Ilustração: Nerino de Campos
Texto: Nerino de Campos
Subsecretário: Nerino de Campos

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Meu Avô, Meu Pai e Eu.

Éramos meu pai e eu, a acompanhar o caixão ladeira abaixo, carregado por dois empregados da fazenda; dois miseráveis que o meu avô sugara toda a energia durante a sua existência. Centena de outros miseráveis acompanhavam o cortejo fúnebre de suas casas, atrás das gretas das janelas, temerosos de que o meu avô rompesse a tampa do caixão e voltasse a hostilizá-los como sempre fizera. Ao voltarmos para casa o meu pai olhou, por muito tempo, o lugar deixado por meu avô, até assumi-lo, adquirindo a personalidade perversa que pairava no ar a procura de fragilidade, passando, desde então, a nos hostilizar como era o costume. Hoje o meu pai está sendo sepultado e os miseráveis esperam que eu tome a atitude costumeira, apesar de eu já estar com as malas prontas para, finalmente, seguir o meu destino.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Nudez

Quando eu chegava em casa, ia tirando as peças de roupa e deixando-as espalhadas pelos cômodos, só voltando a me vestir nas raras vezes em que saía novamente. Vivia a maior parte do tempo nua, até o dia em que um homem ligou, descrevendo pormenores da minha intimidade. Temerosa, passei a suspeitar de todos os homens da cidade, no entanto, o homem, arrependido, mandou-me uma carta se desculpando pelas suas fraquezas, prometendo não mais me importunar. Afirmou ter agido daquela forma por não ter encontrado a maneira adequada para dizer que me amava. Eu senti que suas palavras eram sinceras, e aos poucos, voltei a abrir a janela e a procurar nas janelas dos prédios vizinhos algum vulto que o identificasse. Logo voltei a me despir, sem que ele se manifestasse, e hoje, vivo na mais completa solidão.