Ilustração: Nerino de Campos
Texto: Nerino de Campos
Subsecretário: Nerino de Campos

segunda-feira, 30 de agosto de 2010


Da Lágrima à Extraventura

Sonhei com a frase: “Da Lágrima à Extraventura”. No sonho não me envolvia numa história. Levantei-me e anotei a frase. Já acordado, apoiando a cabeça no almofadão do quarto, e na penumbra, vi uma linda mulher chorando pelos cantos da casa. Seu marido a traía. Ela descobrira a pouco e isso a tornava muito infeliz.
Enquanto eu a observava, tocou a campainha. Era o entregador da farmácia. Ele era jovem, limpo, até bonito. Ela, depois de conversar um pouco sobre coisas triviais o levou para o quarto. O fato de ela ter transado na cama que vivera bons momentos com seu marido a excitou bastante.
Depois foi o entregador de pizza, o da lavanderia, o técnico em informática, até o jovem louro do Pet Shop. O tempo foi passando e ela mal se lembrava das infidelidades do marido.
Eu, satisfeito com o desfecho da história, joguei o almofadão para o canto e voltei a dormir.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

sábado, 21 de agosto de 2010


Solidão da Solidão
Eu não agüentava mais o meu chulé; não por não lavar os pés, e sim por não ter ninguém para lavar as minhas meias, as minhas cuecas, as calças e camisas. Eu não agüentava mais tomar sopa, comer sanduíche, andar amarrotado. Não agüentava a poeira ultrapassando os limites dos cantos dos móveis, as panelas engorduradas, acumulando moscas, a cama eternamente por fazer, e as toalhas.... Eu não agüentava viver a solidão da solidão, e num momento inesperado, Dona Ruth voltou para pegar alguns pertences que deixara para trás, e depois de inspecionar a casa, e de se sensibilizar com a minha postura carente, resolveu retornar ao trabalho, exigindo, obviamente, um melhor salário.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010


Eu sempre fui apegado às coisas. Primeiro foi a chupeta. Chupava aquilo como se fosse um peito leitoso. Fui crescendo e não largava o vício. Depois foi a bola, que mesmo depois de furada ainda levou bons pontapés. Depois os soldadinhos de chumbo, as figurinhas, os patins, as bicicletas, as luvas de boxe. Quando cresci fui apegado às mulheres, ao dinheiro, carros, viagens, orgias e boa comida. Destruí muita gente para conquistar tudo isso, e agora, luto desesperado para me desapegar de um câncer que se apossou a mim.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010


Eu pareço uma pessoa séria. Devido a esta aparência, todos me respeitam e eu dou grande valor a isto. Ninguém sabe quem sou eu. Esta aparência austera esconde uma certa insegurança. Eu jamais revelarei meus sentimentos mais íntimos. No fundo, atrás da aparência, está um homem comum, que se sensibiliza e chora, sem que ninguém perceba, ao assistir a um filme onde é negado um osso a um cachorrinho vira-lata.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010











Eu já fui jovem e a lembrança disso é nostálgica e grandiosa. Quando me lembro é como se só eu tivesse sido jovem, e através disso levasse uma grande vantagem sobre todas as outras pessoas, apesar de todas elas terem sido também. A juventude é uma dádiva, uma benção, e quando a gente está vivendo esta época, não dá o menor valor. Não existe mérito em ser jovem ou velho, e sim, a sensação agradável de sentir toda a falta de responsabilidade que a juventude nos trás.