sexta-feira, 29 de agosto de 2025

 

Buraco sem volta

            A tendência é de que a idiotização da humanidade venha a piorar ainda mais, como vem piorando através dos séculos. A tecnologia, os meios de comunicação, usados com sabedoria, são muito eficientes para ajudar o homem na sua jornada, como na medicina, na agricultura, mas a internet, com todo o seu poder de comunicação, veio para normalizar a vulgaridade e a estupidez, e sem sombra de dúvidas está levando a humanidade para um buraco sem volta.

quarta-feira, 27 de agosto de 2025

 

A nuvem

            Todos viam aquela nuvem. Era um pássaro perfeito. Entre os que viam
estava uma criança que acreditava ver o que todos viam, só que ela não via
o pássaro formado pela nuvem, e sim, um lindo pássaro voando perto de uma nuvem perene

sábado, 23 de agosto de 2025

 

A Lua

            A Lua virou cachorra. Já não tem dentes, não enxerga, nem ouve. Quando aponta no corredor, parece um bichinho de corda. Seu contato com o mundo se dá através do tato e do olfato. Ao perceber carinho, abana lentamente o rabo, apoia a cabeça sobre a minha perna, fecha os olhos e volta a encantar o céu.

terça-feira, 19 de agosto de 2025

 

O suicida

            Se você for se suicidar, escolha um dia nublado, já que exercerás um ato lúgubre. Não escolha um dia de sol, onde os pássaros cantam e as crianças brincam no parquinho. Não incomode os transeuntes, caindo de um prédio como um saco de farinha. Tenha dignidade na hora da morte. Se possível seja reservado: esfaqueie o seu pescoço no banheiro e se esforce para não emitir gemidos.

sexta-feira, 15 de agosto de 2025

 

Os sapatos

            Finalmente ele deitou com os sapatos. Era tão limpo, tão higiênico, nunca imaginou que um dia o colocariam ali deitado, de mãos postas, cheio de flores ao redor, e os sapatos emergindo entre rosas, crisântemos, margaridas e copos-de-leite. Nesse momento ele ainda carregava, na sola dos calçados, as manchas das sujeiras da cidade

sábado, 9 de agosto de 2025

 

O rol dos que não queriam e não foram

            Olha, eu não quero entrar para a Academia Brasileira de Letras. Vários escritores já disseram isso e acabaram entrando, outros, não. Outros vários fizeram de tudo, até se humilharam tentando uma vaga e não conseguiram.
            Eu sei que não vou entrar nunca, mas uma coisa eu garanto: acabo de entrar, em vida, para o seleto rol dos que não queriam e não foram.

quarta-feira, 6 de agosto de 2025

 

Bom senso e senso comum

            O senso está nas duas frases, mas com sentidos antagônicos.
            O bom senso denota equilíbrio, sensatez, não aceita bestamente os absurdos que o mundo lhe proporciona.
            O senso comum faz com que o indivíduo siga ao sabor das correntes, no fluxo, de acordo com as mazelas que a vida lhe oferece, sem refletir com profundidade sobre as questões às quais são envolvidos.

sábado, 2 de agosto de 2025

 

Brincadeira de pássaros

         Os pássaros utilizam-se do vento para brincar com o sol e encantar o céu, ofuscando a vista de quem quer se intrometer.

quarta-feira, 30 de julho de 2025

 

Esconderijo de peixes

            Joguei uma pedra no lago. O lago sorriu em ondas e acolheu a pedra. A pedra deixou de sustentar sapos para virar esconderijo de peixes.






sábado, 26 de julho de 2025

 

Os relógios

            Os relógios de antigamente eram mais difíceis de serem consultados. Ou você comprava um, que era bem caro, mesmo os mais vagabundos, ou andava sempre perguntando as horas aqui e ali. Nessa época também podia-se usar o relógio d’água, o relógio de areia, o relógio das flores de Petrópolis, que eu já utilizei diversas vezes.
            Hoje o relógio está em todo lugar: no rádio, na TV, no celular, nos pontos de ónibus. Isso priva o ser humano da doce ilusão de que o tempo, como antigamente, andava devagar, e que a morte ia custar a chegar.

domingo, 20 de julho de 2025

 

O diabo e o bom Deus

            O diabo saiu de cena. Ninguém mais o teme como antigamente. Hoje todos temem a Deus, como se Ele fosse vingativo e mau. Se Ele é todo amor, jamais castigará alguém. O diabo, aproveitando dessa mudança de foco, foi para os púlpitos disseminar o preconceito, o ódio, o medo, a descriminação.

terça-feira, 8 de julho de 2025

 

Benesses

            A minha impossibilidade de participar das benesses que o mundo oferece, torna-me um desajustado, desanimado, demasiado insano. Claro que esse insano foi colocado aqui para quebrar essa necessidade de produzir, sonoramente, musicalidade no texto.
            Mas voltando às benesses oferecidas pelo mundo, o que estou recebendo atualmente são afagos no ego, que não me levarão a lugar nenhum.
            Tudo desabou. Eu já não sou mais aquele que acredita em Papai Noel. O bom velhinho morreu e eu estou aqui sem ter para onde ir. Já não sigo com entusiasmo. A realidade flechou em mim.

sábado, 5 de julho de 2025

 

Fantasmas pelados

            Os fantasmas sempre aparecem vestidos de branco, esvoaçantes, envoltos em uma fumaça meio imperceptível.
            Eu acho que lá no reino fantasmagórico, como eles já se livraram da existência aqui na terra, deveriam andar todos pelados, pois, não faz sentido flanar vestidos entre uma investida e outra, no seus propósitos de intimidar. E tem uma coisa: se eles viessem pelados assustariam muito mais.

quarta-feira, 2 de julho de 2025

 



O homem do prato

            Na orquestra o homem do prato é um sujeito de personalidade. Exerce a sua função de incomodar como o boxeador, que dá socos, joelhadas, pontapés e cotoveladas no saco de pancadas. Que diacho o levou ali, extirpando o tímpano da plateia e de todos as membros da orquestra?

sábado, 28 de junho de 2025

 

Os mapas da vaca

            Eu me abstraí nas manchas dos pelos das vacas. Quantos continentes existem ali, como num mapa mundi, disfarçando as picanhas, as costelas, as fraldinhas e as maminhas, que logo serão destrinchadas.

segunda-feira, 23 de junho de 2025

 

A cidade me violentou

            Hoje eu não passarinho, nem árvoro, nem sonho. Hoje eu concreto, eu carro, eu congestiono. Não porque quero, e sim, porque a cidade me violentou.

quarta-feira, 18 de junho de 2025

 

Brincos de ouro

            Brincos de ouro enfeitam orelhas perecíveis. Orelhas perecíveis mutilam-se para suportar brincos de ouro. No fim as orelhas enfeitam o caixão. Os brincos de ouro ficam guardados. As orelhas, sem os brincos, dão sentido anatômico ao rosto do morto. Quem perde um brinco de ouro se desespera. Quem perde a cabeça vai preso.

sábado, 14 de junho de 2025

 

Começar de novo

                        O mundo está tão incompreensível que eu sempre coloco minhas observações negativas a respeito. Um dia, se algum sobrevivente achar essas observações boiando dentro de uma garrafa em um mar revolto, pode me achar pessimista, porque, quem conseguir sobreviver à grande catástrofe que está por vir, terá uma fase gloriosa, até se esquecer de todo o infortúnio e começar todo o processo de destruição novamente.

quinta-feira, 12 de junho de 2025

 

Semáforo

            O menino, de face arregalada, brilha com o semáforo ao entardecer. Ele pede, o outro ordena, e os passantes sorriem o amarelo da luz do semáforo que acaba de se acender.

sábado, 7 de junho de 2025

 

Ponto de vista

            Eu estraguei a minha mocidade. Pelo menos foi o que muitos disseram. Com muito esforço tentei ser livre, apaixonado por coisas e pessoas. Dei muitos pontapés em pedras. Tentei, de todas as maneiras não me deixar ser aviltado. Paguei um preço por isso, mas tive coragem.
            Hoje eu tenho muitas histórias para contar, e quem não estragou a sua mocidade, são, até hoje, uns chatos como sempre foram.