Ilustração: Nerino de Campos
Texto: Nerino de Campos
Subsecretário: Nerino de Campos

domingo, 26 de fevereiro de 2012


A ONDA GIGANTESCA

Quando Thais acordou, sentiu uma fisgada no joelho, porém, notou que os seus braços estavam engessados, impossibilitando-a de chegar até a perna para se coçar. Olhou para o quarto do hospital, e de barulho, apenas o gotejar de uma torneira vindo de uma porta entreaberta. Havia muitos aparelhos à sua volta, muitos fios e tubos ligados ao seu corpo, todos funcionando em silêncio, tentando mantê-la viva.
Ela não conseguia se lembrar do que acontecera. Não se lembrava e torcia para que ninguém chegasse ali para lembrá-la. No entanto, uma forte dor no pé esquerdo passou a incomodá-la, até fazer com que as lembranças despencassem-lhe sobre a cabeça como uma onda gigantesca, remontando a horrível cena dos bombeiros serrando-lhe as pernas para livrá-la das ferragens do metrô.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012


Uma vagina, ali entre as pernas de uma mulher, num dia qualquer de semana, andando sob um sol forte no centro da cidade, não tem a menor importância, o menor valor, a não ser o de facilitar, a qualquer momento, os incômodos das necessidades fisiológicas. Além disso, uma vagina, numa situação dessas pode até estar suja, às vezes de urina ou mesmo de fezes, quando o papel higiênico não foi usado de forma adequada. Uma vagina, “andando” pelo centro da cidade pode estar sendo ferida por uma minúscula calcinha lilás, que aperta-lhe um dos pequenos lábios, mas dependendo da situação em que se encontra a mesma vagina, num lugar adequado, com a música adequada, com a luz adequada, com os corações pulsando adequadamente, tem uma personalidade tão forte, é tão importante, é tão vigorosa, que dá até vontade da gente se acabar nela.