Ilustração: Nerino de Campos
Texto: Nerino de Campos
Subsecretário: Nerino de Campos

quarta-feira, 30 de junho de 2010



PENSAMENTO

Pulga
Paina
Polinésia

Polaina
Polígono
Polimento

Plumas
Pícaro
Amnésia

Paragens
Perdidas
Do pensamento

domingo, 27 de junho de 2010


A CIRURGIA
Desapressado, coloquei o jaleco, a touca verde-clara e sentei-me na poltrona para esperar a maca. Subitamente corri para o banheiro e todos me olharam apreensivos, preocupados com o meu estado emocional, porém, eu só queria me olhar no espelho, e rir. Aquele jaleco, aquela touca, a barba por fazer, me fizeram rir até me mijar todo, dando um grande trabalho às pessoas que me acompanhavam. Elas, solidárias, riam também, sem entender que eu, naquele momento, descia da soberba e me enxergava como realmente sou: um monte de carne podre.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

domingo, 20 de junho de 2010


Você é induzido a mentir como todos mentem, e se não o fizer, estará fora de um mercado próspero, que cresce a cada dia, dando grande conforto aos mentirosos. Você é impingido a fingir, como todos fingem, e este é outro mercado promissor. Você sorri com o canto da boca, meneia a cabeça quando ironiza, disfarça um olhar de desaprovação, cospe em pensamento no rosto de um desafeto, bajula os poderosos, ignora os necessitados, necessita de cada centavo alheio, e justifica tudo isso em nome de uma causa nobre: Acumular o máximo de objetos possíveis, para, no fim, morrer como todo mundo.

quarta-feira, 16 de junho de 2010


A felicidade, quando cai sobre o seu corpo como uma pedra, passa a iludi-lo, causando uma sensação de grande euforia e prazer. Não se iluda: pegue essa pedra, por mais pesada que ela seja e devolva-a para o lugar de onde ela veio. Ela não durará muito tempo mesmo! As duradouras chegam calmamente, como um leve sopro que se transforma em ventania. Essas sim, nos causam prazer, e apesar de não serem eternas, são nossas companheiras, até a chegada da tristeza que cai sobre o nosso corpo como uma pedra, e dura uma eternidade.

sábado, 12 de junho de 2010

quinta-feira, 10 de junho de 2010

sábado, 5 de junho de 2010


Monotonia
O meu trabalho na Secretaria era extremamente monótono e talvez tenha sido este o motivo que me levara a tal comportamento: comecei mudando sistematicamente a bolsa de D. Elvira de lugar. Confesso que ela custou a perceber, porém, a partir do momento da certeza da invasão de sua privacidade, passou a dedicar toda a atenção à bolsa, deixando-me livre para trocar de lugar os seus objetos cotidianos.
Com muita paciência, consegui fazer com que ela valorizasse um clipes sobre a mesa como se valoriza um filho brincando no berço, e se horrorizasse ao vê-lo sobre a cadeira, como se vendo o mesmo berço boiando com a criança sobre um mar revolto.
Sempre que posso, costumo visitá-la no Hospital Psiquiátrico, e por falta de oportunidade, ainda não dei seqüência ao meu trabalho.

quinta-feira, 3 de junho de 2010