Ilustração: Nerino de Campos
Texto: Nerino de Campos
Subsecretário: Nerino de Campos

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Inspiração

Estou atrás da inspiração. Ela anda apressada, se esconde entre pilastras e becos escuros. Às vezes alguns flashes de luz imergem do seu corpo, me proporcionando uma grande alegria, porém, logo se transforma novamente em vazio. Enquanto ela não vem, eu uso a intuição, a consciência, a imaginação. Nada é tão sublime quanto a inspiração. Ela nos remete a um lugar desconhecido, e sem que nos esforcemos, passamos a transitar por lá como se estivéssemos em um ambiente de grande intimidade.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Confissão

Não foi bem assim que a coisa aconteceu, mas para amenizar a minha situação diante da justiça, fui obrigado a inventar tudo aquilo. Agora, arfando aqui no leito de morte, necessito dizer que naquele dia, apesar do ódio que sentia por Luiza, não tinha intenção de matá-la, a não ser que ela estivesse com o amante naquele momento, no entanto, ao passar frente ao banheiro, notei que ela tomava um banho de espuma. Ao seu lado, numa pequena mesa de armar, um abajur aceso, uma garrafa de vinho Rubesco Torgiano, com uma taça pela metade e algumas planilhas que ela pretendia analisar. Eu entrei e caminhei em sua direção. Ela sorriu e me chamou, estendendo os braços. Eu também sorri, e ao virar-me, esbarrei propositadamente com o cotovelo no abajur, empurrando-o para dentro da banheira. Depois esperei que Luiza acabasse com aqueles horríveis solavancos, para sair desconsolado a procura dos vizinhos.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

A Árvore do Conhecimento

A árvore do conhecimento é a macieira. Era proibido comer a fruta que ela nos proporcionava, apesar de ela produzir uma fruta muito palatável. Nós preferimos o conhecimento à possibilidade da vida eterna. Preferimos o conhecimento a ficarmos babando bestamente num lugar maravilhoso, sem saber o que se passava ao nosso redor. Foi dai que vieram os desejos inalcançáveis, as futricas, a necessidade de ser mais, a inveja, mas tudo com muita intensidade. E no meio de tudo isso eu já não sei o que seria melhor: viver eternamente o gozo da alienação ou conviver com a burrice do mundo à nossa volta.

domingo, 11 de novembro de 2012

O Centro Gavitacional

Durante muito tempo da minha infância o centro gravitacional da casa era o queijo. Ele podia estar na sala, na copa, na cozinha, não importava o lugar. Onde ele estivesse tudo girava ao seu redor, e se um dia ele faltasse, era como se a galáxia estivesse em desalinho, até chegar o queijo e colocar todo o universo em ordem novamente.

domingo, 28 de outubro de 2012

Objetos Cotidianos

Eu fiquei com o abajur pequeno, ela com as taças de cristal. Eu com o jogo de toalhas amarelas, ela com o aparelho de chá. Peguei alguns livros que não havia lido e uns CD’s. Ela ficou com o aparelho de som. Na casa nova o abajur sem lâmpada ficou jogado num canto, As toalhas me foram úteis, e os CD’s, sem o aparelho de som, ocupavam espaço na estante empoeirada. Um dia, uma outra chegou. Arrumou a casa toda, trouxe um aparelho de som e alguns pertences que nos foram úteis Estamos vivendo um amor eterno, até quando dividiremos novamente nossos objetos cotidianos.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Camisa de força

Quando eu chegar lá, vão espremer o meu cérebro até produzir máscaras invisíveis, que me auxiliarão na diminuição do próprio prazer, e esta ausência de qualquer coisa me libertará do outro, que exige tanto de mim. Logo estarei curado e então vocês verão como sou dócil, obediente e prestativo. Ficarei assim até que a intransigência alheia me leve novamente para a Camisa de Força.

sábado, 13 de outubro de 2012

Cabeça pensante

Eu me sento, pego uma folha de papel em branco e tento escrever. Não tenho nada na cabeça. Após alguns instantes me vem a palavra “Bolha”. Não é tão difícil escrever sobre uma bolha: Eu lá dentro? Uma bolha se estourando? Uma bolha crescendo sobre o meu calcanhar? As perguntas são muitas e as respostas, quanto mais simples, melhores. Não é difícil escrever sobre nada. Um pé retorcido dá margem a um acidente espetacular. Por trás de uma mosca remexendo as patinhas dianteiras esconde um lindo prato de comida ou uma carcaça de boi apodrecida. Um nariz empinado pode demonstrar orgulho, ou certo defeito físico. Uma cobra rastejando pode estar fugindo de um predador ou deslizando sorrateiramente, prestes a dar o bote em uma indefesa criancinha. Eu não tenho desculpas! A cabeça está sempre cheia de coisas para serem escritas. Se fosse fácil não ter nada na cabeça nós sempre atingiríamos a excelência em meditação.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

O Tempo e o Sonho (fragmento)

José Abascal – peguei esse nome numa agenda espanhola - acorda assustado com o bater de uma porta, justamente quando no sonho ele leva um tiro. Maria Bassas – também da agenda espanhola -, temerosa, pede para que ele faça uma vistoria na casa. Pode ser um ladrão, ela diz. Ele, impaciente, levanta-se e vai olhar. É o vento, ele diz, depois completa: eu estava sonhando e...conta o sonho. Isso já aconteceu comigo. Isso o quê? ele pergunta, e ela descreve um sonho onde cai, e quando bate com a cabeça no chão, acorda com o barulho de um abacate se desprendendo do pé e caindo no telhado. Quem sabe os acontecimentos do sonho caminham de acordo com o barulho que se fará ouvir?, pergunta Abascal. Maria não entende. Se fosse um daqueles sustos, ele diz, que a gente leva de vez em quando, tudo bem, mas o barulho da porta batendo tem que coincidir com o tempo do sonho. Coincidir exatamente! Será que vamos sonhando vagarosamente para que o barulho do tiro coincida com o da porta batendo, como foi no meu sonho? Maria fica pensando... e logo se distrai com a possibilidade de o ladrão já estar dentro da casa.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Meu Avô, Meu Pai e Eu.

Éramos meu pai e eu, a acompanhar o caixão ladeira abaixo, carregado por dois empregados da fazenda; dois miseráveis que o meu avô sugara toda a energia durante a sua existência. Centena de outros miseráveis acompanhavam o cortejo fúnebre de suas casas, atrás das gretas das janelas, temerosos de que o meu avô rompesse a tampa do caixão e voltasse a hostilizá-los como sempre fizera. Ao voltarmos para casa o meu pai olhou, por muito tempo, o lugar deixado por meu avô, até assumi-lo, adquirindo a personalidade perversa que pairava no ar a procura de fragilidade, passando, desde então, a nos hostilizar como era o costume. Hoje o meu pai está sendo sepultado e os miseráveis esperam que eu tome a atitude costumeira, apesar de eu já estar com as malas prontas para, finalmente, seguir o meu destino.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Nudez

Quando eu chegava em casa, ia tirando as peças de roupa e deixando-as espalhadas pelos cômodos, só voltando a me vestir nas raras vezes em que saía novamente. Vivia a maior parte do tempo nua, até o dia em que um homem ligou, descrevendo pormenores da minha intimidade. Temerosa, passei a suspeitar de todos os homens da cidade, no entanto, o homem, arrependido, mandou-me uma carta se desculpando pelas suas fraquezas, prometendo não mais me importunar. Afirmou ter agido daquela forma por não ter encontrado a maneira adequada para dizer que me amava. Eu senti que suas palavras eram sinceras, e aos poucos, voltei a abrir a janela e a procurar nas janelas dos prédios vizinhos algum vulto que o identificasse. Logo voltei a me despir, sem que ele se manifestasse, e hoje, vivo na mais completa solidão.

segunda-feira, 30 de julho de 2012


Dura Realidade
Tomado por uma grande necessidade de liberdade, saí, atravessei a cidade, e me situei num campo florido, até que um enxame de abelhas me levou para a praia, deixando-me a contemplar pernas roliças, seios firmes e bem delineados de lindas moças, e no momento em que essas moças começaram a tirar os seus biquínis, tentando delicadamente esconder o sexo, apesar de seus olhares insinuantes, e eu já sentindo um princípio de ereção, ouvi o barulho da portinha se abrindo e vi a panela com um caldo marrom sendo jogada cárcere adentro, trazendo-me, imediatamente, para a realidade.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Um tiro certeiro acertou um certo sujeito chamado João. João caiu de bunda no chão, mas o tiro que levou não acertou sua bunda, e sim, sua mão. O tombo foi de susto e João, quando se levantou, pegou a mão com a outra e fez uma careta. Como não havia ninguém olhando, parou de fazer careta e levou sua mão para o hospital. Só faltava mancar de tanta carência afetiva. Sua mãe não estava lá para dar-lhe um beijinho e afagar-lhe os cabelos. Seu pai não estava lá para enfiar-lhe a mão a cara, dizendo que homens não choram. Sua mulher não estava lá para fazer um escândalo e desmaiar ao se deparar com aquela mão ensangüentada. E lá ia João, pensando, e agora já mancando, mancando e chorando, chorando e s’amando, s’amando e sarando, sarando e se lembrando que sarado a vida e outra, mais dura, mais difícil de se levar, mais difícil de aguentarrrrrrrrrrrrrg.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

O jazz é poesia. Muita gente não entende poesia, detesta jazz. Indiferente a tudo isto o jazz vai seguindo o seu caminho. O saxofone tocando lento, o baixo entrando sem ser chamado, a bateria, de mãos dadas com o piano que sussurra um ritmo, e como se não bastasse, a voz de um cantor desafiando o imprevisto. Quando você acha que o tom vai subir, desce. Quando acha que vai descer, diminui. Quando você acha que acabou, começa... E lá vai o sax: FÔÔÔ... e a bateria: TU, TU, TUTAK, e: PLIM, PLIM, PRUOOOOOOOMMMMMM, o piano. O baixo também tem sua personalidade: TGUM, TGUM, TGUM...

quarta-feira, 23 de maio de 2012

A Mosca e Eu A vontade aumentava e eu ia blasfemando a fragilidade humana, essa necessidade de ingerir, digerir e excluir. Ingerir às vezes sem necessidade, como se aproveitando o máximo da derradeira refeição, e logo em seguida, excluir; se bem que poucas vezes em situações inusitadas como a que eu me encontrava: caminhando, suando, blasfemando, mas impossibilitado de tomar uma atitude. Entrei numa lanchonete. Não havia banheiro. Pelo menos não havia uma porta fora do balcão que se pudesse julgar ser um banheiro. Lembrei-me dos lotes vagos que existiam na cidade. Talvez uma moita e algumas folhas me fossem de grande utilidade naquele momento. Apertei o passo em direção ao meu apartamento. Parei de blasfemar e passei a pensar em Neurocirurgia Estereotáxica. Não adiantou! No elevador, que felizmente estava vazio, uma mosca rodeou a minha calça branca, talvez procurando uma maneira de ingerir o que eu acabara de excluir.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

N de Nada - De todo o trabalho da vida não sobrou farelo de pão. Nunca construí nada, somente ajudei os construtores a comprar o pão e a guardar os farelos. Agora eles descansam e eu ajudo os famintos a mendigar. Eu: uma gota de suor!

domingo, 1 de abril de 2012


Se só sobrasse um homem, uma mulher, uma criança, uma barata, uma cabra, um cachorro, um peixe, uma pequena tartaruga, um anão, um outro homem de outra cor, um terceiro plano, uma iguana rosa gigante, uma cotia e alguns mosquitos, na certa, depois de alguns milhares de anos, tudo seria novamente esta lama que somos hoje.

sábado, 3 de março de 2012


Recriminação

O meu avô trouxe uma cadeira e após colocá-la à minha frente, olhou-me de tal forma que eu me senti como se levitando, até sentar-me, apesar da minha vontade ser a de estar longe daquela varanda. Ele entrou e pouco depois voltou com uma xícara de café, colocando-a na mesinha ao lado da sua cadeira. Sem dizer uma palavra, entrou novamente, e eu, com uma enorme necessidade de abstrair-me, passei a observar uma mosca que pousara na xícara. Ela caminhava vagarosamente para um lado e para o outro, até quando eu abafei com a mão a borda da xícara, afogando-a no café.
Logo depois o meu avô chegou com a bola e alguns cacos de vidro da janela da sala, e após sorver o café, passou às acusações, sem imaginar o que eu colocara dentro do seu corpo para me ajudar a suportar tudo aquilo.

domingo, 26 de fevereiro de 2012


A ONDA GIGANTESCA

Quando Thais acordou, sentiu uma fisgada no joelho, porém, notou que os seus braços estavam engessados, impossibilitando-a de chegar até a perna para se coçar. Olhou para o quarto do hospital, e de barulho, apenas o gotejar de uma torneira vindo de uma porta entreaberta. Havia muitos aparelhos à sua volta, muitos fios e tubos ligados ao seu corpo, todos funcionando em silêncio, tentando mantê-la viva.
Ela não conseguia se lembrar do que acontecera. Não se lembrava e torcia para que ninguém chegasse ali para lembrá-la. No entanto, uma forte dor no pé esquerdo passou a incomodá-la, até fazer com que as lembranças despencassem-lhe sobre a cabeça como uma onda gigantesca, remontando a horrível cena dos bombeiros serrando-lhe as pernas para livrá-la das ferragens do metrô.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012


Uma vagina, ali entre as pernas de uma mulher, num dia qualquer de semana, andando sob um sol forte no centro da cidade, não tem a menor importância, o menor valor, a não ser o de facilitar, a qualquer momento, os incômodos das necessidades fisiológicas. Além disso, uma vagina, numa situação dessas pode até estar suja, às vezes de urina ou mesmo de fezes, quando o papel higiênico não foi usado de forma adequada. Uma vagina, “andando” pelo centro da cidade pode estar sendo ferida por uma minúscula calcinha lilás, que aperta-lhe um dos pequenos lábios, mas dependendo da situação em que se encontra a mesma vagina, num lugar adequado, com a música adequada, com a luz adequada, com os corações pulsando adequadamente, tem uma personalidade tão forte, é tão importante, é tão vigorosa, que dá até vontade da gente se acabar nela.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012


Re.)
Sim. Sim, sim...
Não adianta dizer sim.
Não, não, não...
Não adianta dizer não.
E por aí vai.