Ilustração: Nerino de Campos
Texto: Nerino de Campos
Subsecretário: Nerino de Campos

sábado, 3 de dezembro de 2011


(Re.)
Uma tela em branco no computador, em determinados momentos, é de matar qualquer um de ódio ou pavor. É como uma multidão atenta, interrogativa, esperando você falar, e você olhando apavorado sem saber o que dizer. Uma tela em branco no computador só pode ser comparada a uma tela em branco, esperando ser pintada. As duas causam o mesmo sofrimento. Uma tela em branco no computador não passa de uma tela em branco, e o computador não passa de uma máquina, que, sem os seus comandos jamais conseguirá se movimentar.
A tela está lá, vazia, é só você colocar o que quiser. Que seja um PUTAQUEOPARIU ou uma flor. Você pode falar mal de alguém, falar de coisas boas ou ruins, pode não falar nada, tentar escrevendo em toda a página, como estou tentando fazendo agora, ou pode falar tudo com apenas três palavras. Quando você pensa em falar tudo com apenas três palavras, isto vira um desafio, uma obsessão, e você começa a tentar imaginar quais palavras seriam essas três, até descobrir que poderia ser: TÔ COM FOME, e sair correndo para comer um sanduíche.
Voltei!
Uma tela de computador em branco é apenas uma tela de computador em branco, e você é o resto. Só isto: O RESTO.
Se joga!

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

A NÁUSEA

A NÁUSEA

(Re.)
O texto era sobre um cachorro preto, pequeno, manco, sem um pedaço do rabo, tentando atravessar a Praça General Isidoro carregando um enorme pedaço de osso, que talvez pesasse mais do que o seu próprio peso. Logo mudei de assunto e passei a escrever sobre uma velha bêbada. Ela tomava cachaça e me deu vontade acompanhá-la. Não tinha cachaça em casa. Fui até a geladeira, peguei uma cerveja e ficamos lá, eu e a velha, bebendo. Quanto mais eu bebia, mais a velha ficava bêbada. Logo os textos começaram a se interagir e a velha resolveu ajudar o cachorro com o osso. O cachorro rosnou e deu-lhe uma dentada no dedo indicador da mão direita. Ela limpou a mão na saia e voltou a beber comigo, sem imaginar que aquele frágil cachorrinho era portador de hidrofobia.
No fim ela morre!

terça-feira, 27 de setembro de 2011


(Re.)
Ela já se foi, só eu permaneço nesta sala imensa, irritado com o eco de pequenos barulhos que faço ao movimentar a perna para evitar dormência. Estou sentado no chão, a contemplar algumas contas do colar que partira na hora da agressão. São falsas contas, como já é falso, há muito tempo, o nosso relacionamento. Eu já não me importo com as suas indiscretas e infrutíferas tentativas de se envolver com a juventude, porém, a juventude tenta discretamente se envolver comigo. Isso faz com que ela adquira, nas suas expressões e atitudes, um desejo de esmagar o mundo, uma necessidade de destruir o belo, uma fúria incontida, que hoje culminou numa cena patética, fazendo com que os convidados, inclusive o pivô da discussão, que eu espero rever em breve, saíssem discretamente, me deixando aqui sentado, tentando gastar, até a última gota, a resistência inata do ser humano de tomar uma atitude quando o assunto é a separação.

terça-feira, 13 de setembro de 2011


(Re.)
Acordo e vou correndo mato adentro de mim mora um anjo feito a cara escarrada do pai nosso que vai dar no fim da linha do trem bom de cama, bom de briga, bom de papo furado, fudido, feito um para o outro lado da cara de pau duro de roer a corda bamba que dorme novamente.

sábado, 3 de setembro de 2011


(Re.)
Todo cagão é responsável. A responsabilidade é mais ou menos como uma rolha. O cagão responsável não caga. Puta que pariu a responsabilidade! Por isso que eu digo que tudo gira em função da nota, da moto, do mato, do pato, contato direto, secreto, sisudo, canudo cabeludo. Os Beatles já foram cabeludos no tempo em que o cabelo deles era pequeno. Eu já tive um saco cabeludo quando tinha apenas três fiapos (dois mais grossos e um fininho).Nessa época eu cuidava deles como se cuida de uma vasta cabeleira. Tudo é uma questão de ponto de vista. Eu não quero dormir nunca mais. Tudo é uma questão de ponto de vista. Preciso de tempo para questionar o ponto de vista. O guarda chuva quebrado na enxurrada não chama a atenção de quem está na chuva pra se molhar. Eu estou na chuva pra me molhar. Há, há, há... grande mentira! Eu nunca fiquei na chuva. Eu nunca me molhei. Eu sou um cagão arrolhado com a responsabilidade. Todo mundo que eu conheço também. Todos cagões, até os irresponsáveis.

sábado, 20 de agosto de 2011


POLÍPONO,
POLÓNOPO,
PATÍLOCO.

PECÍPITO,
PODÚBORO,
PALÉFICO.

PRECÍPITO,
PRONTÍSQUO,
PRESÉPITO.

PRISMÁLOCO,
PRONTÍVORO,
PRONTO!

domingo, 14 de agosto de 2011


A maioria de nós quer chorar e não consegue. Se isso acontecesse, as lágrimas inundariam o mundo, e talvez um grande momento de sensibilidade superaria os momentos de aflição em que vivemos. Eu não consigo chorar, portanto estou predestinado à aflição, mas não fico aflito aqui, quieto no meu canto. Tento compartilhar a minha aflição com as pessoas que me cercam.
Vocês que me perdoem!

quarta-feira, 3 de agosto de 2011


Sentei para escrever uma peça de teatro. Estava inspirado. A trama estava clara na minha cabeça, mas vieram as dúvidas:
Quem participaria,
Quem interpretaria,
Quem personificaria,
Quem acompanharia,
Quem difundiria,
Quem trataria,
Quem tocaria,
Quem utilizaria,
Quem ousaria,
Quem ultrapassaria,
Quem vacilaria,
Quem ultrajaria,
Quem informaria,
Quem experimentaria,
Quem negligenciaria,
Quem faria,
Quem fracassaria,
Quem honraria,
Quem lastimaria,
Quem listaria,
Quem esconderia,
Quem mataria,
Quem morderia,
Quem foderia,
Quem usaria,
Quem viveria,
Quem vomitaria,
Quem violentaria,
Quem dominaria,
Quem desinformaria,
Quem diminuiria,
Quem se viciaria,
Quem observaria,
Quem responderia,
Quem atropelaria,
Quem se masturbaria
Quem dispersaria,
Quem encontraria,
Quem sustentaria,
Quem permaneceria,
Quem riria,
Quem rosnaria,
Quem resmungaria,
Quem escovaria,
Quem procuraria,
Quem ouviria,
Quem olharia,
Quem pintaria,
Quem excederia,
Quem exorcizaria,
Quem desconsertaria,
Quem rabiscaria,
Quem rasgaria,
Quem racionalizaria,
Quem solucionaria,
Quem zombaria?
Com tantas dúvidas, saí do computador, liguei a televisão e passei a assistir a um documentário sobre a temporada de furacões nos Estados Unidos.

quarta-feira, 27 de julho de 2011


Re.
Palavras, pétalas, próspero, pedras, pulgas, primos, cócegas, coisas, canção.
Você entra no papel. Ali está o mundo. Ali está o que pode acontecer, ali está o que vai acontecer. Nada em volta tem valor. As pessoas falando, alguém festejando, todos cantando e você lá, introspectivo, mas feliz por ter o mundo às suas mãos. Cada um com sua felicidade ou seus problemas. Você se sente feliz, mas ao mesmo tempo, completamente infeliz, porque o mundo não é coisa para fazer ninguém feliz, porém, esse mundinho da escrita, com todas as suas particularidades e individualidades, satisfaz plenamente a quem está escrevendo, principalmente se este alguém está sozinho numa mesa de bar.

terça-feira, 12 de julho de 2011


A minha cama sempre foi um dos lugares mais aconchegantes, um refúgio onde eu conseguia me confortar. Ali eu me sentia protegido; não por ninguém, mas pela cama, pelas cobertas, pelo quarto, pela intimidade de estar deitado num lugar seguro. E era cair ali e dormir, sem problemas. Hoje eu não sinto mais essa segurança. Não me sinto protegido. Estou sempre assustado, esperando que o pior aconteça. Então coloco sobre o ouvido uma almofada e espero que os pensamentos se esvaiam e que eu encontre um pouco de paz para continuar naquele lugar.

sábado, 25 de junho de 2011


O Duque de Valparaíso (Re.)
Ele chegava ao fim da tarde e sentava-se, invariavelmente, nos mesmos cacos que o proprietário do botequim insistia em chamar de banco. À partir daquele momento, era um alvoroço lá dentro, com o dono do estabelecimento cortando o salame em fatias finas - exigência do Duque - e sua mulher servindo uma generosa dose de cachaça num copo grande. Os clientes, que eventualmente estivessem ali naquela hora, permaneciam-se calados, até quando ele tomava a terceira pinga, jogava os restos de salame para o gato, e saía.
O Duque, por sua fama de impiedoso matador, era muito respeitado no Bairro Valparaíso, e seu apelido, que todos conheciam, apesar de ninguém ter coragem de pronunciar na sua presença, viera após ter sido mordido por um cachorro de nome Duque, e ter revidado, mordendo-o até a morte.

quarta-feira, 8 de junho de 2011


O Banquete (Re.)
Acordei com o sol queimando o meu rosto. Abri vagarosamente os olhos e após ser agredido por uma intensa claridade, me deparei com o azul deslumbrante de um céu sem nuvens. A cidade borbulhava. Queria estar longe de casa, porém, quando criei coragem para olhar ao redor, descobri estar na Praça Antero de Quental, bem em frente ao prédio onde morava. Aos poucos fui me lembrando da festa, da minha briga com a Marta após a saída dos convidados, da sua maneira agressiva me mandando tomar cachaça com os mendigos da praça, da minha determinação, comprando várias garrafas e oferecendo um banquete aos meus novos amigos.
Levantei-me com dificuldade, apoiando-me em uma árvore. Algumas babás me olhavam ao longe, chamando as crianças para junto delas. Quando eu vi que estava todo mijado e cagado, coloquei a camisa sobre o rosto e caminhei cambaleando para casa.

terça-feira, 24 de maio de 2011


(Re.)
Ele ficou olhando para a tela do computador por alguns minutos, e sem o que dizer, escreveu sobre um cachorro manco que não conseguia urinar no poste e foi inchando até estourar de tanta urina. Depois escreveu sobre a calça no varal, balançando de um lado para o outro, e o gatinho branco tentando alcançá-la, até conseguir, e ficar com a pata presa, desesperado, tentando sair, e o vento batendo, e o gato lá embaixo, tentando, tentando. Escreveu sobre a mulher que todos os dias passava, no mesmo horário, pelos seus pensamentos,com aquela saia rasgada e aquela blusa cor de vinho manchada de azul. Do baloeiro escreveu também, sentado na praça, sem ao menos saber que estava ali, pernas cruzadas, uma das mãos apoiada no banco de mármore, segurando os balões e a outra cofiando a barba grisalha. Escreveu sobre os barulhos da praça, dos cheiros, da pipoca estourando no carrinho lá na esquina e o cheiro chegando cá perto do banco do baloeiro, dos meninos saindo da escola, jogando as mochilas para cima, chutando uns aos outros, as beatas enroladas nos seus véus pretos indo para a missa que só começaria ao anoitecer. Escreveu também sobre os pombos cometendo o pecado mortal de cagar na igreja, sem contar o pecado que não tem classificação no livro das coisa ruins do céu que é o da prática do ato sexual dos pombos no caibro da entrada principal da igreja. Mas logo foi se desinteressando por aquilo tudo e desligou o computador.

segunda-feira, 16 de maio de 2011


FOGUETE EXTRATEMPORAL (Re.)

Se você estiver sentindo um infinito desejo de liberdade, apesar de estar livre dentro de uma grande cidade, insatisfeito pelo excesso de pormenores inúteis, ou mesmo preso no trânsito, não querendo estar lá, ou realmente preso em uma cela, condenado a muitos anos de cadeia, nunca se esqueça de que o pensamento, no mundo em que vivemos, é a nossa única forma de liberdade, e consciente disto, em poucos segundos você pode estar andando, e de repente, voar, e ao se deparar com um avião à frente, mergulhar em uma de suas turbinas, saindo do outro lado dividido em milhões de pedacinhos reluzentes, e ao unir-se novamente, pode transformar-se em um ser supremo, pretensioso, e nesse momento, por ordem de outro ser supremo, voltar à terra como uma minhoca, sentindo claustrofobia com toda a intensidade, e depois da experiência do medo intenso, rasgar a terra, partindo atrás de um grande amor, se entrelaçando em braços e pernas da mulher amada, sentindo um amor tão profundo, tão intenso e verdadeiro, a ponto de lançar-se para bem alto, transformando-se em um foguete extratemporal, que atravessa todas as galáxias existentes e todos os mundos imaginários, viajando por bilhões e bilhões de anos luz, até chegar em um lugar onde nada importa além da felicidade e do amor.

quarta-feira, 4 de maio de 2011


(Re.)
Um homem, fascinado pela destreza de sua mulher ao lidar com as consequências, resolveu se aprimorar no trato das causas. Causava aborrecimentos, consequentemente, ela o aborrecia por isto. Um dia, ao sair do quarto escuro, pegou o chapéu e correu até a porta. Tentava falar, sem conseguir. Sentia, há muito tempo, que começara, aos pouco, a ficar mudo. Queria se libertar daquilo tudo, e já na rua abraçou o primeiro transeunte, que no caso era eu. Eu quase chorei de emoção com aquele gesto nobre, e abracei-o também, apertando-o contra o peito. Ele ainda brincou, apertando o meu nariz entre os dedos. Eu espirrei três vezes e comecei a coçar. Foi tudo muito rápido. Cocei, cocei e de repente a pele começou a sair na minha mão, e logo em seguida a carne também. Eu tocava, aflito, os meus próprios ossos, e o couro cabeludo se desfez entre horror e lágrimas. Um dos olhos caiu como uma bola de gude e eu, olhando aquele olho no chão com o olho que me restara, tive vontade de pisar para ouvir fazer “PLOC”

quinta-feira, 28 de abril de 2011


A Fragilidade do Desejo (Re.)

Ele era estagiário, ela, chefe de setor. Ela procurava, ele ardia. Ele desejou aquele corpo de sereia madura, ela aventura. No motel ele desfez-se das vestes e expôs sua nudez sem constrangimento. Ela se despiu em parte. Ele, da piscina, passou a observá-la: canelas finas, ancas largas, diferentes das de sua preferência nas revistas eróticas. Sob o sutiã transparente, os seios, de aréolas e bicos escuros, tentavam escapar. Aquele modelo, de qualidade dúbia, não era o de sua preferência. Ele mergulhou, eternizando os segundo. Ela tentou, em vão, solidificar o vento. Ele se desculpou. Ela pagou a conta. Ele voltou para as suas revistas.

quarta-feira, 20 de abril de 2011


Cadeira de Rodas (Re.)

Doutor, não tente me animar. Da bengala ao par de muletas, convenhamos... Estou regredindo; ou melhor, estou evoluindo para a morte.
Evoluindo para a vida seria da muleta à bengala, da bengala ao andar descompassado, e deste, ao corpo aprumado. Seria admirar as rugas se desfazendo com o tempo, os espaçados fios de cabelos brancos cedendo lugar a uma vasta cabeleira e as varizes sendo desmanchadas da minha anatomia.
Evoluindo para a vida seria sentir os lábios enrijecendo, a arcada dentária se recompondo, e o sexo a me conduzir para fantasias alucinantes. Para mim, evoluir, hoje em dia, seria mudar de corpo, de rosto, de gestos, para melhor, e não, passar a viver na expectativa da mudança do par de muletas para a cadeira de rodas.

quinta-feira, 14 de abril de 2011


Limites (RE)

Sem muita convicção, parei diante do Motel e fitei os olhos de Leila, buscando cumplicidade, no entanto, só consegui um contorcionismo facial que me fez seguir em frente. Aquela situação estava se tornando insustentável e eu, não querendo ultrapassar os limites estabelecidos, há anos, pelo nosso pai, esperava pacientemente por uma volta à infância, onde, apesar da culpa que carregávamos, vivíamos momentos de intensa felicidade.

sexta-feira, 1 de abril de 2011


A música que eu ouvi era antiga, muito antiga, e me remeteu ao passado. Na época em que eu ouvia essa música eu era muito feliz, e imediatamente senti toda aquela felicidade. Essa sensação agradável, como se a vida voltasse a ser o que era, durou muito pouco, e apesar de ter me remetido a um maravilhoso lugar do passado, não foi capaz de me segurar lá, e logo voltei a entrar em contato com a minha dura realidade.

sexta-feira, 11 de março de 2011


O LOBO ENCANTADO (Uma história infantil)

É, parece até mentira, mas um dia chegou uma fada, não se sabe de onde, e encantou o lobo. Ele não sentiu nada quando a fada bateu a varinha nas suas costas, nem a ouviu dizer que ele seria bom e generoso para com os outros animais. Apenas viu algumas estrelinhas coloridas à sua volta e estranhou sua reação diante da fada, ali ao seu lado. Em outras circunstâncias ele teria avançado e talvez resolvido ali mesmo o seu problema de alimentação do dia.
Saiu dali andando calmamente e, ao ver um coelho, não sentiu vontade de caçá-lo. Foi em sua direção, e o coelho, de tanto medo, ficou paralisado, sem forças para correr.
Então o lobo disse:
- Aonde vai meu bom coelhinho?
Os outros animais assistiam a tudo e não acreditavam no que viam.
O coelho abaixou a cabeça e disse em voz baixa:
-Vou ao Sítio do Lago Claro, comer cenouras.
-Você não deve fazer isto, meu filho - disse o lobo - O Sr. Freitas trabalhou muito para plantar as cenouras. Você não pode chegar lá, assim sem mais nem menos, e comer as suas cenouras. Coma essas que estão à sua frente, e comporte-se, meu querido.
Neste momento, apareceu na frente do coelho lindas cenouras, e o coelho foi logo experimentando uma para ver se realmente era verdadeira.
Uma ovelha disse agressiva:
-Lobo, este pasto está uma porcaria. Olha o tamanho do capim!...-
E logo o capim cresceu sem que o lobo precisasse dizer uma palavra. A galinha queria milho e minhoca, e logo foi atendida. Até o Sr. Freitas, aproveitando da generosidade do lobo, pediu uma casa nova para o sítio, com antena parabólica e piscina.
O tempo foi passando e os animais foram perdendo completamente o medo que sentiam do lobo, e passaram a agredi-lo. Se em algum lugar do pasto a grama amarelasse, um pouquinho que fosse, uma ovelha ia lá, pegava o lobo pela orelha e o trazia para mostrar, arrastando o seu focinho na grama para que ele, imediatamente, a fizesse ficar verde novamente. Quando a TV saía do ar, mesmo que o problema fosse da rede de transmissão, lá ia o Sr. Freitas com o seu chicote - coisa que o lobo mesmo fizera aparecer na sua mão - procurar o lobo para consertar. Ninguém demonstrava gratidão pelos serviços prestados pelo lobo, e se acostumaram tanto com as coisas à mão, que o lobo já nem tinha tempo de dormir.
Quando alguns animais, os mais espertos, começaram a usar o lobo para conseguir vantagens sobre os outros, provocando uma brigaiada sem precedentes na história do Sítio do Lago Claro, a fada voltou a aparecer. Bateu novamente a varinha nas costas do lobo e disse, sem que ele ouvisse:
-Infelizmente eu errei. Você vai voltar a ser mau para que os outros animais voltem a serem bons.
O lobo não sentiu nada e só viu umas estrelinhas coloridas à sua volta.
Assim que as estrelinhas sumiram, ele avançou sobre a fada, que desapareceu como fumaça.
Então ele, sorrateiro, tomou os rumos do sítio, escondendo-se entre as folhagens para não ser visto. Estava com muita fome e não se lembrava de nada que havia acontecido.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011


Depois de receber o telefonema de um amigo, marcando um encontro para aquela noite, o rapaz correu até o canto da enorme sala da sua casa, abriu os braços, ficou na ponta dos pés, e depois, com o corpo apoiado em uma das pernas, estendeu a outra para trás. Estendeu também os braços: um para frente e o outro para trás, como se querendo que a ponta da mão esquerda, que estava para frente, ficasse o mais longe possível do pé direito, que estava para trás. Avançou pela sala na ponta dos pés numa sucessão de passos curtos e uniformes. Já quase perto da parede deu um tour em l’air, virando-se novamente para a porta. Depois deu um salto, acompanhado de cruzamentos rápidos e sucessivos das pernas, e correu novamente na ponta dos pés com um braço para a frente e o outro para trás. Seus movimentos eram delicados, e depois de vários baattus, brisées, fonettés, pás de bourrées e releves, olhou para a porta da sala e se deparou com o pai, segurando algumas sacolas de supermercado, olhando-o assustado. Ele também se assustou, e, imediatamente, caminhou com passos firme até a porta para ajudar o pai a levar as compras para a cozinha.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011


A vida é cíclica. Você é feliz, infeliz, extremamente feliz, infeliz, e por aí vai. Nada é eterno. Talvez essa seja a grande mágica para que o ser humano consiga viver nesse mundo louco: um dia feliz, outro dia infeliz.
Felicidade incondicional é impossível, no entanto, a minha grande vontade era a de ser feliz o tempo todo. Já que é assim, o grande lance é você saber que será feliz quando estiver infeliz, e não tentar pensar em infelicidade quando você estiver feliz

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011


Quanto mais os anos passam, mais mortos você visita, e é claro, a gente sempre torce para não ser visitado. Quando eu estou lá, no velório, visitando um desses mortos, sinto que ele se apresenta de uma forma muito esnobe, ali deitado, não participando de nada ao seu redor. Às vezes eu sinto que eles levam certa vantagem sobre as pessoas que li estão, pois, já têm a experiência da morte e as pessoas não. Eles já podem estar envolvidos com outras maneiras de ser, ou com o nada absoluto, com o descanso total, com o descanso que não tem graça.
De certa forma eu prefiro estar ali VIVO, adquirindo mais experiência em vida. Esta é a minha vantagem.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011


As máscaras caíram. Ninguém mais consegue se disfarçar. Cada um é o que é, e jamais aceitará o que se propõe.
Isso seria o princípio de algo verdadeiro que jamais acontecerá. As máscaras jamais cairão, e as pessoas, assustadas, sempre as usarão como uma forma de se protegerem dos outros e de si próprias. Ninguém tem coragem de se aceitar como se é, e as máscaras os ajudam a ser como os outros, que não são o que são.

sábado, 29 de janeiro de 2011

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011


A maioria de nós quer chorar e não consegue. Se isso acontecesse ao mesmo tempo, as lágrimas inundariam o mundo e talvez um grande momento de sensibilidade superaria os momentos de aflição em que vivemos. Eu não consigo chorar, portanto estou predestinado à aflição, mas não fico aflito lá, quieto no meu canto. Tento compartilhá-la com as pessoas que me cercam. Elas que me perdoem!...

domingo, 23 de janeiro de 2011


Imagino-me em um filme, eu o ator, o criador, o diretor. Fácil viver lá dentro. Lá eu não tenho medo, eu represento o medo. Eu posso estar andando nos becos mais sórdidos e de repente ser hostilizado por um grupo de viciados. Minha reação pode ser infinita: Posso me impor, lutar até a morte, posso usar como arma a retórica, depende do texto, posso sair dali sem que ninguém me veja, posso até morrer que nada vai mudar. Eu não vou morrer mesmo. No fim eu troco de roupa e vou-me embora. Se não existisse a morte nós viveríamos eternamente dentro de um filme, sem medo, sem angústia, mas também, o nosso tédio seria bem maior.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011


O tempo tem lá a sua maneira de enganar as pessoas. Distrai-nos com os acontecimentos, os mais maravilhosos ou os mais escabrosos. Nós estamos sempre distraídos com coisas boas e ruins. Enquanto isso o tempo vai passando e quando a gente se assusta, lá se foram os fios de cabelo, os desejos íntimos, e a gente passa a correr com o tempo, agora, conscientes dele, agora, tentando superá-lo, mas sabendo que nada conseguirá dominá-lo