Ilustração: Nerino de Campos
Texto: Nerino de Campos
Subsecretário: Nerino de Campos

domingo, 28 de outubro de 2012

Objetos Cotidianos

Eu fiquei com o abajur pequeno, ela com as taças de cristal. Eu com o jogo de toalhas amarelas, ela com o aparelho de chá. Peguei alguns livros que não havia lido e uns CD’s. Ela ficou com o aparelho de som. Na casa nova o abajur sem lâmpada ficou jogado num canto, As toalhas me foram úteis, e os CD’s, sem o aparelho de som, ocupavam espaço na estante empoeirada. Um dia, uma outra chegou. Arrumou a casa toda, trouxe um aparelho de som e alguns pertences que nos foram úteis Estamos vivendo um amor eterno, até quando dividiremos novamente nossos objetos cotidianos.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Camisa de força

Quando eu chegar lá, vão espremer o meu cérebro até produzir máscaras invisíveis, que me auxiliarão na diminuição do próprio prazer, e esta ausência de qualquer coisa me libertará do outro, que exige tanto de mim. Logo estarei curado e então vocês verão como sou dócil, obediente e prestativo. Ficarei assim até que a intransigência alheia me leve novamente para a Camisa de Força.

sábado, 13 de outubro de 2012

Cabeça pensante

Eu me sento, pego uma folha de papel em branco e tento escrever. Não tenho nada na cabeça. Após alguns instantes me vem a palavra “Bolha”. Não é tão difícil escrever sobre uma bolha: Eu lá dentro? Uma bolha se estourando? Uma bolha crescendo sobre o meu calcanhar? As perguntas são muitas e as respostas, quanto mais simples, melhores. Não é difícil escrever sobre nada. Um pé retorcido dá margem a um acidente espetacular. Por trás de uma mosca remexendo as patinhas dianteiras esconde um lindo prato de comida ou uma carcaça de boi apodrecida. Um nariz empinado pode demonstrar orgulho, ou certo defeito físico. Uma cobra rastejando pode estar fugindo de um predador ou deslizando sorrateiramente, prestes a dar o bote em uma indefesa criancinha. Eu não tenho desculpas! A cabeça está sempre cheia de coisas para serem escritas. Se fosse fácil não ter nada na cabeça nós sempre atingiríamos a excelência em meditação.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

O Tempo e o Sonho (fragmento)

José Abascal – peguei esse nome numa agenda espanhola - acorda assustado com o bater de uma porta, justamente quando no sonho ele leva um tiro. Maria Bassas – também da agenda espanhola -, temerosa, pede para que ele faça uma vistoria na casa. Pode ser um ladrão, ela diz. Ele, impaciente, levanta-se e vai olhar. É o vento, ele diz, depois completa: eu estava sonhando e...conta o sonho. Isso já aconteceu comigo. Isso o quê? ele pergunta, e ela descreve um sonho onde cai, e quando bate com a cabeça no chão, acorda com o barulho de um abacate se desprendendo do pé e caindo no telhado. Quem sabe os acontecimentos do sonho caminham de acordo com o barulho que se fará ouvir?, pergunta Abascal. Maria não entende. Se fosse um daqueles sustos, ele diz, que a gente leva de vez em quando, tudo bem, mas o barulho da porta batendo tem que coincidir com o tempo do sonho. Coincidir exatamente! Será que vamos sonhando vagarosamente para que o barulho do tiro coincida com o da porta batendo, como foi no meu sonho? Maria fica pensando... e logo se distrai com a possibilidade de o ladrão já estar dentro da casa.