Ponto
de vista
Hoje eu tenho muitas histórias para contar, e quem não estragou a sua mocidade, são, até hoje, uns chatos como sempre foram.
Ponto
de vista
O
intruso
O
princípio e o fim
Éramos
eu e a minha mulher. Tínhamos afinidades intelectuais, afetivas, corriqueiras,
sexuais, e vivíamos no Olimpo. Isso é importante dizer: vivíamos no Olimpo e
ninguém seria capaz de nos afetar. Isso durou por muito tempo, muitos anos, mas
cumplicidade, felicidade e alegria não são eternas, e um casal tem que se
reciclar. Se viverem eternamente num paraíso não evoluirão, não alcançarão os
níveis mais elevados, não acumularão riquezas e objetos como todos fazem.
Então
tudo que alcançamos por mérito próprio, por termos sensibilidade e disposição
para o belo, o amor, terminou em uma grande confusão, onde imperou o ódio, o ciúme,
a inveja, e nós, de braços dados com o egoísmo e a mentira, finalmente
conseguimos nos tornar o que todos são.
Conceito e lama
Atento às insignificâncias, me desprendi do conchavo com as aparências e me joguei, viajando por bilhões de anos luz, sempre observando conceitos espúrios, e quando voltei, enlameado daquilo tudo, consegui entender que, conceito e lama andam de braços dados, e que conchavo e aparência nos transformam naquilo que os outros querem que a gente seja.
Perdemos o perônio
O
Amolador
Não quero amolação. Ninguém quer. Eu amolo às vezes, sem perceber que estou amolando. Só depois, quando a coisa passa, e eu consigo relaxar, é que percebo. Aí já amolei, como um amolador amola uma faca ou um tesoura. Ele mutila alguns objetos para dar excelência no resultado de seus usos. O amolador nunca percebe que está amolando uma faca, mas a faca percebe, pois, apesar de ficar brilhante e com um corte magnifico, perdeu alguns gramas do seu peso. Com o tempo ela vai afinando, afinando. Isso não é bom. Mas a faca também amola. Que o diga o porco, a galinha...
Não
pensar
O cisco
Tudo
tem o seu valor, até um cisco insignificante, principalmente se ele estiver
alojado no olho de uma pessoa. Ele pode leva-la ao hospital ou acabar com a
alegria de muita gente. Pode impossibilitar um presidente de pronunciar o seu
discurso, ou fazer com que um motorista encoste o seu carro no acostamento;
isso se ele já não tiver causado um grande acidente. O cisco tem seu valor. Um
cisco tem sua importância. Eu sou um cisco. Talvez o cisco do cisco, se
comparado à grandeza do universo.
A terra é um cisco, e eu, na terra, sou insignificante. É tão difícil aceitar a nossa insignificância, mas com o passar do tempo você vai virando um cisco verdadeiro, um cisco com significado, daqueles que exigem e incomodam: o verdadeiro cisco no olho.
Nádegas
As nádegas são mais solenes do que as bundas.
Determinaram que bunda é vulgar e nádega, não. Há mulheres que não têm bunda,
têm nádegas. O que elas têm não tem volume, não tem o poder de uma bunda. A
função da bunda é a de despertar desejos, encantos, além de proporcionar à sua
proprietária mais conforto ao sentar-se. E só! Para o homem a bunda da mulher
não tem outra função senão a de despertar desejo e de sentar.
A
nádega não encanta, é só a falta de bunda, que se apropriou de um nome pomposo
que pode ser dito em solenidades.