domingo, 30 de junho de 2024

 

A dançarina do arame

            A dançarina do arame se contorce toda para manter-se de pé. Sua elegância é transmitida pelo guarda chuva que lhe dá suporte. Ali ela reina absoluta. Chega o momento em que a dançarina vira arame e nem o desconforto da música desafinada a faz desprender-se de lá.

quarta-feira, 26 de junho de 2024

 

Virando na cama

            Acordo e vou correndo mato adentro de mim mora um anjo feito a cara escarrada do pai nosso que vai dar no fim da linha do trem bom de cama, bom de briga, bom de papo furado feitos um para o outro lado da cara de pau duro de roer a corda bamba que dorme novamente.

sábado, 22 de junho de 2024

 

Outras paisagens

            Quinta feira. Eu sentado sozinho à uma mesa. Bar cheio, quase todos acompanhados. À minha frente, em uma mesa com umas 15 pessoas, uma linda loura, parecida, mas muito mais bonita do que uma linda loura que eu conheço. Eu não tinha para onde olhar e acabava sempre olhando para ela. Ela conversava de uma maneira muito agressiva, e por não ter para onde olhar, acabava olhando para mim. Nós dois nos olhávamos apenas por estarmos de frente um para o outro. A sua agressividade tirava todo o seu encanto. Então eu continuei no bar, mas sentei na cadeira ao lado para apreciar outras paisagens.

quinta-feira, 20 de junho de 2024

 

Flagelo

O sol pressentiu o caos e, covardemente, escondeu-se atrás das nuvens. Elas, agitadas, despejaram suas fúrias em restos de casas, móveis enlameados e no choro desesperado dos desabrigados.

sexta-feira, 14 de junho de 2024

 

Irmãos

                São Francisco de Assis dizia que nós e os animais somos todos irmãos. O irmão Leão, a irmã Girafa, o irmão Tigre, o irmão Urso, as irmãs corujas, todos irmãos.

                Até aí aceita-se esses animais vigorosos sem preconceito, mas na lógica preconceituosa do ser humano, logo a coisa muda. Então vêm os irmãos de uma casta mais baixa. São os agregados, os irmãos de criação, como o macaco, a hiena, o bicho preguiça, o porco.

                Mas existem outros irmãos que sofrem de preconceito como os judeus sofreram na segunda guerra, os palestinos sofrem isolados no seu canto e os negros sofreram e sofrem até hoje. São as irmãs baratas, os irmãos morcegos, os irmãos gambás e os irmão germes, estes últimos, que apesar de limparem a terra dos nossos restos, são também vitimas dos preconceitos mais crueis.

quarta-feira, 12 de junho de 2024

 

Anjo e banjo

            Todo anjo é bom. Pelo menos convencionou-se que é assim. Todo banjo tem som. Isto se ele não estiver estragado. Um anjo tocando banjo é uma convenção sem defeito.

sábado, 8 de junho de 2024

 

O chato

            Há dias em que você não quer ver ninguém, e justamente nesses dias os chatos resolvem telefonar ou aparecer. Você vai, pé-ante-pé, e constata, através do olho mágico, que é o chato! Enquanto você está pensando se vai ou não abrir a porta, o telefone toca. O telefone tem que ser atendido, pois pode ser alguma coisa grave. Você fica sem saber se continua a observar no olho mágico ou se vai atender, e meio desesperado, diz em voz alta: “espera ai um momentinho”. Corre para o telefone e diz: “espera ai um momentinho”. Volta correndo, abre a porta e antes mesmo de dizer que vai atender o telefone, o chato te abraça e te cospe todo, dizendo que você está ótimo. Quando você finalmente tenta dizer que vai atender o telefone ele diz que acabou de vir do cinema, e, pegando no seu braço, começa a contar o filme aos berros, acordando a sua filhinha recém-nascida.  A filha chora e o chato continua contando o filme até você se lembrar de que o telefone está para ser atendido, e quando corre para atendê-lo, se depara com um outro chato que, quando para de falar, o chato cinematográfico, desistindo de esperar, já partira sem se despedir.

            Aí você vai para o quarto, tentar ajudar a sua mulher a cuidar da filhinha chorona.

quarta-feira, 5 de junho de 2024

 

Bola de sabão

            No emaranhado de imagens maquio a minha solidão. Às vezes o esforço para criar a imagem perfeita é desgastante, e quando ela aparece, em sua plenitude, tudo se transforma em realidade, e a solidão, mesmo sabendo que está sendo enganada, retira-se por alguns instantes, até que a imagem estoure, desaparecendo como uma bola de sabão.

domingo, 2 de junho de 2024

 



A cega

            A sua cegueira está focada em num homem só. Você só enxerga a cegueira em mim. Eu sou a sua escuridão, embora a sua luz me mantenha aceso. Você me ilumina, e apesar de toda a luz de que me alimento, não consigo livrar-te da sua escuridão.

quarta-feira, 29 de maio de 2024

 

Escrever

            Eu gostaria de ficar escrevendo o tempo todo. Eu gosto de escrever e não gosto de falar. Eu não consigo falar, principalmente se todos quiserem me ouvir. Escrevendo, eu consigo me comunicar com várias pessoas ao mesmo tempo, e apesar de elas não estarem lendo os meus textos no momento em que escrevo, existe uma possibilidade de que um dia todos leiam, e dessa forma eu me sinta bem. Esse é o desejo de todo escritor.

             Escrever é bom, é particular, é criativo, é sensacional, e você que escreve pode ser um chorão, reclamar da vida, pode ser verdadeiro, mentiroso, poético ou escandaloso. E o principal: você pode ser você mesmo.

            Escrever é uma aventura.

sábado, 25 de maio de 2024

 

“PLOC”

                Um homem, ao sair do quarto escuro, pegou o chapéu e correu até a porta. Desesperado, tentava falar, sem conseguir. Sentia, há tempos, que começara a ficar mudo. Queria se libertar da vida que levava, e já na rua, abraçou o primeiro transeunte que encontrou. Por coincidência esse transeunte era eu, que nesse instante quase chorei de emoção diante daquele gesto nobre. Apertei-o contra o peito e ele ainda brincou, segurando o meu nariz entre os dedos. Eu espirrei três vezes e comecei a me coçar. Foi tudo muito rápido: cocei, cocei, e, de repente, a pele começou a se desfazer nas minhas mão, e logo em seguida a carne também. Eu tocava, aflito, os meus próprios ossos, e o couro cabeludo se desfez entre horror e lágrimas. Um dos meus globos oculares caiu como uma bola de gude e eu, olhando aquele olho no chão, com o olho que me restara, tive vontade de pisar para ouvir fazer “PLOC”.

quarta-feira, 22 de maio de 2024

 

A memória de um morto

            O meu computador morreu. Eu o velo na mesa de vidro jateado. Levou consigo tudo o que eu não guardei na memória. As migalhas estão nas nuvens. Meu passado, meus sonhos, meus desejos, tudo isso confiei na memória de um morto.

sábado, 18 de maio de 2024

 

A sua cabeça

            A sua cabeça é imprevisível. Eu gasto muito tempo tentando decifrá-la. Sempre me iludo achando que sei o que acontece lá dentro. Ela, com razão, diz que eu não sei, mas na verdade, o que me interessa lá dentro é aquela confusão cativante.

quarta-feira, 15 de maio de 2024

 

Objetos

            Lá vem o dia cheirando a carros. Poderia exalar o cheirar de uma rosa ou o da brisa do mar, e não o do azul do carro. Poderia brilhar o dia, não o brilho de faroletes, e sim, o brilho exuberante de uma belo manhã de sol. A fumaça nos impede disso. Lá vem o dia esbanjando objetos.

sábado, 11 de maio de 2024

 

Só ando com o necessário

            Eu não tenho nada. Não acumulei nada. Só ando com o necessário. Em vez de ter várias casas, contento-me com asas. Não quero ser grande, andar como se de salto-alto. Eu não acumulei riqueza. Sou rico de companhia. Não morro de amor por carros. Gosto de observar o caminho. Não quero poder. Quero poder ser.

            Mas eu tenho um cachorro.

quarta-feira, 8 de maio de 2024

 

A roseira

            A roseira cobre-se sob um corpo de espinhos. Inventou este artifício para se proteger de herbívoros. O homem, carnívoro, deveria deixa-la em paz, mas inventou a tesoura para roubar-lhes as rosas e enfeitar as suas casas, usando algumas pétalas como marcadores de livros.

sábado, 4 de maio de 2024

 

O grande orgasmo

             Na verdade a vida aqui na terra deveria ter um final diferente do que acontece na maioria das vezes.  É sempre triste uma pessoa entubada esperando a morte num leito de hospital.

            Ao contrário do usual, nós deveríamos nascer e ter uma relação íntima conosco. Uma relação sexual. 

            Começaríamos nos descobrindo e usando de todas as possibilidades que a vida nos oferecesse para sentir prazer, e no fim, depois de muitos anos, já velhinhos, atingirmos o clímax, o ponto mais alto da nossa relação conosco: o grande orgasmo.

            E fim.

terça-feira, 30 de abril de 2024

 

Perdas e ganhos

A vida tem ido bem, apesar dos atropelos. Ontem eu fui atropelado por uma jamanta. Não foi nada grave. Fiquei sem três dedos do pé esquerdo, sem o pé direito (para ser mais preciso, da canela para baixo), sem o rim direito, perfurado pelo para-choque da jamanta e uma parte da orelha, também direita.

Como no atropelamento de anteontem eu já havia perdido a orelha esquerda, não liguei muito porque deu um certo equilíbrio no meu rosto sem nariz.

Parece mentira, mas a sorte, apesar de tudo, tem sorrido para mim. Outro dia eu estava andando na rua e olhei, sem querer, para a janela de um prédio, e lá estava ela, sorrindo, sorrindo. Ria que se mijava toda, e eu, meio encabulado, comecei a rir também: há, há, há, há...Há, há ,há, há ,há, há, há, há...Quááá quááá, quááá, há, há, há, há, há ,há.
            Fiquei lá, parado, rindo, e quando percebi que ela não estava rindo para mim, e sim rindo de mim, veio uma Kombi e PUFT! Fiquei sem quatro dentes da arcada superior direita e um bago; o esquerdo.

O chato é que quando eu me acostumo a andar mancando, nasce novamente o pé. Quando eu me sinto feliz por não ter mais que cheirar a podridão espalhada pela cidade, nasce novamente o nariz.

A vida é cheia de perdas e ganhos.

sábado, 27 de abril de 2024

 

Suçuaranas

            Estou sentado em um banco dos jardins do Palácio das Artes, onde na semana passada um homem me disse para sair porque as folhas da árvore que sobe atrás do banco estavam infestadas de suçuaranas. As folhas realmente estão comidas, porém, daqui não se vê suçuaranas, e sim, um lindo céu azul sem nuvens. As suçuaranas abriram o espaço para que eu possa observar o céu, e eu resolvi arriscar e me sentar debaixo das folhas comidas.

            Talvez eu esteja tentando me auto destruir, deixando que uma enorme suçuarana caia sobre mim e me devore em poucos minutos, e após ruminar na presença de curiosos assustados, cuspa, entre babas e gosmas, a minha roupa ensopada. Isso seria um grande acontecimento para um sábado que não promete nada.

quarta-feira, 24 de abril de 2024

 

Eu

                Quantos sou? Agora sou eu. Sou também o eu que já fui, e o que serei. Tudo isso num eu só. Sou sempre vários eus agora.