sábado, 7 de junho de 2025

 

Ponto de vista

            Eu estraguei a minha mocidade. Pelo menos foi o que muitos disseram. Com muito esforço tentei ser livre, apaixonado por coisas e pessoas. Dei muitos pontapés em pedras. Tentei, de todas as maneiras não me deixar ser aviltado. Paguei um preço por isso, mas tive coragem.
            Hoje eu tenho muitas histórias para contar, e quem não estragou a sua mocidade, são, até hoje, uns chatos como sempre foram.

 

quarta-feira, 4 de junho de 2025

 

Quinze minutos de fama

            Uma tartaruga pousou na minha mente. Não sei se veio voando ou se navegando. Não senti o seu cheiro, nem o peso do seu casco - a mente nos libera disso.
            A tartaruga está aqui dentro, tentando os seus quinze minutos de fama.


domingo, 1 de junho de 2025

 

Firmeza de conduta

            Eu não crianço com pessoas de bar. Nem adulto com personalidades. Eu não consenso com ignorantes, não creio com delirantes, não consumo com inconstantes, nem me estanco quando quero voar.

quarta-feira, 28 de maio de 2025

 

A lesma

            A lesma é sóbria no caminhar. Parece que caminha para cumprir uma nobre missão. Ela anda e deixa sua marca gosmenta, como se anunciando a sua intenção.

quarta-feira, 21 de maio de 2025

 

Citadino

            O fio costura o pássaro de um poste a outro. Tudo me remete a postes, prédios, prostitutas, plugs. Não consigo abstrair-me para árvores, vento, céu azul, rios, pedras. Hoje eu me sinto excessivamente citadino.

sábado, 17 de maio de 2025

 

O intruso

            Garrafas vazias sobre a mesa ainda desarrumada de ontem. Sobraram alguns copos com restos de vinho e pratos por lavar. Foram muitas conversas desagradáveis, outras sensatas, até instrutivas. Ninguém admitiu o seu erro.
            Ela discorreu sobre seus sonhos.
            Ele, suas necessidades prementes.
            Ela tentou seduzi-lo.
            Ele não se interessou.
            Ela se desinteressou.
            Ele quis.
            Ela chorou baixinho.
            Ele a acariciou e cobrou atitude.
            Ela se descabelou, o estapeou.
            Ele sentiu prazer.
            Ela não notou.
            Ele falou difícil
            Ela fingiu não entender.
            Ele, orgulhoso, sorriu com ironia.
            Ela sentiu pena dele.
            Ele insistiu nas questões pessoais.
            Ela falou de questões ancestrais.
            Ele pediu um prazo.
            Ela aceitou.
            Ele sentiu-se leve e livre.
            Ela, confiante e só.
            Ele tentou recuar.
            Ela fincou o pé na decisão.
            Ele bebeu, fumou, ficou mudo.
            Ela fingiu o controle de tudo.
            Um inseto veio ajudar.
            Chegou sem cerimônia, embaralhando os pensamentos.
            Eles se uniram na caça ao intruso.
            Correram, bateram, se distraíram.
            Tomaram mais vinho, se abraçaram, riram.
            Ela se entregou.
            Eles se entregaram.
            Ele deu tudo de si, se empenhou.
            Ela gostou de ter ido e ficado.
            Ele jurou redobrar o cuidado.

quarta-feira, 14 de maio de 2025

 

Eu já posso pegar fogo

            Soltei uma formiga de um arranha-céu. O arranha-céu era o meu corpo
com o braço levantado. A formiga caiu no chão e saiu andando calmamente.
            Eu já posso pegar fogo. As formigas sobreviverão.

sábado, 10 de maio de 2025

 

O princípio e o fim

            Éramos eu e a minha mulher. Tínhamos afinidades intelectuais, afetivas, corriqueiras, sexuais, e vivíamos no Olimpo. Isso é importante dizer: vivíamos no Olimpo e ninguém seria capaz de nos afetar. Isso durou por muito tempo, muitos anos, mas cumplicidade, felicidade e alegria não são eternas, e um casal tem que se reciclar. Se viverem eternamente num paraíso não evoluirão, não alcançarão os níveis mais elevados, não acumularão riquezas e objetos como todos fazem.

            Então tudo que alcançamos por mérito próprio, por termos sensibilidade e disposição para o belo, o amor, terminou em uma grande confusão, onde imperou o ódio, o ciúme, a inveja, e nós, de braços dados com o egoísmo e a mentira, finalmente conseguimos nos tornar o que todos são.

quarta-feira, 7 de maio de 2025

 

    Sobre a existência do tempo

            O tempo é sólido na aparência, enigmático no pensamento, repugnante no outro, invejável no novo e inexistente na alma.       

domingo, 4 de maio de 2025

 

Conceito e lama

         Atento às insignificâncias, me desprendi do conchavo com as aparências e me joguei, viajando por bilhões de anos luz, sempre observando conceitos espúrios, e quando voltei, enlameado daquilo tudo, consegui entender que, conceito e lama andam de braços dados, e que conchavo e aparência nos transformam naquilo que os outros querem que a gente seja.

         

sexta-feira, 25 de abril de 2025

 

Suporte da natureza

            Quando criança eu fui galho. O passarinho que eu treinei para pousar sobre mim foi o responsável. Quando galho eu era fulgurante. Ia para o mato e ficava lá, dando suporte à natureza.

quinta-feira, 17 de abril de 2025

 

Perdemos o perônio

            O perônio foi praticamente abolido do vocabulário médico. Foi substituído pelo termo “fíbula”. Como que alguém pode tirar de circulação um nome tão imponente, com tanta personalidade? 
            PERÔNIO!
            Quando eu era criança, lembro-me bem, tive um amigo que, numa queda de uma escada, fraturou a tíbia e o perônio. Ele ficou tão orgulhoso de ter fraturado esses dois ossos, de nomes tão pomposos, que me influenciou, e eu virei o seu porta-voz, ao anunciar para todos da escola que ele havia fraturado a tíbia e o perônio. Coitada das crianças de hoje, que, levando um tombo da escada, fraturarão as inexpressivas tíbia e a fíbula.
           Perdeu a graça.

domingo, 13 de abril de 2025

 

O Amolador

            Não quero amolação. Ninguém quer. Eu amolo às vezes, sem perceber que estou amolando. Só depois, quando a coisa passa, e eu consigo relaxar, é que percebo. Aí já amolei, como um amolador amola uma faca ou um tesoura. Ele mutila alguns objetos para dar excelência no resultado de seus usos. O amolador nunca percebe que está amolando uma faca, mas a faca percebe, pois, apesar de ficar brilhante e com um corte magnifico, perdeu alguns gramas do seu peso. Com o tempo ela vai afinando, afinando. Isso não é bom. Mas a faca também amola. Que o diga o porco, a galinha... 

domingo, 6 de abril de 2025

 

Não pensar

            Hoje eu não quero pensar em nada. Não quero pensar em tempestade, nem em água fresca. Não quero pensar em morte, em vida, em sorte. Não quero pensar em mulher, em sexo, nem pensar em união. Não quero pensar em multidão, nem pensar em solidão. Não pensar em comunhão, nem pensar em satisfação. Nada de ciclovia, tampouco condução. Não quero pensar em cotovia, nem pensar em acomodação.
            Não quero pensar que não quero pensar.
            Não consigo.
            Vou tomar outro conhaque.

sábado, 29 de março de 2025

 

Pronto

Polípono,  polónopo,  patílogo

 Pecípito, podúboro, paléfico.

 Precípito, prontísquo, presépilo

Prismálogo, prontívoro, pronto!

quarta-feira, 26 de março de 2025

 

Isca de peixes

            A minhoca é inofensiva. Não tem o veneno da abelha, nem a picada da formiga. Ela só revolve a terra para que as plantas nasçam exuberantes. Com aquele seu gênio manso serve também para cobrir o anzol como isca para peixes.

quarta-feira, 19 de março de 2025

 






A bailarina da caixa de música

                     A bailarina da caixa de música esvoaça pelo ambiente. A música pode
ser a mesma de toda a vida, no entanto, única e prazerosa. A barra da saia da
bailarina já está gasta pelo atrito com a caixa, porém, a delicadeza de seus
movimentos a torna passarinho.

sexta-feira, 14 de março de 2025

 

O cisco

            Tudo tem o seu valor, até um cisco insignificante, principalmente se ele estiver alojado no olho de uma pessoa. Ele pode leva-la ao hospital ou acabar com a alegria de muita gente. Pode impossibilitar um presidente de pronunciar o seu discurso, ou fazer com que um motorista encoste o seu carro no acostamento; isso se ele já não tiver causado um grande acidente. O cisco tem seu valor. Um cisco tem sua importância. Eu sou um cisco. Talvez o cisco do cisco, se comparado à grandeza do universo.

            A terra é um cisco, e eu, na terra, sou insignificante. É tão difícil aceitar a nossa insignificância, mas com o passar do tempo você vai virando um cisco verdadeiro, um cisco com significado, daqueles que exigem e incomodam: o verdadeiro cisco no olho.

sábado, 8 de março de 2025

 


A festa no céu

            A gaivota mergulha e bica o peixe, antes que este coma outros peixes. O urubu brilha nas alturas procurando podre. Andorinhas bailam, ao entardecer, consumindo insetos. A festa no céu anda de braços dados com a carnificina do existir.

domingo, 2 de março de 2025

 

Nádegas

            As nádegas são mais solenes do que as bundas. Determinaram que bunda é vulgar e nádega, não. Há mulheres que não têm bunda, têm nádegas. O que elas têm não tem volume, não tem o poder de uma bunda. A função da bunda é a de despertar desejos, encantos, além de proporcionar à sua proprietária mais conforto ao sentar-se. E só! Para o homem a bunda da mulher não tem outra função senão a de despertar desejo e de sentar.

            A nádega não encanta, é só a falta de bunda, que se apropriou de um nome pomposo que pode ser dito em solenidades.