Ilustração: Nerino de Campos
Texto: Nerino de Campos
Subsecretário: Nerino de Campos

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010


Caneta preta, caneta grossa, caneta azul, caneta fina. Lapiseira de ponta fina, lapiseira de ponta grossa, teclado, tudo serve, contanto que as ideias cheguem em algum lugar. Palavras, prismas, produtos, prosperidade, prospectos, prazer. Cada coisa com o seu sentido. Cada palavra com seu significado:
INSÍGNIA: Condecoração que se dá a mortos-vivos.
Estabilidade: posição alcançada quando você perde o entusiasmo para viver.
JUÍZO: Uma conquista pós-adolescência que o torna um chato.
JULGAR: Definir coisas ou pessoas como se estivéssemos nos definindo.
PARTICIPAR: Entrar em diversas situações, querendo ou não.
REORGANIZAR: Bagunçar tudo de novo.
INSINUAR: Fingir que você não disse alguma coisa, quando realmente você não disse.
E assim vai...

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010


Uma velhinha, acompanhada por duas pessoas, saía de um restaurante. Ela olhava para o vazio e aquela cena me deprimiu. As pessoas, geralmente acham que o velho incapaz precisa sair de casa para se distrair. Não é verdade. O velho incapaz quer carinho dentro de casa, de preferência que não saia nunca, mas que o carinho que receba o coloque, de uma certa forma, em contato com o mundo.. As pessoas oferecem o passeio com tanto entusiasmo que eles não são capazes de negar. Logo nós seremos os velhos incapazes e sentiremos na pele a falta de noção de quem só quer ajudar.

domingo, 5 de dezembro de 2010


Eu parei de fumar. Isso há uns quinze anos. Não tive grandes problemas ao parar. Não fiquei parando mensalmente, passando para todos um atestado de fraqueza. Resolvi e pronto! Eu estou dizendo isso porque ontem, depois desse tempo todo, senti uma grande necessidade de fumar novamente. A tarde estava linda e eu me sentei em um banco da praça para admirar a natureza. Faltava-me companhia e o cigarro, certamente, cumpriria esse papel.
Foi apenas fogo de palha, e eu, mais só do que antes, pois agora, também sem o cigarro, fiquei lá, até que a escuridão acabasse com aquela felicidade toda.

sábado, 27 de novembro de 2010

quinta-feira, 18 de novembro de 2010


Essa vida é muito ingrata. Nós, os poderosos, acumulamos grandes fortunas e no final fica tudo para os outros. É sempre uma grande alegria conviver com o dinheiro, com o poder; comprar estabilidade, pessoas, bens materiais, mas é, ao contrário, desanimador morrer e ter que começar tudo do zero na outra vida. Se é que há outra vida! É duro constatar, mas o certo é que o dinheiro pode comprar um bom caixão, mas não garante um bom lugar no céu.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010


Primeiro, a sensação agradável de um casal na cama, depois um espermatozoide sendo jogado, entre milhares, dentro de um canal. Um deles, como os outros, caminha apressado sem saber por que. Continua correndo, disputando com todos os outros, não se sabe o quê. Finalmente ele, só ele, entra em um lugar gelatinoso, aconchegante, que se fecha às suas costas. O lugar é confortável e logo acontecem várias transformações, até que um de nós saia, dilatando uma fenda secretante, e depois de algum tempo já estamos disputando, agora, dinheiro, poder, correndo para chegar ao topo, não se sabe de onde, com a esperança de, no fim, entrarmos num lugar claro, aconchegante, e finalmente encontrarmos a tão sonhada paz eterna. Ou não!

sexta-feira, 5 de novembro de 2010


Mesmo após a nossa separação ela continuava a me controlar. Sua presença era constante na minha vida e isso não deixava de ser uma forma de controle. Eu tentava me esquivar, sumia por uns tempos, mas ela sempre conseguia me encontrar. Nós não nos encontrávamos fisicamente. Ela aparecia, ora em um prato que eu pedia em um restaurante, ora na imagem de uma atriz famosa, ora emitindo seu cheiro no corpo de outra pessoa qualquer. Até na graça de um inocente cachorrinho de rua, que ela tanto gostava, aparecia para me controlar,
Um dia nós nos encontramos, Ela estava feliz, não sei por que, e eu, sofrido, não me expus. Ela me falou de sua vida, de seus projetos, e eu me senti tão insignificante diante daquela exuberância toda que descobri, naquele momento, que aquela solidão cósmica, aquela presença constante de um ser inexistente, só eu sentia, e que o melhor que eu tinha a fazer era aceitar a derrota e me iniciar novamente na arte da conquista, para, no fim, me envolver novamente com o fardo da separação.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

quarta-feira, 27 de outubro de 2010


Lendo alguns axiomas e postulados de Euclides, cheguei à conclusão de que com o óbvio você também consegue ficar famoso. Pelo menos ele ficou:

• Coisas iguais a uma terceira coisa também são iguais entre si.
• Todos os ângulos retos são iguais entre si.
• Se quantidades iguais são subtraídas de coisas iguais entre si, os restos são iguais.
• O todo é maior do que a parte.
• Pode-se traçar um círculo com qualquer ponto como centro e com qualquer raio.
• Acrescentando-se quantidades iguais a coisas iguais entre si, obtêm-se somas iguais.
• Pode-se traçar uma reta de qualquer ponto até qualquer ponto.
• Qualquer linha reta pode ser prolongada até o infinito.
• Coisas que coincidem umas com as outras são iguais entre si.
• Dados uma reta e qualquer ponto fora dela, pode-se traçar por este ponto uma reta, e apenas uma, paralela à primeira.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010


Você já parou para pensar no quanto insignificante você é? Não estou dizendo no seu quarto, na sua casa, na sua rua, no seu bairro, na sua cidade, no seu estado, no seu país, no mundo.
Estou dizendo no universo. Você não é nada, não sabe de nada. Sabe aquela verdade absoluta que você sempre defendeu com intransigência, como fato consumado? Não é nada diante da imensidão do desconhecido, portanto, coloque o rabo entre as pernas, saia da soberba e tente entender, pelo menos, o que você está fazendo no mundo, no seu país, na sua cidade, no seu bairro, na sua rua, na sua casa, no seu quarto, na sua vida.

domingo, 17 de outubro de 2010


Eu matei uma formiga. Não me senti forte, nem poderoso; aliás, no exato momento, nem pensei no ato de estar matando uma insignificante formiguinha, mas logo essa atitude irracional me levou a pensar no ser humano, na sua capacidade de destruir o belo. As coisas são tão perfeitas, por que nós resolvemos acabar com tudo? Quando o homem descobriu o verbo, o fogo, a roda, não imaginava que isso, um dia, faria dele um monstro poderoso, capaz de destruir tudo, inclusive a si próprio. A partir daí o desenvolvimento humano, a evolução, o seu progresso tecnológico foi todo adquirido através de guerras e destruições. O tacape, a flecha, o canhão, o avião, os foguetes, tudo foi inventado pelo homem com a intenção de dominar outros homens. Eu, como resultado de tudo isto, fiquei olhando aquela formiga caminhando sobre a escrivaninha de tampo de vidro. Ela rodeou o teclado, passou sobre a agenda preta e veio em minha direção. Eu estiquei o dedo indicador da mão direita, posicionei-o um pouco acima e desci com força, esmagando-a no vidro. Só depois de praticar esse ato covarde foi que eu percebi que viver é uma aventura para todos nós, e eu, irracionalmente, acabei com a aventura daquela formiguinha. É claro que ninguém vai aceitar, mas viver é uma aventura também para uma barata.

domingo, 3 de outubro de 2010









Conversa Com Fantasmas
Hilário caminhava gesticulando, conversando com fantasmas, e ao perceber a comicidade de seu comportamento, ao falar alto e dar braçadas, como se conversando com alguma matéria sólida ao seu lado, imediatamente passou a batucar na perna, fingindo acompanhar a música que passara a cantar, porém logo voltou a conversar, e os fantasmas, não agüentando aquela atitude insólita, se debandaram, deixando-o apavorado no meio da avenida diante de um enorme caminhão que se aproximava em alta velocidade.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010


O dique transbordou, despejando sobre os meus pés a lama que eu acumulara durante todos esses anos. Eu não tenho consciência do que realmente aconteceu, mas as pessoas que cuidaram de mim dizem que o processo foi longo e dolorido. Como eu não me lembro de dor e sofrimento, logo iniciarei um novo processo de acumulação de lama, até que o dique transborde novamente. É na lama que eu consigo me situar melhor.

domingo, 19 de setembro de 2010


Indiferença
O bar, o seu dono e todos os seus freqüentadores eram da favela. O dono do bar gostava de Mozart e tinha uma reprodução de Toulouse Loutrec na parede. Por dentro do balcão, feito com restos de madeira de obras da cidade havia alguns livros que o dono do bar gostava de folhear. Ao anoitecer ele servia cachaça, ao som de Mozart para fregueses indiferentes, que sequer olhavam para a reprodução de Toulouse Loutrec.
O dono do bar também não se interessava muito pelas coisas dos seus fregueses, porém se sentia ofendido quando carregava na maquiagem para agradar e era tratado com a mesma indiferença que os frequentadores dispensavam à obra de Loutrec.

terça-feira, 14 de setembro de 2010


Além de sangue, sistema vascular, músculos estriados, plexo braquial, artérias, pleura diafragmática, brônquio principal, pericárdio fibroso e outras coisas, o coração guarda também a capacidade de nos iludir com relação ao amor, pois, o amor é traiçoeiro, astuto, falso, matreiro. Esconde a pele do lobo numa capa de cordeiro.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

domingo, 5 de setembro de 2010





CONSTRUÇÃO
Com
Ponho
Tiro
Rasgo
Risco
Rio
Mio
Pio

Com
Primo
Salto
Alto
Solto
Sinto
Dez
Afio

Com
Tudo
Fico
Cego
Fico
Surdo
Fico
Mudo

Com
Pleto
Com
Dizente
Com
Cludente
Com
Tagio

segunda-feira, 30 de agosto de 2010


Da Lágrima à Extraventura

Sonhei com a frase: “Da Lágrima à Extraventura”. No sonho não me envolvia numa história. Levantei-me e anotei a frase. Já acordado, apoiando a cabeça no almofadão do quarto, e na penumbra, vi uma linda mulher chorando pelos cantos da casa. Seu marido a traía. Ela descobrira a pouco e isso a tornava muito infeliz.
Enquanto eu a observava, tocou a campainha. Era o entregador da farmácia. Ele era jovem, limpo, até bonito. Ela, depois de conversar um pouco sobre coisas triviais o levou para o quarto. O fato de ela ter transado na cama que vivera bons momentos com seu marido a excitou bastante.
Depois foi o entregador de pizza, o da lavanderia, o técnico em informática, até o jovem louro do Pet Shop. O tempo foi passando e ela mal se lembrava das infidelidades do marido.
Eu, satisfeito com o desfecho da história, joguei o almofadão para o canto e voltei a dormir.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

sábado, 21 de agosto de 2010


Solidão da Solidão
Eu não agüentava mais o meu chulé; não por não lavar os pés, e sim por não ter ninguém para lavar as minhas meias, as minhas cuecas, as calças e camisas. Eu não agüentava mais tomar sopa, comer sanduíche, andar amarrotado. Não agüentava a poeira ultrapassando os limites dos cantos dos móveis, as panelas engorduradas, acumulando moscas, a cama eternamente por fazer, e as toalhas.... Eu não agüentava viver a solidão da solidão, e num momento inesperado, Dona Ruth voltou para pegar alguns pertences que deixara para trás, e depois de inspecionar a casa, e de se sensibilizar com a minha postura carente, resolveu retornar ao trabalho, exigindo, obviamente, um melhor salário.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010


Eu sempre fui apegado às coisas. Primeiro foi a chupeta. Chupava aquilo como se fosse um peito leitoso. Fui crescendo e não largava o vício. Depois foi a bola, que mesmo depois de furada ainda levou bons pontapés. Depois os soldadinhos de chumbo, as figurinhas, os patins, as bicicletas, as luvas de boxe. Quando cresci fui apegado às mulheres, ao dinheiro, carros, viagens, orgias e boa comida. Destruí muita gente para conquistar tudo isso, e agora, luto desesperado para me desapegar de um câncer que se apossou a mim.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010


Eu pareço uma pessoa séria. Devido a esta aparência, todos me respeitam e eu dou grande valor a isto. Ninguém sabe quem sou eu. Esta aparência austera esconde uma certa insegurança. Eu jamais revelarei meus sentimentos mais íntimos. No fundo, atrás da aparência, está um homem comum, que se sensibiliza e chora, sem que ninguém perceba, ao assistir a um filme onde é negado um osso a um cachorrinho vira-lata.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010











Eu já fui jovem e a lembrança disso é nostálgica e grandiosa. Quando me lembro é como se só eu tivesse sido jovem, e através disso levasse uma grande vantagem sobre todas as outras pessoas, apesar de todas elas terem sido também. A juventude é uma dádiva, uma benção, e quando a gente está vivendo esta época, não dá o menor valor. Não existe mérito em ser jovem ou velho, e sim, a sensação agradável de sentir toda a falta de responsabilidade que a juventude nos trás.

sábado, 31 de julho de 2010


quarta-feira, 28 de julho de 2010


É... O mundo vai girando e a gente passando junto. É uma imensidão desconcertante, assustadora, e se a gente estiver sem dinheiro para pagar as contas, esse mundo, essa imensidão perde por completo a importância. Portando, o ser humano, aqui nesse mundinho insignificante, sem dinheiro para pagar as contas, não se assusta com a imensidão do universo. A máquina está enferrujada, não funciona, e os bichos da ferrugem atacam, atacam e você lá, deitado com as mãos apoiando a cabeça, olhando para a imensidão do universo sem perceber que existe a imensidão do universo.

sábado, 24 de julho de 2010

quinta-feira, 22 de julho de 2010

sábado, 17 de julho de 2010

quinta-feira, 15 de julho de 2010


O Braço
Foi uma brusca freada, e eu, da varanda, de rosto franzido e olhos fechados, esperei por intermináveis segundos até que o carro parasse, e justamente neste espaço de tempo, ouvi um barulho seco, compacto, vindo do telhado, como se um saco de farinha tivesse sido jogado ali.
Olhei para cima e do lugar onde me encontrava vi apenas alguns dedos transpondo a quina da calha. Peguei rapidamente a escada e subi, na tentativa de salvar aquela criatura, porém, em cima do telhado só havia um braço acompanhando aqueles dedos inertes.
Desesperado, olhei para a rua e gritei, chamando as pessoas que pareciam procurar algo ao redor de um corpo já coberto com folhas de jornal.

domingo, 11 de julho de 2010

quarta-feira, 7 de julho de 2010

sábado, 3 de julho de 2010


Desconforto
Na parede, amarelado sob uma moldura rota, o meu retrato, quando jovem, inspira mais respeito do que esse caco na cadeira de balanço, a forçar a perna num movimento ritmado, como se amenizando a eterna estagnação existente na casa. Até a mosca, que entrou fazendo três ou quatro visitas de inspeção em pontos distintos da sala, preferiu o caco ao retrato emoldurado, causando-me um profundo desconforto.

quarta-feira, 30 de junho de 2010



PENSAMENTO

Pulga
Paina
Polinésia

Polaina
Polígono
Polimento

Plumas
Pícaro
Amnésia

Paragens
Perdidas
Do pensamento

domingo, 27 de junho de 2010


A CIRURGIA
Desapressado, coloquei o jaleco, a touca verde-clara e sentei-me na poltrona para esperar a maca. Subitamente corri para o banheiro e todos me olharam apreensivos, preocupados com o meu estado emocional, porém, eu só queria me olhar no espelho, e rir. Aquele jaleco, aquela touca, a barba por fazer, me fizeram rir até me mijar todo, dando um grande trabalho às pessoas que me acompanhavam. Elas, solidárias, riam também, sem entender que eu, naquele momento, descia da soberba e me enxergava como realmente sou: um monte de carne podre.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

domingo, 20 de junho de 2010


Você é induzido a mentir como todos mentem, e se não o fizer, estará fora de um mercado próspero, que cresce a cada dia, dando grande conforto aos mentirosos. Você é impingido a fingir, como todos fingem, e este é outro mercado promissor. Você sorri com o canto da boca, meneia a cabeça quando ironiza, disfarça um olhar de desaprovação, cospe em pensamento no rosto de um desafeto, bajula os poderosos, ignora os necessitados, necessita de cada centavo alheio, e justifica tudo isso em nome de uma causa nobre: Acumular o máximo de objetos possíveis, para, no fim, morrer como todo mundo.

quarta-feira, 16 de junho de 2010


A felicidade, quando cai sobre o seu corpo como uma pedra, passa a iludi-lo, causando uma sensação de grande euforia e prazer. Não se iluda: pegue essa pedra, por mais pesada que ela seja e devolva-a para o lugar de onde ela veio. Ela não durará muito tempo mesmo! As duradouras chegam calmamente, como um leve sopro que se transforma em ventania. Essas sim, nos causam prazer, e apesar de não serem eternas, são nossas companheiras, até a chegada da tristeza que cai sobre o nosso corpo como uma pedra, e dura uma eternidade.

sábado, 12 de junho de 2010

quinta-feira, 10 de junho de 2010

sábado, 5 de junho de 2010


Monotonia
O meu trabalho na Secretaria era extremamente monótono e talvez tenha sido este o motivo que me levara a tal comportamento: comecei mudando sistematicamente a bolsa de D. Elvira de lugar. Confesso que ela custou a perceber, porém, a partir do momento da certeza da invasão de sua privacidade, passou a dedicar toda a atenção à bolsa, deixando-me livre para trocar de lugar os seus objetos cotidianos.
Com muita paciência, consegui fazer com que ela valorizasse um clipes sobre a mesa como se valoriza um filho brincando no berço, e se horrorizasse ao vê-lo sobre a cadeira, como se vendo o mesmo berço boiando com a criança sobre um mar revolto.
Sempre que posso, costumo visitá-la no Hospital Psiquiátrico, e por falta de oportunidade, ainda não dei seqüência ao meu trabalho.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

sexta-feira, 28 de maio de 2010

/>Cheguei até a janela. As nuvens borbulhavam e eu previ o caos lá fora também. Voltei para o quarto e comecei a limpar o sangue na cama. Quanto mais eu tentava limpar, mais espalhava sangue pelo lençol, colcha e travesseiros. De repente, ela saiu do banheiro. Parara de chorar e logo me olhou sorrindo. Depois embolou tudo que estava sobre a cama, colocou num canto do quarto, cobriu a cama com um lençol novo que pegara no armário, deitou-se e ficou a me esperar, agora, já com um sorriso de mulher.

quarta-feira, 26 de maio de 2010


Poder
Segui o rebanho. Quando assustei estava preso a pequenos delitos e logo me incorporei a eles, como todos fazem. A partir daí, minha carreira deslanchou. Como se chutando folhas secas para abrir o caminho, fui eliminando obstáculos, até que ninguém mais, de sã consciência, ousou interferir no destino traçado por mim, porém, uma prostitutazinha de quinze anos, fruto de uma aventura inconsequente, apoiada por participantes de uma organização internacional, resolveu me enfrentar no parlamento, trazendo-me para esta cela especial da Polícia Federal.

domingo, 23 de maio de 2010

terça-feira, 18 de maio de 2010


O Celestial Sorriso da Ira
Mascando sal, subi a ladeira até o fundo do poço, encontrando pedras moles que espremi tirando gotas de madeira. Distraído, deitei-me num campo coberto de formigas e fiquei a pintar jabutis. O sol queimava-se no belo horizonte (argh!) e eu me aqueci com um cobertor de vidro. Quando o pássaro chegou, com o seu lindo bastão de calha, tive de atirar, matando-me para a sorte. Sem coragem de me penitenciar, contraí um dos meninos e corri até onde o alcance da vista superou, obtendo informações da jovem quadrúpede. Mais tarde, quando as bolhas se desfizeram em advertências, suportei todas as inconfiabilidades, até pisar em uma cabeça de mármore gelatinosa. Foi assim que o tubo de sabão de pedra escorregou entre a vasta cabeleira de um eunuco, trazendo para o meu lado o arrependimento de não ter sabido dominar o impulso da degustação. Quando a brasa da manhã ardia com a lua, mastiguei dois pedaços de lente embaçada e me vi trincado entre a necessidade de expandir e o desejo de desvirtuar. O sentido de observação se aprimorou, e eu consegui saltar o riacho, mas logo me deparei com dois demônios brancos, que me propuseram: um, uma orla semi-poluída, e outro um arquétipo de nó. Tentando entender melhor aquele trovão, cortei uma das orelhas de um crocodilo e costurei-a no rabo de uma cotovia, que gritou até estilhaçar a já sensível camada que protege a terra das tormentas boreais. A partir de então, só quem não se dava com cadeira de balanço, conseguia argumentar com o celestial sorriso da ira. Quanto mais se eletrificava o desejo de reagir, mais correlação de sulco escorria pelos dedos calosos. A bolha, agora, estendia-se pelo travesseiro e dominava grande parte do esôfago. Nada que se tentasse, com relação ao prosaico mundo das traineiras, seria compensador, uma vez que o manicômio estava restrito a benditos eclesiásticos.

domingo, 16 de maio de 2010

quarta-feira, 12 de maio de 2010

sábado, 8 de maio de 2010

quarta-feira, 5 de maio de 2010


MOTO-CONTÍNUO

Cada macaco no seu galho,
Cada galho na sua árvore,
Cada árvore no seu chão,
Cada chão na sua terra,
Cada terra no seu sistema solar,
Cada sistema na sua galáxia,
Cada galáxia a sua Via Láctea,
Cada Via Láctea na cabeça de cada um,
Cada um na sua casa,
Cada casa com seus carros,
Cada carro com seu dono,
Cada dono com seus problemas,
Cada problema com seu bobo,
Cada bobo como um macaco no seu galho,
Cada galho...

sábado, 1 de maio de 2010

quinta-feira, 29 de abril de 2010

BANANAS


terça-feira, 27 de abril de 2010


Um homem sentado em um banco da praça, à direita do que eu me encontro, olha para o céu. Já há algum tempo ele permanece assim e eu procuro algum motivo que o leve a olhar para lá. Não há nuvens nesse momento, nem pássaros, nem aviões. Só existe o azul que nós dois olhamos. Será que nós vemos o mesmo azul? Quem me garante que o azul, o meu azul, o azul que eu conheço não é o vermelho para esse homem? Só nós dois é que sabemos. Ninguém jamais viu o meu azul, nem o azul dele. O meu azul não pode ser o meu vermelho para ele? Pode ser, e como ele só tem a referência de azul como o meu vermelho, se maravilha ao olhar par o céu que eu estou dizendo azul, azulzinho, enxergando vermelho, vermelhinho. Nós nunca vamos saber se estamos enxergando as coisas da mesma maneira, se as formas e as cores são as mesmas, mas o certo que vamos sentindo, vivendo, enxergando como se tudo fosse absolutamente igual para todos. Eu estou satisfeito com as core que vejo, e ele? Talvez o seu azul seja marrom escuro e ele esteja achando tudo maravilhoso. ARG!

sábado, 24 de abril de 2010

quarta-feira, 21 de abril de 2010

sexta-feira, 16 de abril de 2010

terça-feira, 13 de abril de 2010


Hoje eu estrufo e o pegudo que escopeu no carito contanta conta que até acorto ompelou com o imbuco. Se não furno com o pélago, te apegava de tirança e logo caremaga com a pecita no cardobo do pibo.

sábado, 10 de abril de 2010




terça-feira, 6 de abril de 2010



Consolidação

Hoje o arbusto curvou-se diante da necessidade de se costurar medidas de suficiência.
Hoje, ademais, se consolidou também a caracterização do desejo.
Diante de todos os fatos oníricos captados pela manhã, premeditou-se o sofrimento, todavia, andaremos fingindo estabilidade.
Hoje, para justificar a bondade que se acumulou nos processos de rejuvenescimento aleatório, pede-se que se ouça aquele grito de indignação obtusa.
Hoje, para melhor dizer, é de se imaginar que nada faltará, além do nada já existente.
O absurdo do desejo incontrolado, incontido, contestado, não retribuído, me leva a concluir que o dia de hoje só existirá para os outros.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

terça-feira, 30 de março de 2010

sexta-feira, 26 de março de 2010

terça-feira, 23 de março de 2010

domingo, 21 de março de 2010

sábado, 20 de março de 2010

terça-feira, 16 de março de 2010

sexta-feira, 12 de março de 2010

quarta-feira, 10 de março de 2010

sexta-feira, 5 de março de 2010

terça-feira, 2 de março de 2010


Ser mascote parecia ser a sina do amolador. Ele mascotava sempre que amolava e tudo o que era feito com boa intenção era reconhecido por um único homem: o empreendedor, que vivia dizendo ao mascote para estudar, estudar, estudar, até perder um pedaço da capacidade de raciocínio e concentração. Depois ele deveria aprender a sorrir com o canto da boca para que todas as pessoas aceitassem os seus argumentos, sua arrogância, suas mentiras e hipocrisias, e que, só assim, ele deixaria de ser um mascote e viraria um verdadeiro amolador que amola.Seria uma dura empreitada, mas o mascote amolador estava decidido a abrir mão de várias situações de prazer para que, um dia, conseguisse alcançar o seu objetivo, que era o de virar um amolador que amola. Aí, sim! Tudo partiria dele.

sábado, 27 de fevereiro de 2010



A cassiterita é uma coisa que costuma aparecer na cabeça da gente sem que se saiba sequer o seu formato, a sua cor. É claro que depois se descobre que é um mineral óxido de estanho (SnO2), geralmente opaca, sendo translúcida quando em pequenos cristais, com cor púrpura, preta, castanho-avermelhada ou amarela. Cristaliza no sistema tetragonal, com hábito prismático ou piramidal, mas quando a gente assusta, tá com isto na cabeça, porque a cabeça, às vezes, fica vazia e vai dando aquele branco, e não vai saindo nada, e vai dando uma raiva porque todo mundo deveria ter boas idéias o tempo todo, e não somente quando está fazendo uma caminhada numa trilha, sem caneta e sem papel, e dá vontade de escrever numa folha de árvore com um graveto, mas isto é outra história, que não será contada hoje. Por isso que eu digo: quem nasceu para pé de cabra, pé de chinelo, pé de ouvido, pé de moleque, pé de briga pé de galinha, pé de pato, pé chato, pé de porco, nunca chega a mão leve, mão boba, mão mecânica, mão estendida.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010




Sim

— Sim — eu disse, diante da insistência de Helenice por uma resposta, mesmo que negativa.
Eu não queria ter dito sim, eu não deveria. Estava me odiando naquele momento por ter pronunciado aquela palavra. Até aquele momento eu não sabia que ainda restava algo entre nós, que me levara a dizer aquilo.
— Então eu vou desfazer as malas — ela disse, arrastando duas enormes malas para o quarto.
Eu aceitei a minha derrota e fiquei um bom tempo fumando na sala, remoendo mágoas, e quando ela me pediu, ainda do quarto, para que eu guardasse as malas vazias, enquanto tomava um banho, senti um princípio de ereção, e poucos minutos depois, me despi e passei a esperá-la deitado na cama.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

domingo, 14 de fevereiro de 2010

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010


Um dia nascendo sem nada de novo. Um homem morrendo, matando o seu povo, uma chuva forte, um sol que atrapalha, um grito de morte, possessão que valha. Um momento alegre passa sem se ver, pra uma vida breve, basta se nascer. Um dedo indicando qualquer coisa errada, um sábio chorando por não saber nada Um burro pastando, um rato a roer. Um boi ruminando pra poder viver. E o mundo girando, querendo girar. E os homens passando sem querer passar.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

sábado, 30 de janeiro de 2010


Um velho marinheiro, todo tatuado no braço esquerdo, navegava na calçada da Rua Prudente, quando foi abordado por um grumete, companheiro de várias jornadas. O grumete apresentou-lhe à família. Sua mulher, de nome Shirley, era baixa, pernas grossas, lisas e claras, peitos redondos e o braço também muito liso. O marinheiro olhou-a com requintes de lascívia e depois foi apresentado ao filho mais velho, que era a cara do grumete. O segundo filho, não tinha luz própria, e o terceiro, distraído, não levantou a cabeça para cumprimentá-lo.
Quando a família se foi o marinheiro continuou a caminhar, e na Rua 31, entrou numa portinha e subiu as escadas que davam para a casa das putas louras. Lá em cima ele pegou a primeira loura que encontrou, uma mulata forte, e levou para o quarto. Ela tirou a roupa e ele ficou olhando-a por alguns minutos. Depois, se despiu e subiu em cima dela. A loura fingia gostar, fingia sentir prazer, e o marinheiro tanto fez, tanto beijou, tanto chupou, tanto trepou que ela acabou gostando e acabou dando um grande berro na hora de gozar. Quando terminaram, o marinheiro disse que, para conseguir uma performance como aquela, pensara na mãe; não que quisesse comer a mãe, e sim nas maldades que a mãe lhe fizera quando criança. Disse também que pensou numa baixinha, de nome Shirley, que tinha a pele muito lisa e um ar de respeitabilidade.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

sábado, 23 de janeiro de 2010

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010


Um homem
E seu instrumento,
Tocando...
Tocando cabra,
Galinha,
Botando ovo
Mal passado,
Atrasado,
O último
Da classe média
De café com leite
Desnatado,
Suado, molhado
De chuva
Fina flor da
Sociedade anoni
Mas olhando
Para o grande
Espetáculo
Que o
Respeitável público
Passa todo sujo,
Deixando um rastro
de Lama
atrás de si


Mifu nesta história
De contar
Pra todo mundo
Que ó...ó...ó...
Acabou!

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

domingo, 10 de janeiro de 2010


Eu tenho vários amigos. É gente de todo tipo, alguns esquisitos, mas são amigos: Um não gosta de pobre. De tanto eu dizer que pobre é gente, ele continua não gostando, mas agora sente pena. Outro não gosta de preto. Não gosta mesmo! Nem de japonês, nem de argentino. Acha que tem que matar todos eles. Outro é negro e não gosta de não ser gostado, e por isso, não gosta também de branco. Outro gosta de futebol e acha que o resto é bobagem. Outro; esse é um cara legal, é economista, só gosta de dinheiro e não gosta de futebol, negro, pobre, cachorro, arte, cultura. Não sei como que ele gosta da sua mulher. Outro é esnobe, mas não tem capacidade de esnobar. Tem um que se veste bem e vive se olhando no espelho. Outro tem vergonha do lugar onde mora. A outra usa saia curta e tem ódio quando alguém olha para o seu joelhão. A velha se pinta toda para parecer que tem a idade que tem. Um, de boa caligrafia, sai rabiscando o seu nome por muros e portões. Outro, muito forte e boa praça, quando dá um tapinha nas costa de alguém, costuma quebrar-lhe a clavícula. Tem ainda um que é mesquinho, avarento, usura, esconde as coisas dos outros. De manhã custa a cagar, porque a bosta significa um saco de ouro. À noite custa a dormir porque o sono é perda de tempo, e tempo é dinheiro. Outro, o normal, entra e sai sem que ninguém note e tem o gracista, que só consegue arrancar gargalhadas dele próprio.
ARG, IRG, URG.
E tem eu!

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010


Eu estou impressionado! Sempre achei que era brincadeira, mas com um pouco de papo e tato, descobri que é sério mesmo. Buaaaaaaaaaa... Vou vomitar! Uma receita: Duas colheres de vômito (o resto do vômito, aquele que sai queimando), uma meleca das grandes, uma xícara de bosta mole e meio litro de xixi da primeira hora, que cheira mais forte. Bater tudo no liquidificador e servir em taças de Cristal da Boêmia. ELES MERECEM!

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

terça-feira, 5 de janeiro de 2010


A vida tem ido bem, apesar dos atropelos. Ontem eu fui atropelado por uma jamanta. Não foi nada grave. Fiquei sem três dedos do pé esquerdo, sem o pé direito (para ser mais preciso, da canela para baixo), sem o rim direito, perfurado pelo pára-choque da jamanta e uma parte da orelha, também direita. Como no atropelamento de anteontem eu já havia perdido a orelha esquerda, não liguei muito porque deu um certo equilíbrio no meu rosto sem nariz.
Parece mentira, mas a sorte, apesar de tudo isto, tem sorrido para mim. Outro dia eu estava andando na rua e olhei, sem querer, para uma janela, e lá estava ela, sorrindo, Ria que se mijava toda, e eu, meio encabulado, comecei a rir também: Há,há,há,há,há,há,há,há...Quaaa quaaa, quaaa, há,há,há,há,há,há.
Fiquei lá, parado, rindo e quando eu percebi que ela não estava rindo para mim, e sim rindo de mim, veio uma Kombi e PUFT! Fiquei sem quatro dentes da arcada superior direita e um bago, o esquerdo. O chato é que quando eu me acostumo a andar mancando, nasce novamente o pé. Quando eu me sinto feliz por não ter mais que cheirar a podridão espalhada no ar, nasce novamente o nariz.
A vida e cheia de perdas e ganhos.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

domingo, 3 de janeiro de 2010