Ilustração: Nerino de Campos
Texto: Nerino de Campos
Subsecretário: Nerino de Campos

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011


Depois de receber o telefonema de um amigo, marcando um encontro para aquela noite, o rapaz correu até o canto da enorme sala da sua casa, abriu os braços, ficou na ponta dos pés, e depois, com o corpo apoiado em uma das pernas, estendeu a outra para trás. Estendeu também os braços: um para frente e o outro para trás, como se querendo que a ponta da mão esquerda, que estava para frente, ficasse o mais longe possível do pé direito, que estava para trás. Avançou pela sala na ponta dos pés numa sucessão de passos curtos e uniformes. Já quase perto da parede deu um tour em l’air, virando-se novamente para a porta. Depois deu um salto, acompanhado de cruzamentos rápidos e sucessivos das pernas, e correu novamente na ponta dos pés com um braço para a frente e o outro para trás. Seus movimentos eram delicados, e depois de vários baattus, brisées, fonettés, pás de bourrées e releves, olhou para a porta da sala e se deparou com o pai, segurando algumas sacolas de supermercado, olhando-o assustado. Ele também se assustou, e, imediatamente, caminhou com passos firme até a porta para ajudar o pai a levar as compras para a cozinha.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011


A vida é cíclica. Você é feliz, infeliz, extremamente feliz, infeliz, e por aí vai. Nada é eterno. Talvez essa seja a grande mágica para que o ser humano consiga viver nesse mundo louco: um dia feliz, outro dia infeliz.
Felicidade incondicional é impossível, no entanto, a minha grande vontade era a de ser feliz o tempo todo. Já que é assim, o grande lance é você saber que será feliz quando estiver infeliz, e não tentar pensar em infelicidade quando você estiver feliz

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011


Quanto mais os anos passam, mais mortos você visita, e é claro, a gente sempre torce para não ser visitado. Quando eu estou lá, no velório, visitando um desses mortos, sinto que ele se apresenta de uma forma muito esnobe, ali deitado, não participando de nada ao seu redor. Às vezes eu sinto que eles levam certa vantagem sobre as pessoas que li estão, pois, já têm a experiência da morte e as pessoas não. Eles já podem estar envolvidos com outras maneiras de ser, ou com o nada absoluto, com o descanso total, com o descanso que não tem graça.
De certa forma eu prefiro estar ali VIVO, adquirindo mais experiência em vida. Esta é a minha vantagem.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011


As máscaras caíram. Ninguém mais consegue se disfarçar. Cada um é o que é, e jamais aceitará o que se propõe.
Isso seria o princípio de algo verdadeiro que jamais acontecerá. As máscaras jamais cairão, e as pessoas, assustadas, sempre as usarão como uma forma de se protegerem dos outros e de si próprias. Ninguém tem coragem de se aceitar como se é, e as máscaras os ajudam a ser como os outros, que não são o que são.