sábado, 27 de dezembro de 2025

 

Música antiga

         A música que eu ouvi era antiga, muito antiga, e me remeteu ao passado. Na época em que eu ouvia essa música eu era muito feliz, e, imediatamente, senti toda aquela felicidade.
         Essa sensação agradável, como se a vida voltasse a ser o que era, durou muito pouco, e apesar de ter me remetido a um maravilhoso lugar do passado, não foi capaz de me segurar lá, devolvendo-me violentamente para a minha dura realidade.


quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

 

Quanta besteira

         Mão de recorte, olho de cera, corpo de morte, quanta besteira. 
         Bule de mola, bico de mula, cara de bola, boca de gula.
         Primo, parente, olho dourado, voz de serpente, ombro cansado.
         Coisas da vida, vida demente, vida batida, solidão ardente.

sábado, 20 de dezembro de 2025

 

Imaginação

            Eu saio do quarto e penduro-me no abacateiro do vizinho. Não é muito confortável ser morcego, ainda por cima, em um dia de sol como este. A claridade me ofusca. Arrisco uma olhada para o chão. Não tenho medo; não vou cair mesmo! A não ser que eu queira.
            Minha mãe bateu na porta do quarto. Eu caí.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

 

Bolinha de papel

             A mão que escreve um universo de ideias e a mesma que amassa esse universo antes que tudo volte ao normal

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

 

A Grande viagem

         Primeiro, a sensação agradável de um casal na cama, depois um espermatozoide sendo jogado, entre milhares, dentro de um canal. Um deles, como os outros, caminha apressado sem saber por que. Continua correndo, disputando com todos os outros, não se sabe o quê. Finalmente ele, só ele, entra em um lugar gelatinoso, aconchegante, que se fecha após sua passagem. O lugar é confortável e logo acontecem várias transformações, até que um de nós saia, dilatando uma fenda secretante, e depois de algum tempo já estamos disputando, agora, dinheiro, poder, correndo para chegar ao topo, não se sabe de onde, com a esperança de, no fim, entrarmos num lugar claro, aconchegante, e finalmente encontrarmos a tão sonhada paz eterna. 

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

 

O prego

          Achei um prego no chão. Prego novo, de aço. Aquele prego não me interessava. Se fosse um prego com personalidade, torto, desprezado, enferrujado, eu teria me apossado dele. Aquele prego não tinha história. Joguei-o novamente na calçada e voltei ao esplendor das coisas inúteis.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

O decorrer do dia

            Acordou mar revolto. Durou pouco. Logo virou balanço de mar, e mais tarde, calmaria. Foi nessa hora que todos começaram a lhe aviltar.