sábado, 4 de abril de 2026

 

Vampiros

            Os vampiros têm vida eterna. A cada dentada transforma o dentado num vivente eterno. Eu não entendo esse horror que as pessoas sentem dos vampiros. Ele está sempre acompanhado de lindas mulheres. É comedido, ao falar, ao andar, e sua indumentária é antiga mas sóbria. Uma mordidinha no pescoço pode mudar a sua vida, onde não mais existirá o medo da morte, e poderás passar de um cómodo para o outro entre as paredes, e ter uma força descomunal. Isso tudo apenas com uma dentadinha de nada.
            Eu acho que as pessoas têm um medo atávico de injeção, por isso acham a dentada do vampiro tão repugnante.

quarta-feira, 1 de abril de 2026

 

Se fosse fácil ventar

            Se fosse fácil ventar, eu ventanejava. Planava em montanhas, flanava em campinas, soprava de leve os cabelos da amada, e ajudava crianças com suas pipas. Se fosse fácil ventar, eu ventaniava palavras.

sexta-feira, 27 de março de 2026

 

Sempre que eu faço uma pintura, ao terminar, escrevo minhas considerações para entender o que fiz e dar um nome para a tela.

O Arlequim tocando flauta

Óleo sobre tela
56 X 76 cm
2012

Nesse quadro eu trabalhei com várias camadas de tinta a óleo antes de chegar ao resultado final. Trata-se de uma exposição de arte, onde o artista -  Arlequim - personagem da Comédia Dell’arte, cuja função se restringia a divertir o público durante o intervalo dos espetáculos, se esconde no Arlequim para não ser confundido com o idiota da aldeia. Diz a lenda que quando uma pessoa come o coração do Arlequim (experiência estética) essa pessoa se transforma em Arlequim, e o artista se preocupa com a imagem que passará para o público.


quarta-feira, 25 de março de 2026

 

A insatisfação das unhas

Minhas unhas dos pés e das mãos crescem como verduras na horta. Elas nunca estão satisfeitas.

sábado, 21 de março de 2026

 

Solidão fagueira

             Estou deitado na minha cama. Acabo de desligar o aparelho de som. Ouvia a Sonata 448 K de Mozart. Desliguei, mas deixei a luz do rádio acesa, pois ela dá vida ao quarto, com uma iluminação fraca e suave. Da janela entra uma brisa que vem da Praia do Arpoador. A noite, para muitos, está apenas começando, e para mim, que já estou sem paciência para continuar, já não serve mais para nada.       
            Estou deitado de barriga para cima. Sobre o meu corpo há um lençol branco com listas bege, bem clarinhas. Meus braços estão fora do lençol.
            Vem passando sobre o taco do quarto uma aranha caranguejeira. Ela deve medir uns 20 cm. Eu não usei uma régua para medi-la, mas se o meu palmo tem 22 cm, é fácil concluir que ela mede 20 cm. Ela é marrom escura, muito peluda e bonita.
            Agora ela sobe pelo pé da cama. Vem vagarosamente sobre o lençol. Está subindo pelo meu braço. Passou pelo ombro, pescoço e se acomodou sobre minha boca. Ela gosta de passar a noite ali, pouco abaixo do meu nariz. O ar morno que eu exalo, logo após uma expiração, a conforta durante o seu sono.
            Uma lesma passou pela sala enquanto eu me distraia com a aranha. Eu sei que ela passou porque a luz do rádio na sua gosma proporciona um espetáculo, como se estivéssemos olhando para um arco-íris. Ela sobe vagarosamente pelo pé da cama. Entrou por debaixo do lençol e se dirigiu para a minha barriga. Ela gosta de passar a noite ali: subindo e descendo no embalo da minha respiração.
            Uma centopeia ocupa seu lugar sobre o lençol. Centopeias são carnívoras e eu não as deixo se aproximarem. Já está de bom tamanho se aconchegam na minha cama.
            Agora vêm as quatro baratas. Há muito tempo que vêm essas quatro. Depois que todos estão acomodados elas chegam apressadas e se alojam numa cavidade entre a minha cabeça e o travesseiro. As quatro se embolam ali. Parece uma suruba, mas eu não sei se é uma família: pai, filho, filha; então eu não vou nem julgar.
             Há algum tempo eu estou aqui quietinho para não incomodar os meus companheiros. Parece que eles dormiram bem à noite. O dia está amanhecendo e entra pela janela uma luz cinza amarelada.
            A aranha é sempre a primeira a partir. Quando ela se levanta, suas patas roçam o meu nariz causando uma insuportável coceira.  A centopeia passa apressada pela sala enquanto a lesma desce vagarosamente sobre o pé da cama.
            As baratas saíram da caverna. Elas esperam a aranha ir embora. São inimigas mortais e sempre que se encontram, brigam ferozmente. Apesar de serem em maior número, as baratas não superam a força da aranha. Elas sabem que eu não gosto que briguem, portando esperam a aranha partir para poderem ir embora.
            Agora eu ajeitei o lençol, deitei virado para o lado esquerdo e posso relaxar, sem perigo de causar algum transtorno aos meus amigos. O dia se inicia e com ele, toda lépida e fagueira, vem também a minha solidão. 

quarta-feira, 18 de março de 2026

 

O trenzinho de corda

             Dia de sol, a pasta pesando. O trenzinho de corda ficou para traz. A dívida do dever. Castigo na escola. Uma hora perdida. Castigo também em casa. O trenzinho há de esperar.

domingo, 15 de março de 2026

 

Bela e feliz como todo mundo

            Dizem que a meditação é um vício solitário. Que seja. Mas se comparado ao mais satisfatório dos vícios, a meditação é mais centrada no relaxamento, na contemplação, no entanto os dois vícios causam um grande prazer ao viciado, e a intensão é essa: sentir alegria, sentir prazer, ser feliz.
            Todos nós ansiamos a beleza suprema, a felicidade suprema, a saúde suprema. Você pode ser feia como um camelo, mas se esmerar diante do espelho para se sentir bela e feliz como todo mundo. Se você, ao sair, se acha assim, isso basta.

quinta-feira, 12 de março de 2026

 

   Assim também não daaaaaaaaaaaá    

Vou tomar umas cervejas para desanuviar as guerras.
Até mais.

sábado, 7 de março de 2026

 

Pelada

            A pedra, agora trave de futebol, adquiriu uma importância demarcante.  
A bola toma pontapés, enquanto o suor da criançada chove na poeira
do campinho terroso.

quarta-feira, 4 de março de 2026

 

Encantos

          Uma mulher, sem saber que alguém a observa, parece uma flor. Ela não sabe que está sendo observada, por isso, se transforma em flor, brilho, risco, solidão. Sua luz desperta o desejo. Uma mulher encolhida, sem saber que está sendo observada é vulnerável a encantos.

sábado, 28 de fevereiro de 2026


 

Alguns podem achar que eu sou louco, ou um sonhador. Sonhador eu sei que sou, de devaneios estranhos, portanto acho que a música “Imagine” de John Lennon é um grande exercício para a imaginação, com uma grande força metafísica e cosmológica. Quanto mais pessoas imaginarem um mundo melhor, mais probabilidade haverá de uma grande mudança.

Imagine

John Lennon

Imagine que não exista paraíso. É fácil se você tentar. Nenhum inferno sobre nós, acima de nós, apenas o céu. Imagine todas as pessoas vivendo o presente. Imagine que não há países. Não é difícil. Nenhum motivo para matar ou morrer e nenhuma religião também. Imagine todas as pessoas vivendo a vida em paz. Você pode dizer que eu sou um sonhador, mas eu não sou o único. Eu espero que algum dia você se junte a nós e o mundo será um só. Imagine que não existam posses. Eu me pergunto se você consegue, sem necessidade de ganância ou fome, uma irmandade dos homens. Imagine todas as pessoas compartilhando o mundo inteiro. Você pode dizer que sou um sonhador, mas eu não sou o único. Eu espero que algum dia você se junte a nós e o mundo viverá como um só.

 

sábado, 21 de fevereiro de 2026

 

Belo Horizonte

            Onde está o belo horizonte, que já encantou a ponto de virar nome de cidade? Onde está o sol vermelho do poente, que eu procuro da porta do meu prédio, escondido entre vários outros prédios? Somos brindados com pequenas frestas de horizonte, que ao final da tarde, na rua Sapucaí, todos contemplam deslumbrados esse modesto pôr do sol, já acostumados ao pouco que lhes é oferecido.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

 

A galinha

         Com o seu cérebro pequeno a galinha não arrisca. Olha para os lados antes de dar um passo. Parece pisar em ovos. Bica o chão fugindo da própria sombra. Divide a ração com seis galetos que também não arriscam perder o conforto da proteção materna que não protege.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

 

Conceito e lama

         Atento às insignificâncias, me desprendi do conchavo com as aparências e me joguei, viajando por bilhões de anos luz, sempre observando conceitos espúrios, e quando voltei, enlameado daquilo tudo, consegui entender que, conceito e lama andam de braços dados, e que conchavo e aparência nos transformam naquilo que os outros querem que a gente seja.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

 

Moto-contínuo

         Cada macaco no seu galho, cada galho na sua árvore, cada árvore no seu chão, cada chão na sua terra, cada terra no seu sistema solar, cada sol na sua galáxia, cada galáxia a sua Via Láctea, cada Via Láctea na cabeça de cada um, cada um nas suas casas, cada casa com seus carros, cada carro com seu dono, cada dono com seus problemas, cada problema com seu bobo, cada bobo como um macaco no seu galho, cada galho...

sábado, 31 de janeiro de 2026

 

Velório II

            Quanto mais os anos passam, mais mortos você visita, e é claro, você sempre torce para não ser visitado. Quando eu estou lá,
visitando um desses mortos, sinto que ele se apresenta de uma forma muito esnobe, ali deitado, não participando de nada ao seu redor.
         Às vezes eu sinto que eles levam certa vantagem sobre as pessoas que ali estão, pois, já têm a experiência da morte e as pessoas não. Eles já podem estar envolvidos com outras maneiras de ser, ou com o nada absoluto, com o descanso total, com o descanso que não tem graça.
         De certa forma eu prefiro estar ali vivo, adquirindo mais experiência em vida não sei para quê.
         Esta é a minha vantagem.

 

domingo, 25 de janeiro de 2026

 

A coisa escrita

         A coisa escrita solidifica-se no papel. Sai da cabeça e em vez de perder-se na fumaça dos pensamentos passados, cola na folha e passa a interagir com pensamentos que logo se perderão na fumaça dos pensamentos passados.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

 

Confusão

            Passeei pela memória. Ela estava confusa, escura, me deu medo. Becos lúgubres, com calçamentos molhados refletindo a pouca iluminação do lugar. Eu tentava tirar algo de belo dali, sem conseguir.

             Merda!



sábado, 17 de janeiro de 2026

 

Morrer como todo mundo

         Você é induzido a mentir como todos mentem, e se não o fizer, estará fora de um mercado próspero, que cresce a cada dia, dando grande conforto aos mentirosos.
         Você é impingido a fingir, como todos fingem, e este é outro mercado promissor.
         Você sorri com o canto da boca, meneia a cabeça quando ironiza, disfarça um olhar de desaprovação, cospe em pensamento no rosto de um desafeto, bajula os poderosos, ignora os necessitados, necessita de cada centavo alheio, e justifica tudo isso em nome de uma causa nobre: acumular o máximo de objetos possíveis para, no fim, morrer como todo mundo.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

 

Estabilidade momentânea

         Amigas inseparáveis, a tristeza e a solidão conheceram a alegria e o amor. Os quatro se entrelaçaram entre abraços e beijos e logo nasceu a estabilidade.
                O tempo há de desestruturar tudo.

sábado, 3 de janeiro de 2026

 


O silêncio interrompido

         O silêncio interrompido desarranjou as palavras que estavam sendo organizadas na mente do poderoso. Ali as palavras têm ordem e sentido. E ai de quem desordenar! Ele teve vontade de mandar prender a interrupção, mas voltou para suas palavras ordenadas e vazias