Ilustração: Nerino de Campos
Texto: Nerino de Campos
Subsecretário: Nerino de Campos

sábado, 27 de novembro de 2010

quinta-feira, 18 de novembro de 2010


Essa vida é muito ingrata. Nós, os poderosos, acumulamos grandes fortunas e no final fica tudo para os outros. É sempre uma grande alegria conviver com o dinheiro, com o poder; comprar estabilidade, pessoas, bens materiais, mas é, ao contrário, desanimador morrer e ter que começar tudo do zero na outra vida. Se é que há outra vida! É duro constatar, mas o certo é que o dinheiro pode comprar um bom caixão, mas não garante um bom lugar no céu.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010


Primeiro, a sensação agradável de um casal na cama, depois um espermatozoide sendo jogado, entre milhares, dentro de um canal. Um deles, como os outros, caminha apressado sem saber por que. Continua correndo, disputando com todos os outros, não se sabe o quê. Finalmente ele, só ele, entra em um lugar gelatinoso, aconchegante, que se fecha às suas costas. O lugar é confortável e logo acontecem várias transformações, até que um de nós saia, dilatando uma fenda secretante, e depois de algum tempo já estamos disputando, agora, dinheiro, poder, correndo para chegar ao topo, não se sabe de onde, com a esperança de, no fim, entrarmos num lugar claro, aconchegante, e finalmente encontrarmos a tão sonhada paz eterna. Ou não!

sexta-feira, 5 de novembro de 2010


Mesmo após a nossa separação ela continuava a me controlar. Sua presença era constante na minha vida e isso não deixava de ser uma forma de controle. Eu tentava me esquivar, sumia por uns tempos, mas ela sempre conseguia me encontrar. Nós não nos encontrávamos fisicamente. Ela aparecia, ora em um prato que eu pedia em um restaurante, ora na imagem de uma atriz famosa, ora emitindo seu cheiro no corpo de outra pessoa qualquer. Até na graça de um inocente cachorrinho de rua, que ela tanto gostava, aparecia para me controlar,
Um dia nós nos encontramos, Ela estava feliz, não sei por que, e eu, sofrido, não me expus. Ela me falou de sua vida, de seus projetos, e eu me senti tão insignificante diante daquela exuberância toda que descobri, naquele momento, que aquela solidão cósmica, aquela presença constante de um ser inexistente, só eu sentia, e que o melhor que eu tinha a fazer era aceitar a derrota e me iniciar novamente na arte da conquista, para, no fim, me envolver novamente com o fardo da separação.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010