quarta-feira, 30 de outubro de 2024

 

Aparência

         Eu pareço uma pessoa séria. Devido a esta aparência, todos me respeitam e eu dou grande valor a isto. Ninguém sabe quem sou eu. Esta aparência austera esconde uma certa insegurança. Eu jamais revelarei meus sentimentos mais íntimos. No fundo, atrás da aparência, está um homem comum, que se sensibiliza e chora, sem que ninguém perceba, ao assistir a um filme onde é negado um osso a um cachorrinho vira-lata.

sábado, 26 de outubro de 2024

 

A árvore do conhecimento

         A árvore do conhecimento era a macieira. Era proibido comer a fruta que ela nos proporcionava, apesar de ela produzir uma fruta muito palatável. Nós preferimos o conhecimento à possibilidade da vida eterna. Preferimos o conhecimento a ficarmos babando bestamente num lugar maravilhoso, sem saber o que se passava ao nosso redor.

         Foi daí que vieram os desejos inalcançáveis, as futricas, a necessidade de ser mais, a inveja, mas tudo com muita intensidade. E no meio de tudo isso eu já não sei o que seria melhor: viver eternamente o gozo da alienação ou conviver com a burrice do mundo à nossa volta.

terça-feira, 22 de outubro de 2024

 

Dívidas

        Um grande feito não é não dever nada a ninguém, e sim, não se preocupar com isto. Eu estou me referindo à dívidas porque hoje ouvi alguém dizer essa frase: “Não devo nada a ninguém”.  

        Ninguém tem que se vanglorias por não dever nada a ninguém. Isso seria a regra: ninguém deveria dever nada para aos outros. Mas a vida não é assim. Todos devem, até os bancos, com seus juros e taxas mirabolantes nos devem, e eu, quando não estou devendo, me sinto tão seguro que logo adquiro uma nova dívida pra me sentir incluso na honrosa casta dos devedores. 

sábado, 19 de outubro de 2024

 

O relógio

            O relógio está sempre trabalhando, sempre cumprindo a sua missão de determinar as horas. Trabalha como o pulsar dos nossos corações.

            Nós sentimos o coração batendo e às vezes é assustador. Dá vontade de pegá-lo no colo, cuidar dele, que bate incansavelmente, sem trégua, há vários anos.

            Só que o relógio está ali para determinar as horas, e nós, com nossos corações pulsantes, estamos sempre tentando nos livrar delas.

quarta-feira, 16 de outubro de 2024

 

Imaginação

        Na sombra da memória vejo com dificuldade. São fleches de luz insinuando partes do seu corpo e da sua personalidade. Ela ainda não se apresentou. Me irrito! Não estou aqui para brincar de esconde-esconde num lugar escuro desse.

sábado, 12 de outubro de 2024

 

A fila anda

            Os jornais estão acabando. Daqui a pouco não serão mais publicados. O dinheiro, notas e moedas – quem diria? – também estão. É difícil encontrar troco, pois a maioria das transações são feitas de maneira virtual.

            Daqui a pouco o dinheiro, as bancas de jornais, os bancos, serão uma saudade, ou um alívio, como nós nos sentimos aliviados com o fim das máquinas de datilografia, os mata-borrões, os orelhões e as lanternas à pilha.

            Tudo isso perdeu a função prática, mas apesar do alívio, continuam tendo um lugar na nossa afetividade.

quarta-feira, 9 de outubro de 2024

 

Doce ilusão

            A felicidade, para uma criança, está em empurrar o carrinho do outro. Para um menino isso basta. Depois, quando você já não consegue empurrar o fracasso da sua vida, volta a ser criança e passa a empurrar os carrinhos dos outros. Falsas conquistas, doce ilusão.

sábado, 5 de outubro de 2024

 


Discutindo a relação

            Um casal vivia brigando por causa dos outro. Um dia eles resolveram pensar um pouco nos motivos dessas brigas e passaram a noite discutindo a relação. Ele dizia (sobre ele) que iria mudar, e que nunca mais iria mastigar apenas vinte e uma vezes ao dar uma garfada. Ela, vegetariana, gostou da promessa, e ele continuou dizendo (sobre os outros), que quando alguém insinuasse que ele estava sendo traído, não iria se importar, nem levaria essa negatividade para as discussões noturnas. Ela, por sua vez, disse (dela) que iria parar de se esfregar no almofadão da sala, deixaria de exigir que ele urinasse sentado para não sujar a tampa do vaso e nunca mais pediria roupa emprestada à mulher do seu amante.

quarta-feira, 2 de outubro de 2024

 

A ousadia

            A ousadia é um comportamento transgressor que, para o ousado, é só uma maneira de ser coerente num mundo completamente descompromissado com os indivíduos que o habitam.

sábado, 28 de setembro de 2024

 

As moscas

            Na sala vazia uma mosca voa zumbindo, acompanhada de várias mosquinhas silenciosas, refletidas no espelho trincado.

quarta-feira, 25 de setembro de 2024

 

Translado

O caixão, descendo no elevador, levava o defunto aprumado. Foram tantos anos sucumbindo até chegar ali; de terno, sapatos engraxados, e aquelas flores querendo devorá-lo. Pareciam antecipar a função dos germes.

Foram tantos anos sucumbindo até chegar ali, e naquele momento, as flores, algumas já despedaçadas sobre o morto, de pé, dentro do elevador, ainda procuravam a claridade.

O morto, indiferente, seguia em frente, sem se importar com o fato de que logo seria esquecido.



sábado, 21 de setembro de 2024

 

Ignorância

            Quanto mais conhecimento, maior o horizonte da ignorância. Eu procuro o conhecimento, mesmo sabendo que no fundo o que estou procurando é a comprovação de que realmente eu não sei de nada.

quarta-feira, 18 de setembro de 2024

 

Corpo presente

            A missa de corpo presente é o derradeiro compromisso do defunto. Uns odeiam. Custaram a chegar ali e ainda têm esse compromisso. Outros, os que queriam continuar aqui, tentam aproveitar o máximo desse momento de badalação.

sábado, 14 de setembro de 2024

 

Carências

        Um homem sem dinheiro, um carrapato sem vaca, uma pulga sem cachorro, um rato sem lixo, um verme sem cadáver, uma planta aquática sem lago, uma minhoca sem terra, uma abelha sem flor, um peixe sem rio, uma baleia sem mar.

        Não sejamos limitados, isso não é o fim do mundo.

        Um homem pode muito bem viver sem dinheiro. Troque de lugar com a coruja. Você não se interessará por dinheiro e será muito mais inteligente.

        Na falta de lixo os ratos poderiam limpar as cidades dos vômitos dos indignados.

        Os carrapatos podem procurar o cavalo em vez de vaca, e as pulgas, um gato.

        Os vermes podem comer os mortos-vivos pelas beiradas, e as minhocas, tentar a areia.

        As abelhas, os restos de Coca-Cola espalhados nas mesas de bar.

        Os peixes podem procurar os aquários, e as baleias os museus arqueológicos.

        Para tudo há uma solução.

quarta-feira, 11 de setembro de 2024

 

Sem sentido

            O vazio invadiu a casa e o abismo virou sala. Tudo perdeu o sentido como realmente é. Eu me senti confortável na inutilidade das coisas. Um rio de despropósitos jorrou sobre mim, e eu, no abismo da sala, fui lavado pelo rio, que já não tinha importância.

sábado, 7 de setembro de 2024

 

O meu nome

                        O meu nome é Nerino. Esse nome me foi dado pelos meus pais. Suponhamos que eu já tenha vivido vidas passadas e tenha tido, em cada uma delas, um nome: João, Lorenzo, Haruki, Cheng Hao, Maria das Dores.

            Todos os nomes que me foram dados têm a sua importância pelo empenho de alguém para escolhê-los, mas quando eu voltar lá para cima, entre uma vida e outra, gostaria de saber qual o meu verdadeiro nome, qual o nome que eu sou conhecido pelos meus camaradas do lá do céu.

quarta-feira, 4 de setembro de 2024

 

A sombra

            O sol era intenso. Escondi-me debaixo de uma árvore. Cascas de cigarras ornamentavam o tronco. Alguns insetos, mortos de calor, fartavam a passarada. Uma cobra me assustou. Era uma festa de horror. Amedrontado, desisti de procurar abrigo debaixo da árvore e voltei para o sol.

sábado, 31 de agosto de 2024

 

Meu herói

            Será que o espermatozoide que me gerou teve que se esforçar, passar por cima de milhares de outros até fecundar o óvulo? Ou por estar muito bem preparado fisicamente chegou antes dos demais sem esforço?

            Será que se fosse outro espermatozoide qualquer, um dos milhares deles que tentaram fecundar o óvulo eu seria essa pessoa que escreve, desenha, que tem essa aparência, que pensa e age de uma forma única, diferente da forma única de todos os demais?

            Se for assim, se qualquer um daqueles milhares pudessem me gerar do jeito que eu sou, o meu espermatozoide gerador, o meu herói desde os tempos das aulas de biologia no científico perde completamente a importância, mas os outros adquirem o status de heróis, e qualquer uma deles poderiam ter ajudado a gerar esse grande camarada chamado Nerino.

quarta-feira, 28 de agosto de 2024

 

Árvores e fios

            Árvores de rua submetem-se a fios. Primeiro os fios, depois as árvores. Árvores de rua são mutiladas para que os fios, intocados, continuem enviando sinais para as televisões.

sábado, 24 de agosto de 2024

 


Os de baixo

            Nós somo governados por uma pequena aristocracia. São os donos do nosso destino. Eles determinam o que vamos vestir, comer, onde trabalhar, definem o soldo reservado a cada um de nós, o governo que somos obrigado a aturar e as notícias, sempre exaltando-os subliminarmente.

            Muitos de nós, “os de baixo”, sentem-se como aristocratas, agem como aristocratas, sem dar importância para os seus pares, “os de baixo”.

            Essa atitude dos “muitos de nós” não incomodam os aristocratas, que se utilizam dessa conduta sonhadora para se fortalecerem.

            No tempo das cavernas, certamente o aristocrata seria o macho dominante, o mais forte, o primeiro a se alimentar de carne crua e das mulheres do bando.

            Hoje os aristocratas não aparecem muito. Vivem usufruindo dos frutos colhidos por nós, “os de baixo”.

            A verdade é que nós, através dos séculos, continuamos na ilusão de que um dia possamos alcançar a glória de sermos aristocratas.