Ilustração: Nerino de Campos
Texto: Nerino de Campos
Subsecretário: Nerino de Campos

terça-feira, 27 de setembro de 2011


(Re.)
Ela já se foi, só eu permaneço nesta sala imensa, irritado com o eco de pequenos barulhos que faço ao movimentar a perna para evitar dormência. Estou sentado no chão, a contemplar algumas contas do colar que partira na hora da agressão. São falsas contas, como já é falso, há muito tempo, o nosso relacionamento. Eu já não me importo com as suas indiscretas e infrutíferas tentativas de se envolver com a juventude, porém, a juventude tenta discretamente se envolver comigo. Isso faz com que ela adquira, nas suas expressões e atitudes, um desejo de esmagar o mundo, uma necessidade de destruir o belo, uma fúria incontida, que hoje culminou numa cena patética, fazendo com que os convidados, inclusive o pivô da discussão, que eu espero rever em breve, saíssem discretamente, me deixando aqui sentado, tentando gastar, até a última gota, a resistência inata do ser humano de tomar uma atitude quando o assunto é a separação.

terça-feira, 13 de setembro de 2011


(Re.)
Acordo e vou correndo mato adentro de mim mora um anjo feito a cara escarrada do pai nosso que vai dar no fim da linha do trem bom de cama, bom de briga, bom de papo furado, fudido, feito um para o outro lado da cara de pau duro de roer a corda bamba que dorme novamente.

sábado, 3 de setembro de 2011


(Re.)
Todo cagão é responsável. A responsabilidade é mais ou menos como uma rolha. O cagão responsável não caga. Puta que pariu a responsabilidade! Por isso que eu digo que tudo gira em função da nota, da moto, do mato, do pato, contato direto, secreto, sisudo, canudo cabeludo. Os Beatles já foram cabeludos no tempo em que o cabelo deles era pequeno. Eu já tive um saco cabeludo quando tinha apenas três fiapos (dois mais grossos e um fininho).Nessa época eu cuidava deles como se cuida de uma vasta cabeleira. Tudo é uma questão de ponto de vista. Eu não quero dormir nunca mais. Tudo é uma questão de ponto de vista. Preciso de tempo para questionar o ponto de vista. O guarda chuva quebrado na enxurrada não chama a atenção de quem está na chuva pra se molhar. Eu estou na chuva pra me molhar. Há, há, há... grande mentira! Eu nunca fiquei na chuva. Eu nunca me molhei. Eu sou um cagão arrolhado com a responsabilidade. Todo mundo que eu conheço também. Todos cagões, até os irresponsáveis.