Ilustração: Nerino de Campos
Texto: Nerino de Campos
Subsecretário: Nerino de Campos

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Lendo alguns axiomas e postulados de Euclides, cheguei à conclusão de que com o óbvio você também consegue ficar famoso. Pelo menos ele ficou: • Coisas iguais a uma terceira coisa também são iguais entre si. • Todos os ângulos retos são iguais entre si. • Se quantidades iguais são subtraídas de coisas iguais entre si, os restos são iguais. • O todo é maior do que a parte. • Pode-se traçar um círculo com qualquer ponto como centro e com qualquer raio. • Acrescentando-se quantidades iguais a coisas iguais entre si, obtêm-se somas iguais. • Pode-se traçar uma reta de qualquer ponto até qualquer ponto. • Qualquer linha reta pode ser prolongada até o infinito. • Coisas que coincidem umas com as outras são iguais entre si. • Dados uma reta e qualquer ponto fora dela, pode-se traçar por este ponto uma reta, e apenas uma, paralela à primeira.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Râs e princesas

Eu me encontrava sozinho em um bar, quando apareceu uma mulher. Ela estava acompanhada. Minha atenção se voltou para ela. No momento em que a vi, achei que sua boca era pequena para o tamanho da testa. Como a sua pele era muito clara e lisa, eu logo ajeitei, na minha cabeça, a sua fisionomia, transformando-a em uma linda mulher. Às vezes a bebida e a solidão nos leva a viver momentos de grande encantamento e o nosso cérebro contribui para isto, transformando rãs em majestosas princesas.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

A mercadoria

Eu transava com uma puta. Acertamos que ela me visitaria todas as quintas-feiras. Ela era mais velha e usava um perfume insuportável. Às vezes o talco que ela passava no pescoço e debaixo do braço misturava-se ao suor, e após endurecer, formava registros indecifráveis no seu corpo. Nós brigávamos por motivos fúteis, mas eu sempre relevava, pois, um homem solitário, sem as duas pernas e a mão esquerda, não tem o direito de exigir nada, nem de uma mercadoria que é comprada para servi-lo.

domingo, 7 de julho de 2013

A linha

Foi numa época, quando eu me encontrava no auge da lucidez, e as pessoas, talvez por não me entenderem, me tratavam com desdém, que eu descobri que o raciocínio tem uma linha. Sabia o que era, mas não sabia explicar. O raciocínio tem uma linha. Você vai seguindo aquela linha, de repente, sai dali e pega outro caminho, deixando para voltar depois, e desse caminho você vai para outro, para outro, para vários outros, e depois volta para a linha principal. Foi nessa época também que eu comecei a não admitir que as pessoas saíssem da linha principal e conversassem comigo fazendo de uma linha secundária qualquer a principal. Eu as entendia perfeitamente na linha principal, por que então a secundária? Para tentar me organizar, passei a escrever sobre a linha principal e as secundárias. Escrevia até andando pela rua, e ia deixando as folhas para trás. Queria entender o raciocínio e queria também que o raciocínio entendesse a minha lógica. É claro que ninguém entendeu nada, e como sempre acontece, as pessoas resolveram me ajudar, como se eu, e não elas, precisasse de ajuda. Minha fragilidade não permitiu que eu reagisse, e hoje, depois de muito tempo internado, já aceito docilmente que as pessoas passeiem livremente pelo meu raciocínio.

sábado, 27 de abril de 2013

A Responsabilidade

A responsabilidade é uma bosta. É claro que todos nós devemos estar atentos para não abusar da falta dela, mas a responsabilidade é castradora. Quanto mais eficiente, quanto mais centrados em coisas inúteis, mais responsabilidade você adquire, e isto não deixa você se movimentar. A responsabilidade é o céu e a falta dela é o inferno. Já virou lugar-comum dizer que o inferno é melhor do que o céu, mas, “Deus que me perdoe”: viva a falta de responsabilidade!

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Dicionário Etmológico Comentado

ALMA - Vem do hebraico ALMI, corruptela de ANIM, sopro, hálito. Tem gente que quando fala, nos mostra o tipo de alma que tem. BUZINA - De BU, corruptela de BO, boi.Antigamente a bucina (buzina) era feita de chifre de boi. Com a evolução da tecnologia, ela não é mais feita de chifre de boi, porém, tocada por muito chifrudo. CANDIDATO - De CanD, branco. Em Roma, os aspirantes a cargos públicos vestiam-se com a TOGA BRANCA. A toga branca, símbolo de limpeza de caráter, foi abolida. IMBECIL - Vem de BEC, corruptela de BAC, cajado. Imbecil significava originariamente “sem bastão”, isto é, fraco, enfermo. Hoje o significado já não é bem este. O fraco e enfermo só é imbecil na hora de pagar a conta do hospital.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Gostosão!

Eu estava sentado num lugar público, observando as pessoas, tentando com isto adquirir inspiração para escrever, quando um homem se aproximou e sentou-se ao meu lado. Vários lugares estavam vazios, no entanto ele sentou-se ao meu lado e passou a me olhar, meio sério, meio rindo, como a expressão da Mona Lisa. Ele se aproximou mais e mais e seu olhar, agora, era de louco, tarado, pederasta, não sei. Depois perguntou-me se eu tinha fogo. Eu disse não, e ele concluiu: bonito o dia, não?, e eu disse não. Ele me olhou enfurecido. Levantou-se e saiu. Eu o acompanhei com os olhos. Ele parou um pouco adiante. Continuou a me olhar. Eu comecei a tremer. Não sei brigar. O homem cuspiu no chão, depois veio se aproximando, chegando o rosto bem perto do meu ouvido. Ele me morderá a orelha, tenho certeza, eu pensei. Tapei bruscamente as orelhas com as mãos, e ainda consegui ouvi-lo dizer: Gostosão!!! Depois disso ele se foi rebolando, e eu, suando, voltei a escrever.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Uma Grande Emoção

A sua chegada não me chamou a atenção, tampouco a estridente campainha da porta da lavanderia me tirou do devaneio proporcionado pelo barulho da máquina, a rodar a roupa, tentando limpar o que a cidade nos proporcionara. Depois de colocar as suas roupas na máquina, ela sentou-se ao meu lado, apesar de várias cadeiras vazias, e ficamos lá, a compartilhar monotonia. De repente, tocou-me de leve a mão, fazendo com que eu, numa atitude inesperada, e até então inédita, cobrisse-lhe a mão com a minha, passando, desde então, a ouvir os sons do seu corpo, até a chegada do meu marido para ajudar-me a levar as roupas e a possibilidade do amor para bem longe dali.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Elas

Ela cabe na palma da minha mão. Tão meiga, tão frágil, no entanto, essa capacidade de despertar desejo, amor. O seu discreto sorriso, a blusa de seda, o perfume impregnado, tudo isso me cativa. Após um longo período em Amsterdam ela voltou, e logo iniciou um processo de reconstrução da vida. Eu fazia parte dos seus planos, pois, me procurou, porém, inexplicavelmente, depois de anos de sofrimento e solidão, ela não me reconquistou, e eu não senti o que senti e sinto até hoje pela fotografia que me fora deixada.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

O Palhaço

O circo está armado. A trapezista, com as mãos banhadas em talco, espera ansiosa pelo início do espetáculo. O palhaço retoca a maquiagem. Já colocou sua gravata. A mulher da corda prepara as crianças para a escola. O palhaço, em breve entrará na jaula dos leões. Ele ajuda o domador e, certamente, tomará algumas chicotadas. Mais um dia se inicia. Este é um retrato do nosso povo...

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Um homem com poderes

Um homem com poderes chegou à cidade. As pessoas que o viram, se renderam à sua força espiritual, e logo a notícia se espalhou, fazendo com que todos fossem para a praça. Eu, segurando na barra da saia de minha mãe, observava, como todos, o homem, a armar uma mesa perto do chafariz. Seus gestos eram ritmados e precisos e o seu rosto expressivo, amedrontava a população. Depois de colocar vários frascos de um remédio milagroso sobre a mesa, não foi necessário discorrer sobre suas qualidade por muito tempo, pois, logo todos se espremiam para conseguir um. Mais tarde, depois de lanchar na casa do prefeito, o homem seguiu enganando, deixando para trás várias pessoas curadas; não por realmente ser milagroso o seu remédio, e sim, pela sua força de expressão e sua capacidade de representar.