domingo, 2 de junho de 2024

 



A cega

            A sua cegueira está focada em num homem só. Você só enxerga a cegueira em mim. Eu sou a sua escuridão, embora a sua luz me mantenha aceso. Você me ilumina, e apesar de toda a luz de que me alimento, não consigo livrar-te da sua escuridão.

quarta-feira, 29 de maio de 2024

 

Escrever

            Eu gostaria de ficar escrevendo o tempo todo. Eu gosto de escrever e não gosto de falar. Eu não consigo falar, principalmente se todos quiserem me ouvir. Escrevendo, eu consigo me comunicar com várias pessoas ao mesmo tempo, e apesar de elas não estarem lendo os meus textos no momento em que escrevo, existe uma possibilidade de que um dia todos leiam, e dessa forma eu me sinta bem. Esse é o desejo de todo escritor.

             Escrever é bom, é particular, é criativo, é sensacional, e você que escreve pode ser um chorão, reclamar da vida, pode ser verdadeiro, mentiroso, poético ou escandaloso. E o principal: você pode ser você mesmo.

            Escrever é uma aventura.

sábado, 25 de maio de 2024

 

“PLOC”

                Um homem, ao sair do quarto escuro, pegou o chapéu e correu até a porta. Desesperado, tentava falar, sem conseguir. Sentia, há tempos, que começara a ficar mudo. Queria se libertar da vida que levava, e já na rua, abraçou o primeiro transeunte que encontrou. Por coincidência esse transeunte era eu, que nesse instante quase chorei de emoção diante daquele gesto nobre. Apertei-o contra o peito e ele ainda brincou, segurando o meu nariz entre os dedos. Eu espirrei três vezes e comecei a me coçar. Foi tudo muito rápido: cocei, cocei, e, de repente, a pele começou a se desfazer nas minhas mão, e logo em seguida a carne também. Eu tocava, aflito, os meus próprios ossos, e o couro cabeludo se desfez entre horror e lágrimas. Um dos meus globos oculares caiu como uma bola de gude e eu, olhando aquele olho no chão, com o olho que me restara, tive vontade de pisar para ouvir fazer “PLOC”.

quarta-feira, 22 de maio de 2024

 

A memória de um morto

            O meu computador morreu. Eu o velo na mesa de vidro jateado. Levou consigo tudo o que eu não guardei na memória. As migalhas estão nas nuvens. Meu passado, meus sonhos, meus desejos, tudo isso confiei na memória de um morto.

sábado, 18 de maio de 2024

 

A sua cabeça

            A sua cabeça é imprevisível. Eu gasto muito tempo tentando decifrá-la. Sempre me iludo achando que sei o que acontece lá dentro. Ela, com razão, diz que eu não sei, mas na verdade, o que me interessa lá dentro é aquela confusão cativante.

quarta-feira, 15 de maio de 2024

 

Objetos

            Lá vem o dia cheirando a carros. Poderia exalar o cheirar de uma rosa ou o da brisa do mar, e não o do azul do carro. Poderia brilhar o dia, não o brilho de faroletes, e sim, o brilho exuberante de uma belo manhã de sol. A fumaça nos impede disso. Lá vem o dia esbanjando objetos.

sábado, 11 de maio de 2024

 

Só ando com o necessário

            Eu não tenho nada. Não acumulei nada. Só ando com o necessário. Em vez de ter várias casas, contento-me com asas. Não quero ser grande, andar como se de salto-alto. Eu não acumulei riqueza. Sou rico de companhia. Não morro de amor por carros. Gosto de observar o caminho. Não quero poder. Quero poder ser.

            Mas eu tenho um cachorro.

quarta-feira, 8 de maio de 2024

 

A roseira

            A roseira cobre-se sob um corpo de espinhos. Inventou este artifício para se proteger de herbívoros. O homem, carnívoro, deveria deixa-la em paz, mas inventou a tesoura para roubar-lhes as rosas e enfeitar as suas casas, usando algumas pétalas como marcadores de livros.

sábado, 4 de maio de 2024

 

O grande orgasmo

             Na verdade a vida aqui na terra deveria ter um final diferente do que acontece na maioria das vezes.  É sempre triste uma pessoa entubada esperando a morte num leito de hospital.

            Ao contrário do usual, nós deveríamos nascer e ter uma relação íntima conosco. Uma relação sexual. 

            Começaríamos nos descobrindo e usando de todas as possibilidades que a vida nos oferecesse para sentir prazer, e no fim, depois de muitos anos, já velhinhos, atingirmos o clímax, o ponto mais alto da nossa relação conosco: o grande orgasmo.

            E fim.

terça-feira, 30 de abril de 2024

 

Perdas e ganhos

A vida tem ido bem, apesar dos atropelos. Ontem eu fui atropelado por uma jamanta. Não foi nada grave. Fiquei sem três dedos do pé esquerdo, sem o pé direito (para ser mais preciso, da canela para baixo), sem o rim direito, perfurado pelo para-choque da jamanta e uma parte da orelha, também direita.

Como no atropelamento de anteontem eu já havia perdido a orelha esquerda, não liguei muito porque deu um certo equilíbrio no meu rosto sem nariz.

Parece mentira, mas a sorte, apesar de tudo, tem sorrido para mim. Outro dia eu estava andando na rua e olhei, sem querer, para a janela de um prédio, e lá estava ela, sorrindo, sorrindo. Ria que se mijava toda, e eu, meio encabulado, comecei a rir também: há, há, há, há...Há, há ,há, há ,há, há, há, há...Quááá quááá, quááá, há, há, há, há, há ,há.
            Fiquei lá, parado, rindo, e quando percebi que ela não estava rindo para mim, e sim rindo de mim, veio uma Kombi e PUFT! Fiquei sem quatro dentes da arcada superior direita e um bago; o esquerdo.

O chato é que quando eu me acostumo a andar mancando, nasce novamente o pé. Quando eu me sinto feliz por não ter mais que cheirar a podridão espalhada pela cidade, nasce novamente o nariz.

A vida é cheia de perdas e ganhos.

sábado, 27 de abril de 2024

 

Suçuaranas

            Estou sentado em um banco dos jardins do Palácio das Artes, onde na semana passada um homem me disse para sair porque as folhas da árvore que sobe atrás do banco estavam infestadas de suçuaranas. As folhas realmente estão comidas, porém, daqui não se vê suçuaranas, e sim, um lindo céu azul sem nuvens. As suçuaranas abriram o espaço para que eu possa observar o céu, e eu resolvi arriscar e me sentar debaixo das folhas comidas.

            Talvez eu esteja tentando me auto destruir, deixando que uma enorme suçuarana caia sobre mim e me devore em poucos minutos, e após ruminar na presença de curiosos assustados, cuspa, entre babas e gosmas, a minha roupa ensopada. Isso seria um grande acontecimento para um sábado que não promete nada.

quarta-feira, 24 de abril de 2024

 

Eu

                Quantos sou? Agora sou eu. Sou também o eu que já fui, e o que serei. Tudo isso num eu só. Sou sempre vários eus agora.

sábado, 20 de abril de 2024

 


Diferenças

        Tudo o que é diferente assusta. Pensar diferente assusta. Agir diferente do assustado assusta. Ser de uma cor diferente, sentir prazer diferente, optar por crenças diferentes, falar ou se calar de maneira diferente também assusta.

        Mas diferente de quê? Diferente de quem está julgando. Como a grande maioria está sempre julgando da mesma maneira, a manada segue com seus cabrestos e balangandãs coloridos, excluindo dos seus grupos os que não usam os mesmos cabrestos. As pessoas só não se assustam com o fato de serem completamente diferentes de todos os outros seres humanos e de todos os outros seres do planeta e do universo.

quinta-feira, 18 de abril de 2024

 



Memória inconsequente

Apalpei a memória receoso das lembranças que poderiam vir. Só queria aquele rosto que eu tanto amei, e a memória, inconsequente, despejou sobre mim a minha derrota. Aquele rosto que eu tanto amei realmente apareceu, sorrindo feliz, ao lado da sua nova conquista.

sábado, 13 de abril de 2024

 

As ferrugens das coisas

            Acordei inseto de aranha. Tentei me desvencilhar e quanto mais dava braçadas, mais me afundava em teias. O ar escasso me sufocava e o medo do isolamento me transformou em cuspe de sapo. Quando dei por mim, já estava a caminhar numa avenida, e como num sonho, tentava, inutilmente, evitar o olhar de transeuntes assustados e curiosos, como se dissecando as carnes e pelos do meu corpo nu. Nesse momento eu me entreguei às ferrugens das coisas.

quarta-feira, 10 de abril de 2024

 

Conversa Com Fantasmas 

            Hilário caminhava gesticulando, conversando com fantasmas, e ao perceber a comicidade de seu comportamento, ao falar alto e dar braçadas, como se conversando com alguma matéria sólida ao seu lado, imediatamente passou a batucar na perna, fingindo acompanhar a música que passara a cantar baixinho, porém, logo voltou a conversar, e os fantasmas, não aguentando aquela atitude insólita, se debandaram, deixando-o apavorado no meio da avenida diante de um enorme caminhão que se aproximava em alta velocidade.

domingo, 7 de abril de 2024

 

    Infelizmente o Ziraldo se foi. Que descanse em paz. 

    Coloco aqui um texto que o Ziraldo escreveu sobre a minha arte, que me deixou muito honrado:

    Sou um velho admirador do Nerino, do seu talento, da sua inventiva, da originalidade do seu trabalho. O Nerino é muito, muito criativo. A primeira vez que entrei em contato com ele foi na época do “Palavras”, a revista que Minas fez para o mundo mas desistiu no caminho. Minas não está interessado em conquistar o mundo. Mas o Nerino está. E aí, fizemos na revista, quatro páginas sobre seus desenhos de humor e suas frases de grande efeito. Agora, descubro que o Nerino pinta e sua pintura é absolutamente pessoal, só parecida com ele mesmo, com seus textos  que, vocês precisam ler, são de maior qualidade. Acredito que há uma forte dose surreal – no sentido original, franco-espanhol do termo -  no seu trabalho, mas não o coloquemos sob rótulos.

    A pintura – ou o trabalho todo – do Nerino é desconcertante, impactante, original, diferente entre nós, no nosso tempo. Deixa o Nerino criar. A arte que se faz em Minas vai ganhar com isso.  A arte vai ganhar com isso.



sábado, 6 de abril de 2024

 

Tudo se resolverá da pior forma

Pássaros despencam sobre o asfalto caudaloso.

Crianças brincam com vísceras de animais de estimação.

Beatas queimam crucifixos para aquecer a sopa.

Políticos, desesperados, se penitenciam com correntes de ferros enferrujados.

Cão feroz se rende ao carinho de um gato.

Crianças se surpreendem diante de suas súbitas bondades.

Ninfetas, insatisfeitas, se organizam para lutar contra a apatia dos idosos babões. Bebezinhos chorões calam-se, causando insegurança a mães aflitas.

Gemidos angustiantes determinam que, apesar de as coisas não estarem funcionando de acordo com os padrões normais de funcionamento, tudo se resolverá da pior forma.

quarta-feira, 3 de abril de 2024

 

O voo solitário

            O passarinho, acima do final da árvore, voa solitário. Talvez lá em cima ele cante, mas o seu canto desapareça para nós. Deixa o canto desaparecer, contanto que ele permaneça a voar para que a gente voe com ele. Ao entardecer, depois de encantar o céu, ele sempre volta a encantar a árvore.

domingo, 31 de março de 2024

 



Mulher do padre

        - Quem chegar por último é mulher do padre!
        Todos correram e o povo, lerdo como sempre, chegou por último.
        Quando o povo chegou, já não havia mais lugar para ele.
        Isto aconteceu há milhões de anos e o povo, manso como é, continua brincando de mulher do padre até hoje.

sexta-feira, 29 de março de 2024

 

Mescalique

Contanto que você não se incaprisque, não tente inutilmente se conquispurgar. A vida não permite mescalique e você não suportaria conclesterar.

domingo, 24 de março de 2024

 

Tim, tim

             Eu quero um copo de paz. Pode ser Cabernet ou Merlot, tanto faz. Eu quero um copo de amor. Este tem que ser espumante. Eu quero saúde da roça, só com limão. A felicidade sem colarinho e bem gelada. Quero a amizade onthe rocks, e um  cooktal de sorte.

quinta-feira, 21 de março de 2024


 

    Estava brotando uma poesia a minha cabeça. Eu não sabia do que se tratava, mas sabia que era um surto. Então  comecei a escrever o que estava lá dentro para realmente escrever o poema

 Começou assim:



surtei!
assim
que sá
de fé
surtei
pra quem
disser
que é
não sei
Sem te falar
só que
surtei
eu sei
brinquei
cantei
falei
pensei
gostei
eu sei
suei
surtei
tentei
falei
só que
surtei
surtei!
assim
que vi
consenso
eu sei
não vou
sentir
e não
gostei
a denegrir
pavor
surtei
com fé
sofisticado
hei
de não
pensar
amor
surtei
pra redigir
fantasmas
sei
e violar
cabeças
hei
eu sei
surtei
tentei
fugir de mim (sair de mim)
eu sei



Ficou assim:


Surtei.
Assim que percebi,
Gostei.

Tentei
sair de mim,
fiquei.

Perdi
todo o pudor,
surtei.

Não sei se
demorou,
cansei

Quando
volteia mim,
amei

Amei meu
corpo nu,
voltei.

sábado, 16 de março de 2024

 

As asas da imaginação

            O ovo é a primeira casa da ave. Nós não damos importância para o que está dentro desse envoltório protetor. Ali há uma vida, e nós, displicentemente, a abortamos, jogando-a na frigideira.

            Eu, como os pássaros, já estive dentro de uma espécie de ovo. Esse ovo foi o útero da minha mãe. O ovo é um útero com vida própria. Um útero afastado da mãe. O meu ovo era aconchegante, andava pela casa comigo, tinha sentimentos, passou tudo isso para mim. O ovo do pássaro é aquecido pela mãe, e depois de algumas semanas, o pássaro, que está sendo gerado ali, sente uma necessidade incontrolável de se libertar, dando bicadas para todo lado. Sai de lá cego, e depois de um certo tempo, se joga, sem noção do que virá, e voa. Eu também costumo me jogar, voando com as asas da minha imaginação.

sábado, 9 de março de 2024

 

Pernas de formiga

            A formiga mexia as pernas. Mexia todas elas. São três de cada lado, eu contei. Ela estava parada, só mexendo. Num determinado momento, sentou-se e esticou as dianteiras, como se fosse alcançar alguma coisa. Ela ficou um longo tempo como se numa academia, fazendo ginástica. Depois saiu apressada, deixando-me lá, com dor nas pernas por ter ficado tanto tempo ajoelhado para observá-la


domingo, 3 de março de 2024

            Dizem que a morte é um sono eterno sem sonhos. Muita gente não merece esse sono. Vêm, aprontam, matam, roubam, mentem, e depois querem o sono eterno. A esses eu proponho uma insônia eterna. Uma insônia eterna com um desesperado desejo de dormir.

 

quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

 

De volta ao útero

            Fui ao otorrino. Estava com dor de ouvido. Ele colocou água quente lá dentro para dissolver a cera. Isso foi uma das melhores sensações que eu senti. Foi como se eu tivesse voltado ao útero materno. É claro que eu não me lembro da paz e segurança que deve ser o útero materno, mas senti um calor aconchegante, Inexplicável, naquele momento. Quando eu saí do consultório, Já andando entre as pessoas na rua, olhava encantado para tudo com a sensibilidade e a curiosidade de quem acabara de nascer.

sábado, 24 de fevereiro de 2024

 

O sonho eterno

            Que bom seria se pudéssemos viver eternamente em um sonho.  Andar pela rua vestido ou nu e não se espantar com o julgamento alheio. Encontrar algum parente falecido e conversar com ele sabendo que ele está morto. Mudar de cenário a cada momento. Mostrar indiferença diante das situações mais escabrosas. Seria divertido a sensação de liberdade plena. É claro que vivendo em um sonho, terÍamos também nossos pesadelos, e o pior: vivendo eternamente em um sonho,  após um pesadelo, jamais acordarÍamos para sentir aquela sensação agradável e libertadora por ter acordado.

sábado, 17 de fevereiro de 2024

 

Perdi a validade

            Eu não sou de lágrimas, lamúrias, lástimas. Sou como uma estaca que não sente o peso da marreta e vai se afundando lentamente. Apesar de ter passado toda a vida sentindo-me assim, hoje rendi-me às lágrimas, lamúrias e lástimas. Eu, uma gota de suor, um risco de lápis sem ponta, uma folha seca no bueiro. Eu sou uma lâmpada apagada. Perdi a validade. PQP.

sábado, 10 de fevereiro de 2024

 




A birosca

O bar, o seu dono e todos os seus frequentadores eram da favela. O dono do bar gostava de Mozart e tinha uma reprodução de Toulouse Loutrec na parede. Por dentro do balcão, feito com restos de madeira de obras da cidade havia alguns livros que o dono do bar gostava de folhear. Ao anoitecer ele servia cachaça, e salgadinhos para fregueses indiferentes, que sequer olhavam para a reprodução de Toulouse Loutrec.

            O dono do bar também não se interessava pelas conversas dos seus fregueses, porém sentia-se ofendido quando carregava na maquiagem para agradar e era tratado com a mesma indiferença que os frequentadores dispensavam à obra de Loutrec.

domingo, 4 de fevereiro de 2024

 

A revolta da formiga

Uma gota de orvalho escorre sobre a folha e atinge uma formiga. O impacto a imobiliza. Logo ela se recompõe. Olha para cima maldizendo as árvores, as folhas, o orvalho e desiste de carregar a folha. Segue outro caminho. Resolve se aventurar pela floresta. Decide não mais trabalhar como uma escrava, engordando rainhas fanfarronas, protegendo ovinhos mimados que logo se transformarão em escravas carregadeiras.

            Tudo isto é muito bonito, mas é claro que nunca vai acontecer. Só acontece na minha imaginação, quando tento, olhando uma formiguinha carregando uma folha, libertá-la da escravidão.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

 

Faxina interna

            Apareceu uma dúvida e eu tentei me reorganizar, fazendo uma faxina no meu cérebro: juntei causas e consequências, limpei falsos sossegos, podei insignificâncias, rasguei insatisfações reprimidas, dei uma grande atenção às insuficiências íntimas, desprezei os impróprios e custei a me livrar dos despropósitos. Depois que estava quase tudo limpo, saí flanando pela noite à procura de novas dúvidas.

sábado, 27 de janeiro de 2024

 

Os demônios

            As mulheres são anjos quando as queremos. Quando não as queremos mais, são demônios refletidos nas pupilas de um cão. Para elas nós também somos assim, portanto há de se considerar que todos nós, ao término de um relacionamento, somos anjos caídos refletidos nas pupilas de um cão. 

sábado, 20 de janeiro de 2024

 

O meu coração

            O meu coração é incansável e trabalhador. Funciona há vários anos, sem descanso, sem interrupção. Os corações de todos funcionam da mesma forma, mas o meu é especial. O meu coração é bom, e eu sou muito recriminado por isso. Por mais que eu queira, não consigo endurecer meu coração. Ele é mole, flexível, compreensivo, carinhoso e eu sei o preço que pago por ser assim.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

 

Vida ingrata

Essa vida é muito ingrata. Nós, os poderosos, acumulamos grandes fortunas e no final fica tudo para os outros. É sempre uma grande alegria conviver com o dinheiro, com o poder, comprar estabilidade, pessoas, bens materiais, mas é, ao contrário, desanimador morrer e ter que começar tudo do zero na outra vida. Se é que existe outra vida!

É duro constatar, mas o certo é que o dinheiro pode comprar um bom caixão, mas não garante um bom lugar no céu.

sábado, 13 de janeiro de 2024

 

Dois baques

O passarinho cantava no galho: Piiiiiu, piiiiu...,pipipipipipiipipruuuuuuuu Piiiiiu, piiiiu...,pruuuuuuuuupup utruuuuuuuu... piupiupiupiupiupiupiupruuuuuuuuu...

            Um homem vinha andando, mascando fumo, espingarda debaixo do braço, chapéu de couro surrado, olhando para o chão. Andava sem fazer barulho, com a intenção de chegar mais perto para matar o passarinho. De repente: RUAAAFF...PLURT... Cuspiu! O passarinho parou de cantar assustado e voou para longe. Enquanto isto as formigas, sôfregas, almoçavam a cusparada.

            O homem ainda tentou sacar a arma, desistindo logo em seguida. Coitado, nesse dia ele sofreu dois baques: não matou o passarinho e ainda alimentou as formigas que tanto detestava.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

 

Carências

Uma velhinha, acompanhada por duas pessoas, saía de um restaurante. Ela olhava para o vazio e aquela cena me deprimiu. As pessoas geralmente acham que o velho incapaz precisa sair de casa para se distrair. Não é verdade. O velho incapaz quer carinho dentro de casa, e de preferência, que não saia nunca, mas que o carinho que receba o coloque, de uma certa forma, em contato com o mundo.

As pessoas oferecem o passeio com tanto entusiasmo que os velhos não são capazes de negar. Logo nós seremos os velhos incapazes e sentiremos, na pele, a falta de noção de quem só quer ajudar.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

 

Coleira ante pulgas

            O meu cachorro não tem pulgas. Ele usa uma coleira ante pulgas. A minha avó, se visse isso, não acreditaria. Jamais veria o cachorro se coçando num canto da casa. Isso acabaria com o motivo que ela sempre usava para hostilizá-lo. Com o fim das pulgas, talvez ela mudasse o foco e se voltasse contra mim. Ainda bem que não existia coleira ante pulgas nesse tempo. O cachorro foi uma espécie de escudo de proteção que o universo conspirou a meu favor.


quinta-feira, 28 de dezembro de 2023

 

 

O vento, o rio e o tempo

             Será que o vento é como o rio, que passa num passar sem fim? Ou ele passa e volta, fazendo piruetas no céu? Será que o vento é implacável como o tempo e o rio, que passam, passam, sem piedade, e nunca voltam? Que passe o vento, que passe o rio, mas o tempo, que passe pela sua vontade, não pela minha.

sábado, 23 de dezembro de 2023

 

Apego

Eu sempre fui apegado às coisas. Primeiro foi a chupeta. Chupava aquilo como se fosse um peito leitoso. O tempo foi passando e eu não largava o vício. Depois foi a bola que, mesmo depois de furada, ainda levou bons pontapés. Depois os soldadinhos de chumbo, as figurinhas, os patins, as bicicletas, as luvas de boxe.

           Quando cresci fui apegado às mulheres, ao dinheiro, carros, viagens, orgias e boa comida. Destruí muita gente para conquistar tudo isso, e agora, luto desesperado para me desapegar de um câncer que se apossou de mim.

sábado, 16 de dezembro de 2023

 

O Braço

Foi uma brusca freada, e eu, da varanda, de rosto franzido e olhos fechados, esperei por intermináveis segundos até que o carro parasse, e justamente nessa hora, ouvi um barulho seco, compacto, vindo do telhado, como se um saco de farinha tivesse sido jogado ali. Olhei para cima e do lugar onde me encontrava vi apenas alguns dedos transpondo a quina da calha. Peguei rapidamente a escada e subi, na tentativa de salvar aquela criatura, porém, em cima do telhado só havia um braço acompanhando aqueles dedos inertes.

          Desesperado, olhei para a rua e gritei, chamando as pessoas que pareciam procurar algo ao redor de um corpo já coberto com folhas de jornal.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

 

Capa de cordeiro

            Além de sangue, sistema vascular, músculos estriados, plexo braquial, artérias, pleura diafragmática, brônquio principal, pericárdio fibroso e grandes vasos, o coração guarda também a capacidade de nos iludir com relação ao amor, pois, o amor é traiçoeiro; astuto, falso, matreiro. Esconde a pele do lobo numa capa de cordeiro.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

 

As mascaras

“As máscaras caíram. Ninguém mais consegue se disfarçar. Cada um é o que é e nunca mais agirá de forma conveniente com suas mentiras.”

Isso seria o princípio de algo verdadeiro que jamais acontecerá. As máscaras jamais cairão, e as pessoas, assustadas, sempre as usarão como uma forma de se protegerem dos outros e de si próprias. Eles não tem coragem de se aceitar como verdadeiramente são, e as máscaras os ajudam a ser como os outros, que não são o que são.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

 

Resistência

Ela já se foi, só eu permaneço nesta sala imensa, irritado com o eco de pequenos barulhos que faço ao movimentar a perna para evitar dormência. Estou sentado no chão a contemplar algumas contas do colar que partiu quando eu, na hora da agressão, tentava me defender. São falsas contas, como já é falso, há muito tempo, o nosso relacionamento.

           Eu já não me importo com as suas indiscretas e infrutíferas tentativas de envolver-se com a juventude, porém, a juventude tenta, discretamente, envolver-se comigo. Isso faz com que ela adquira, nas suas expressões e atitudes, um desejo de esmagar o mundo, uma necessidade de destruir o belo, uma fúria incontida, que hoje culminou numa cena patética, fazendo com que os convidados, inclusive o pivô da discussão, que eu espero rever em breve, saíssem discretamente, deixando-me aqui sentado, tentando gastar, até a última gota, a resistência inata do ser humano de tomar atitude quando o assunto é a separação.

quinta-feira, 30 de novembro de 2023

 

Carência

Um tiro certeiro acertou um certo sujeito chamado João. João caiu de bunda no chão, mas o tiro que levou não acertou sua bunda, e sim, sua mão. O tombo foi de susto e João, ao se levantar, pegou a mão com a outra e fez uma careta. Como não havia ninguém olhando, parou de fazer careta e levou sua mão para o hospital.

Só faltava mancar de tanta carência afetiva. Sua mãe não estava lá para dar-lhe um beijinho e afagar-lhe os cabelos. Seu pai não estava lá para enfiar-lhe a mão a cara, dizendo que homens não choram. Sua mulher não estava lá para fazer um escândalo e desmaiar ao se deparar com aquela mão ensanguentada.

           E lá ia João, pensando... Pensando e mancando, mancando e chorando, chorando e s’amando, s’amando e sarando, sarando e se lembrando de que sarado a vida é outra, mais dura, mais difícil de se levar, mais difícil de aguentarrrrrrrrrrrrrgh.

domingo, 26 de novembro de 2023

 

A responsabilidade

A responsabilidade é uma merda. É claro que todos nós devemos estar atentos para não abusarmos da falta dela. Tirando as pessoas que se escondem sob uma capa de responsabilidade para executar as maiores falcatruas, a responsabilidade é castradora. Quanto mais eficiente, quanto mais centrado em coisas inúteis, mais responsabilidade você adquire, e isto não o deixa se movimentar.

          Para a maioria das pessoas a responsabilidade é o céu e a falta dela é o inferno. Já virou lugar-comum dizer que o inferno é melhor do que o céu, mas, Deus que me perdoe: viva a falta de responsabilidade!

quarta-feira, 22 de novembro de 2023

 

Desconforto

            Na parede, amarelado sob uma moldura rota, o meu retrato, quando jovem, inspira mais respeito do que esse caco na cadeira de balanço, a forçar a perna num movimento ritmado, como se amenizando a eterna estagnação existente na casa. Até a mosca, que entrou fazendo três ou quatro visitas de inspeção em pontos distintos da sala preferiu o caco ao retrato emoldurado, causando-me um profundo desconforto.

sábado, 18 de novembro de 2023

 

Os velórios

            Os velórios me deprimiam. O defuntos, nem pensar! Não os encaravam. Eles eram sóbrios, superiores. Sabiam mais do inimaginável do que eu poderia imaginar. Hoje eu me dou com eles. Meus amigos estão partindo e a cada despedida eu me sinto mais à vontade. Passei a me encarar ali. Logo será a minha vez, e sempre me pego arrumando o colarinho de um ou outro, como se cuidando da minha aparência para partir com dignidade.

quarta-feira, 15 de novembro de 2023

 

Máquina enferrujada

É... O mundo vai girando e a gente girando junto. É uma imensidão desconcertante, assustadora o universo, e se a gente estiver sem dinheiro para pagar as contas, esse mundo, essa imensidão perde por completo a importância. A gente, na maioria das vezes, aqui nesse mundinho insignificante, sem dinheiro para pagar as contas não se assusta com a imensidão do universo.

            A máquina está enferrujada, não funciona, e os bichos da ferrugem atacam, atacam, e você lá, deitado com as mãos apoiando a cabeça sobre o almofadão, olhando para a imensidão do universo, sem ao menos perceber que ali existe um universo para ser observado.

sábado, 11 de novembro de 2023

 

                                                        Descendência           

            Eu não tenho descendência de rio no quintal. Tenho de área de serviço. Eu não tenho descendência de árvore. Tenho de cama colorida. Eu não tenho descendência de concurso de cuspe, concurso de mijo, nem de pula toco. Tenho de Nintendo. Minha descendência é concreta, não abstrata.

domingo, 5 de novembro de 2023

 

O carregador oficial

O bêbado tinha um carregador. O carregador era sério, devia ser seu amigo ou parente. O bêbado gesticulava ao falar. Ninguém entendia seus gestos, nem suas palavras. O carregador era paciente e parece que cumpria uma obrigação. Eu não sabia se aquele era o carregador oficial do bêbado, mas ele estava desempenhando aquela função com muito esmero. Na sacada, a mulher recebeu o bêbado e o levou para dentro, como se leva algo difícil de carregar.

 O carregador foi-se embora. A mulher do bêbado deve ser o carregador oficial.