantenha aceso. Você me ilumina, e apesar de toda a luz de que me alimento, não consigo livrar-te da sua escuridão.

quarta-feira, 29 de maio de 2024

 

Escrever

            Eu gostaria de ficar escrevendo o tempo todo. Eu gosto de escrever e não gosto de falar. Eu não consigo falar, principalmente se todos quiserem me ouvir. Escrevendo, eu consigo me comunicar com várias pessoas ao mesmo tempo, e apesar de elas não estarem lendo os meus textos no momento em que escrevo, existe uma possibilidade de que um dia todos leiam, e dessa forma eu me sinta bem. Esse é o desejo de todo escritor.

             Escrever é bom, é particular, é criativo, é sensacional, e você que escreve pode ser um chorão, reclamar da vida, pode ser verdadeiro, mentiroso, poético ou escandaloso. E o principal: você pode ser você mesmo.

            Escrever é uma aventura.

sábado, 25 de maio de 2024

 

“PLOC”

                Um homem, ao sair do quarto escuro, pegou o chapéu e correu até a porta. Desesperado, tentava falar, sem conseguir. Sentia, há tempos, que começara a ficar mudo. Queria se libertar da vida que levava, e já na rua, abraçou o primeiro transeunte que encontrou. Por coincidência esse transeunte era eu, que nesse instante quase chorei de emoção diante daquele gesto nobre. Apertei-o contra o peito e ele ainda brincou, segurando o meu nariz entre os dedos. Eu espirrei três vezes e comecei a me coçar. Foi tudo muito rápido: cocei, cocei, e, de repente, a pele começou a se desfazer nas minhas mão, e logo em seguida a carne também. Eu tocava, aflito, os meus próprios ossos, e o couro cabeludo se desfez entre horror e lágrimas. Um dos meus globos oculares caiu como uma bola de gude e eu, olhando aquele olho no chão, com o olho que me restara, tive vontade de pisar para ouvir fazer “PLOC”.

quarta-feira, 22 de maio de 2024

 

A memória de um morto

            O meu computador morreu. Eu o velo na mesa de vidro jateado. Levou consigo tudo o que eu não guardei na memória. As migalhas estão nas nuvens. Meu passado, meus sonhos, meus desejos, tudo isso confiei na memória de um morto.