Ilustração: Nerino de Campos
Texto: Nerino de Campos
Subsecretário: Nerino de Campos

terça-feira, 24 de maio de 2011


(Re.)
Ele ficou olhando para a tela do computador por alguns minutos, e sem o que dizer, escreveu sobre um cachorro manco que não conseguia urinar no poste e foi inchando até estourar de tanta urina. Depois escreveu sobre a calça no varal, balançando de um lado para o outro, e o gatinho branco tentando alcançá-la, até conseguir, e ficar com a pata presa, desesperado, tentando sair, e o vento batendo, e o gato lá embaixo, tentando, tentando. Escreveu sobre a mulher que todos os dias passava, no mesmo horário, pelos seus pensamentos,com aquela saia rasgada e aquela blusa cor de vinho manchada de azul. Do baloeiro escreveu também, sentado na praça, sem ao menos saber que estava ali, pernas cruzadas, uma das mãos apoiada no banco de mármore, segurando os balões e a outra cofiando a barba grisalha. Escreveu sobre os barulhos da praça, dos cheiros, da pipoca estourando no carrinho lá na esquina e o cheiro chegando cá perto do banco do baloeiro, dos meninos saindo da escola, jogando as mochilas para cima, chutando uns aos outros, as beatas enroladas nos seus véus pretos indo para a missa que só começaria ao anoitecer. Escreveu também sobre os pombos cometendo o pecado mortal de cagar na igreja, sem contar o pecado que não tem classificação no livro das coisa ruins do céu que é o da prática do ato sexual dos pombos no caibro da entrada principal da igreja. Mas logo foi se desinteressando por aquilo tudo e desligou o computador.

segunda-feira, 16 de maio de 2011


FOGUETE EXTRATEMPORAL (Re.)

Se você estiver sentindo um infinito desejo de liberdade, apesar de estar livre dentro de uma grande cidade, insatisfeito pelo excesso de pormenores inúteis, ou mesmo preso no trânsito, não querendo estar lá, ou realmente preso em uma cela, condenado a muitos anos de cadeia, nunca se esqueça de que o pensamento, no mundo em que vivemos, é a nossa única forma de liberdade, e consciente disto, em poucos segundos você pode estar andando, e de repente, voar, e ao se deparar com um avião à frente, mergulhar em uma de suas turbinas, saindo do outro lado dividido em milhões de pedacinhos reluzentes, e ao unir-se novamente, pode transformar-se em um ser supremo, pretensioso, e nesse momento, por ordem de outro ser supremo, voltar à terra como uma minhoca, sentindo claustrofobia com toda a intensidade, e depois da experiência do medo intenso, rasgar a terra, partindo atrás de um grande amor, se entrelaçando em braços e pernas da mulher amada, sentindo um amor tão profundo, tão intenso e verdadeiro, a ponto de lançar-se para bem alto, transformando-se em um foguete extratemporal, que atravessa todas as galáxias existentes e todos os mundos imaginários, viajando por bilhões e bilhões de anos luz, até chegar em um lugar onde nada importa além da felicidade e do amor.

quarta-feira, 4 de maio de 2011


(Re.)
Um homem, fascinado pela destreza de sua mulher ao lidar com as consequências, resolveu se aprimorar no trato das causas. Causava aborrecimentos, consequentemente, ela o aborrecia por isto. Um dia, ao sair do quarto escuro, pegou o chapéu e correu até a porta. Tentava falar, sem conseguir. Sentia, há muito tempo, que começara, aos pouco, a ficar mudo. Queria se libertar daquilo tudo, e já na rua abraçou o primeiro transeunte, que no caso era eu. Eu quase chorei de emoção com aquele gesto nobre, e abracei-o também, apertando-o contra o peito. Ele ainda brincou, apertando o meu nariz entre os dedos. Eu espirrei três vezes e comecei a coçar. Foi tudo muito rápido. Cocei, cocei e de repente a pele começou a sair na minha mão, e logo em seguida a carne também. Eu tocava, aflito, os meus próprios ossos, e o couro cabeludo se desfez entre horror e lágrimas. Um dos olhos caiu como uma bola de gude e eu, olhando aquele olho no chão com o olho que me restara, tive vontade de pisar para ouvir fazer “PLOC”