Ilustração: Nerino de Campos
Texto: Nerino de Campos
Subsecretário: Nerino de Campos

quinta-feira, 28 de abril de 2011


A Fragilidade do Desejo (Re.)

Ele era estagiário, ela, chefe de setor. Ela procurava, ele ardia. Ele desejou aquele corpo de sereia madura, ela aventura. No motel ele desfez-se das vestes e expôs sua nudez sem constrangimento. Ela se despiu em parte. Ele, da piscina, passou a observá-la: canelas finas, ancas largas, diferentes das de sua preferência nas revistas eróticas. Sob o sutiã transparente, os seios, de aréolas e bicos escuros, tentavam escapar. Aquele modelo, de qualidade dúbia, não era o de sua preferência. Ele mergulhou, eternizando os segundo. Ela tentou, em vão, solidificar o vento. Ele se desculpou. Ela pagou a conta. Ele voltou para as suas revistas.

quarta-feira, 20 de abril de 2011


Cadeira de Rodas (Re.)

Doutor, não tente me animar. Da bengala ao par de muletas, convenhamos... Estou regredindo; ou melhor, estou evoluindo para a morte.
Evoluindo para a vida seria da muleta à bengala, da bengala ao andar descompassado, e deste, ao corpo aprumado. Seria admirar as rugas se desfazendo com o tempo, os espaçados fios de cabelos brancos cedendo lugar a uma vasta cabeleira e as varizes sendo desmanchadas da minha anatomia.
Evoluindo para a vida seria sentir os lábios enrijecendo, a arcada dentária se recompondo, e o sexo a me conduzir para fantasias alucinantes. Para mim, evoluir, hoje em dia, seria mudar de corpo, de rosto, de gestos, para melhor, e não, passar a viver na expectativa da mudança do par de muletas para a cadeira de rodas.

quinta-feira, 14 de abril de 2011


Limites (RE)

Sem muita convicção, parei diante do Motel e fitei os olhos de Leila, buscando cumplicidade, no entanto, só consegui um contorcionismo facial que me fez seguir em frente. Aquela situação estava se tornando insustentável e eu, não querendo ultrapassar os limites estabelecidos, há anos, pelo nosso pai, esperava pacientemente por uma volta à infância, onde, apesar da culpa que carregávamos, vivíamos momentos de intensa felicidade.

sexta-feira, 1 de abril de 2011


A música que eu ouvi era antiga, muito antiga, e me remeteu ao passado. Na época em que eu ouvia essa música eu era muito feliz, e imediatamente senti toda aquela felicidade. Essa sensação agradável, como se a vida voltasse a ser o que era, durou muito pouco, e apesar de ter me remetido a um maravilhoso lugar do passado, não foi capaz de me segurar lá, e logo voltei a entrar em contato com a minha dura realidade.