quarta-feira, 19 de novembro de 2025

 

A máquina desarvorou

         A máquina desarvorou, virou modelo de sonho, pegou no pé do prosaico, rodou num giro enfadonho.
         Procuro livrar-me do eu, tento e vou caminhando, fica escuro, tudo breu, eu continuo tentando.
         Agora eu não vou pensar, o que vier sairá, não quero saber de rima, tampouco do que virá.
         Grito sem pensar no ato, prego no gato o martelo, cuspo na cara do pato, mijo no cogumelo.
         Não gosto de fazer rimas, rusga rica rasga a rua, porra louca, bica fria, me entrego à mente nua.
         Parece que tudo parou, eu não ouço o meu clamor, não sinto nada, nem dor, não sinto o cheiro da flor.
         O mundo ficou vazio, entrando só um clarão, eu começo a sentir frio, um frio em combustão.
         Ironia do destino, hoje a regra é concisão, foge, foge, sai correndo, não se arrisque em confusão.
         Não sei se como um porvir, não sei se durmo acordado, sinto que morei aqui, sinto que morei ao lado.
         Até aí, tudo bem, tudo certinho também, Isso aqui é uma bosta, uma bosta de neném.

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

 

Voar entre estrelas

         Escrever poesia significa juntar letras em pensamento, organizar palavras, desorganizar a lógica e voar entre as estrelas.

sábado, 8 de novembro de 2025

 

Tim, tim

         Eu quero um copo de paz. Pode ser  Cabernet ou Merlot, tanto faz. Eu quero um copo de amor. Este tem que ser espumante. Eu quero saúde da roça, só com limão, a felicidade sem colarinho e bem gelada. Quero a amizade on the rocks e um cocktail de sorte.

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

 

Lua doméstica

         A lua do meio dia, na casa fechada, vem da fresta do telhado aquecendo a mesa inerte. É uma lua doméstica, que só encontra os móveis da sala e quem consegue emocionar-se.

domingo, 2 de novembro de 2025

 

A palavra se revela

         A palavra se revela, eu me arrepio no chão. Pretendo brigar com ela, destravo a foice e o facão. É quando tudo desliza, ideias cortam o clarão: palavra, mente, pesquisa, tudo brotando da mão. A claridade harmoniza, o asco, o isto, a noção, tudo parece que brilha, até concluir, solidão

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

 

O Tempo II

         O tempo tem lá a sua maneira de enganar as pessoas. Distrai-nos com os acontecimentos, os mais maravilhosos, ou os mais escabrosos. Nós estamos sempre distraídos com coisas boas e ruins.
         Enquanto isso o tempo vai passando e quando a gente se assusta, lá se foram os fios de cabelo, os desejos íntimos,
e a gente passa a correr com o tempo, agora, consciente dele,
agora, tentando superá-lo, mas sabendo que nada conseguirá domá-lo

domingo, 26 de outubro de 2025

 

Se não existisse a morte

            Imagino-me em um filme, eu o ator, o criador, o diretor. Fácil viver lá dentro. Lá eu não tenho medo, eu represento o medo. Eu posso estar andando nos becos mais sórdidos e, de repente, ser hostilizado por um grupo de viciados. Minha reação pode ser infinita:  posso me impor, lutar até a morte, posso usar como arma a retórica, depende do texto, posso sair dali sem que ninguém me veja, posso até morrer que nada vai mudar (eu não vou morrer mesmo!) No fim eu troco de roupa e vou-me embora.

         Se não existisse a morte nós viveríamos eternamente dentro de um filme, sem medo, sem angústia, mas também, o nosso tédio seria bem maior.

  

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

 

Morrer como todo mundo

         Você é induzido a mentir como todos mentem, e se não o fizer, estará fora de um mercado próspero, que cresce a cada dia,
dando grande conforto aos mentirosos.
         Você é impingido a fingir, como todos fingem, e este é outro mercado promissor.
         Você sorri com o canto da boca, meneia a cabeça quando ironiza, disfarça um olhar de desaprovação, cospe em pensamento no rosto de um desafeto, bajula os poderosos, ignora os necessitados, necessita de cada centavo alheio, e justifica tudo isso
em nome de uma causa nobre: acumular o máximo de objetos possíveis para, no fim, morrer como todo mundo.

 

sexta-feira, 17 de outubro de 2025

 

O poema

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quarta-feira, 15 de outubro de 2025

 

Chuvas diferentes

            Chove na cidade. Chove no campo. As duas chuvas são diferentes:
a chuva da cidade multiplica os carros, entope bueiros, derruba árvores.
A chuva do campo abaixa a poeira, transforma pingos em deslumbrantes
gotas de cristal, e, quando passa, chama as borboletas para brincar
de roda com o sol.

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

 

Velório

         Os meus livros estão mortos na gaveta. Existem sem servir
Para nada. Eu os visito e os velo como a uns defuntos. As pessoas os ressuscitarão, mas onde encontrá-las se eu também estou morto
esperando que alguém me ressuscite.

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

 

O agora vazio

          Não falo de peixes, árvores, sabedoria dos incultos; comunhão.
         Falo de prédios, postes, árvores de rua; convenção. Falo de fio desencapado, carcaça de computador, sinais de trânsito; confusão.
         Falo também do tempo que não passa e do tempo que voa. Dois tempos distintos; solidão.
         Falo do tempo que não passa agora. Passa rápido o dia, o mês, o ano. Mas o agora não passa, e os agoras são insignificantes se comparados aos dias, meses e anos.
         O agora vazio não passa e não deixa o tempo passar. Depois o vazio deixa de existir e o dia, o mês e o ano passam apressados,
deixando-nos sem teto, sem rumo, sem porto, sem prumo.

sábado, 4 de outubro de 2025

 

Mulher bonita

A mulher bonita é sol, lua, noite estrelada, solidão.

A mulher bonita ama, se arruma, banha-se em jasmim, ilusão.

A mulheres bonita são bonitas por terem nascido assim, quinhão.

Sua beleza silencia, constrange, imbeciliza, admiração.

E as feias, que se acham bonitas, conseguem se igualar a elas na imaginação.

terça-feira, 30 de setembro de 2025

 

O meu passado

            O meu passado se alojou na memória e vive de mãos dadas com o presente. Eu tento me livrar dele. Preciso andar, seguir em frente. Não pensar em futuro, passado, só no presente.

sábado, 27 de setembro de 2025

 

Deus

            Com os olhos para fora da piscina, me deleitando com o brilho intenso do reflexo do sol na água, observei uma libélula quase me tocando a cabeça, no seu ritual de lava-bunda. Depois ela partiu para se encontrar com Deus, e eu também, boiando na claridade.

 

quarta-feira, 24 de setembro de 2025

 

O poste

            Sou mais exposto a postes do que árvores. O poste não tem galhos
para brincar com a ventania. É como se fosse um tronco sem galhos. Os cachorros usam os postes como banheiro e os pássaros cagam no seu topo.
            E só!

sexta-feira, 19 de setembro de 2025

 

A folha

            A folha desarvorou. O vento tentou pegá-la. Ela brincou com o vento, até pousar sobre a cabeça de um sapo. Depois do susto o sapo fechou os olhos e se aconchegou para dormir na sombra.

quarta-feira, 17 de setembro de 2025

 

A pomba

            A pomba encantou o asfalto e encheu de orgulho o farelo de bolo. O automóvel atrapalhou tudo.

sexta-feira, 12 de setembro de 2025

 

0 seu passado condena 

            Quando você começa a desprezar os jovens, pode saber que toda a juventude que existia aí se esvaiu. Você ficou velho e não se lembra ou não quer se lembrar de todas as inconsequências da sua juventude. É nesse momento que você, um sujeito perfeito, sem mácula na sua honradez, segura esse quinhão, como se os jovens de agora fossem diferentes dos jovens de outrora. O seu passado condena.

terça-feira, 9 de setembro de 2025

 

A galinha ideal

            Olha, Deus que me perdoe por dizer isso, mas com toda a perfeição da Sua criação, eu acho que a galinha deveria dar o ovo, a carne e o leite. Seria maravilhoso ir ao quintal ao amanhecer e ordenhar a galinha para complementar a mesa do café da manhã. Isso, além de ser muito mais prático, nos livraria da flatulência das vacas, que causam grandes transtornos, como o efeito estufa e o aquecimento global.