Ilustração: Nerino de Campos
Texto: Nerino de Campos
Subsecretário: Nerino de Campos

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Pássaros despencam sobre o asfalto caudaloso. Crianças brincam com vísceras de animais de estimação. Beatas queimam crucifixos para aquecer a sopa. Políticos, desesperados, se penitenciam com correntes de ferro enferrujado. Cão feroz se rende ao carinho de um gato. Crianças se surpreendem com suas súbitas bondades. Ninfetas, insatisfeitas, se organizam para lutar contra a apatia dos idosos. Bebezinhos chorões se calam, causando insegurança a mães aflitas. Gemidos angustiantes determinam que, apesar de as coisas não estarem funcionando de acordo com os padrões normais de comportamento, tudo se resolverá da pior forma.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Sequestrei a mim mesmo e passamos o fim de semana na casinha de praia do meu tio pobre. Alguns caranguejos entraram pelas frestas das tábuas da varanda, me colocando na situação ridícula de subir em uma cadeira e esperar, pacientemente, que eles atravessassem a sala, a procura de alimento. Mais tarde o vento ocupou toda a casinha, e umas latas que ajudavam na proteção do telhado despencaram, fazendo com que todos os outros animais residentes ali participassem dos movimentos da casa. Cumpri pacientemente minha determinação de estar naquela casa, e descobri que, ao contrário do que pensava, não são os monstros da cidade, e sim, os minúsculos animais de pequenos lugarejos que me apavoram.